DO PODER DA PALAVRA

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ADÉLIA BEZERRA DE MENESES

 

Em “As 1001 Noites”, Sheherazade vence a morte e o poder, propiciando a cura através de um discurso vivo, corpóreo

 

“As 1001 Noites” em geral nos chegaram através de antologias infantis. Conhecemos as Histórias: “Sindbád, O Marujo”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “O Pescador e o Gênio” etc. Mas tais antolo­gias acabam por privar o leitor do plano geral da obra – a estrutura de encaixe dos contos, embutido uns dentro de outros- e, sobretudo, da poderosa figura da Sheherazade, que vence a morte através da Literatura. Tra­ta-se da maior apologia da Palavra, de que se tem conhecimento. E analisar o papel da contadeira de histórias significará abordar o problema das relações da mulher com a Literatura, da mulher com a Palavra, da mulher com o símbolo e com o corpo.

Sheherazade é personagem da narrativa que inicia e termina “As 1001 Noites”, servindo-lhes de moldura; é a partir dela que se dará o pretexto para os demais con­tos. Trata-se da história de Xariar, sultão de todas as Índias, da Pérsia e do Turquestão, que descobre, por intermédio de seu irmão, imperador da Grande Tártaria, que sua mulher o traía -E ele toma conhecimento disso no mesmo momento em que o irmão lhe revela que também fora traído pela mu­lher. A conclusão é inevitá­vel: “Todas as mulheres são naturalmente levadas pela infâmia, e não podem resistir à sua inclinação”. O sultão, no estupor da mais funda desilusão afetiva, propõe ao irmão que ambos  abandonem seus Estados e toda a sua glória, e saiam pelo mundo para, em terras estranhas, melhor esconderem seu comum infortúnio. O irmão aceita, com a condição de que voltariam se encontras­sem alguém mais infeliz do que eles próprios. Seguem caminho, disfarçados, e chegam à beira-mar, onde são surpreendidos por algo que parece um maremoto. Sobem a uma árvore, escondem-se entre os galhos, e presenciam uma cena qual um gênio (um djinn) tira do mar uma grande caixa de vidro, fechada a quatro chaves, onde estava encerrada uma bela mulher, quase adolescente, que ele libera da caixa. Era a sua mulher, que ele roubara para si no dia de suas núpcias, e que mantinha presa. Declarando-se cansado, o gênio diz à mulher que gostaria de deitar a cabeça nos seus joelhos, e adormece.

Os dois irmãos acabam por ser descobertos no meio das ramagens de seu esconderijo pelos olhos perscrutadores da jovem. Ela retira delica­damente a cabeça do gigante do colo, vem para baixo da árvore e propõe aos dois irmãos que tenham relação com ela. Atemorizados pela presença do gênio, eles inici­almente se recusam, mas ela os força exatamente com o argumento de que, se não dormissem com ela, ela acordaria o gênio. Obrigados, eles satisfazem sua vontade, primeiro o mais velho, depois o caçula. Ao fim, a jovem pede a cada um o seu anel. E diante de seus olhos estupefatos, abre uma pe­quena bolsa que continha outros 98 anéis. Conta que esses anéis foram dos homens que já a tinham possu­ído. “Com os dois de agora, diz ela, completo uma centena”. “Uma centena de amantes, malgrado a vigilância ciumenta e a precaução do gênio, que me quer só para si”. Ele se esmerava em encerrá-la numa caixa no fundo do mar, mas ela não deixava de enganá-lo…  “Vede que, quando uma mulher tem um desejo, não há mari­do que possa impedir a sua execução” – dizendo isso, ela se senta e coloca de novo a cabeça do gênio, que conti­nuava a dormir, tranquilamente em seu colo.

 

Plano

Os dois irmãos voltam pelo caminho de onde tinham vin­do, comentando que nada no mundo ultrapassava a malícia das mulheres, e que, nesse assunto, até aquele gênio de poderes sobrenatu­rais era mais infeliz do que eles. Convencidos da perfídia feminina, decidem retornar cada um para o seu reino. O sultão Xariar formula um plano, que lhe permitiria manter sua honra inviolavelmente preservada, sem que fosse obrigado a prescin­dir de mulher: consistia em dormir a cada noite com uma virgem, e no dia seguinte, ao acordar, mandar matá-la, pelo seu grão-vizir. E escolheria uma nova para a noite seguinte, e assim por diante. A cada dia, uma jovem casada e morta. E o início dessa prática trouxe à cidade a mais intensa das desola­ções.

Ora, o grão-vizir, que devia ao sultão a mais cega obe­diência e que malgrado sua vontade, a cada noite apre­sentava ao sultão um nova virgem, e a cada manhã, malgrado sua repugnância, era obrigado a matá-la, tinha duas filhas: Sheherazade e Dinerzade. E assim que, textualmente, é apresentada Sheherazade, na versão de Galland:

“… tinha uma coragem maior do que se seria de esperar do seu sexo, e um espírito de uma admirável penetração. Tinha muita lei­tura e uma memória tão prodigiosa, que nada lhe escapava, de tudo que ela “avia lido. Aplicara-se com todo sucesso ao estudo da filosofia e da medicina, e das belas-artes; e fazia versos melhores que os mais céle­bres poetas do seu tempo. Além disso, era provida de uma grande beleza, e uma muito sólida virtude coroava todas essas belas qualida­des.” (G., vol. 1, pág. 35)

Dessa descrição ressaltam primeiro as qualidades “inte­lectuais” que fazem de Sherazade uma mulher extremamente inteligente e que se cultivava (lia, estudava, fazia poesia). Mas suas características propriamente físicas -que não são dadas em detalhe, e vêm depois, e só depois, das intelectuais, também não são descuradas: trata-se de uma bela mulher.

Pois bem: essa mulher altamente interessante que parece ser Sheherazade, comunica um dia ao grão-vizir seu pai que queria tornar-se mulher do sultão:

“Desejo por um termo a essa barbárie que o sultão exerce sobre as famílias des­ta cidade. Quero dissipar o temor que tantas mães têm de perder suas filhas de uma maneira tão terrível. (…) Se eu perecer, minha morte será gloriosa; se tiver êxito, restarei um serviço importante minha pátria.”

E combina com a irmã seu plano: Dinerzade deveria deitar-se no quarto nupcial (sob pretexto de que, ainda uma vez, elas pudessem passar uma noite próximas), e uma hora antes do romper do dia, deveria acordar Sherazade e solicitar-lhe que contas­se uma de suas histórias. É o que se passa: nessa noite, depois de ter dormido com o sultão, que a desvirgina, Sheherazade é despertada pela irmã, que lhe pede uma história -talvez pela ultima vez. Depois de obtida a permissão do sultão, Shehrazade começa a narrar. E no auge do suspense, quando a ação esta para ser definida e a curiosidade do seu real ouvinte aguçada, vendo que a aurora se anunciava, suspende sua narrativa:

“Sheherazade, nesta pas­sagem, percebendo que era dia e sabendo que o sultão se levantava bem cedo para fazer suas preces e ir gerir seus negócios de Estado, parou de falar.” (G., vol. 1, pág. 46).

Diante da observação da irmã, de que essa história era maravilhosa, Sheheraza de lhe afirma que a continu­ação seria mais maravilhosa ainda e que, se o sultão quisesse deixá-la viver mais um dia, que lhe desse permissão para acabá-la na noi­te seguinte. Sheherazade ganha um dia de vida. Na segunda noite, quando a irmã a acorda, Sheherazade “sa­tisfaz a curiosidade do sul­tão”; acaba a historia inicia­da e começa uma nova, interrompida no auge do sus­pense, ao romper a aurora: e assim, noite após noite, o sultão declara desejar ouvir a história iniciada na véspera, e a deixa viver por mais um dia. Não há garantia, nem Sheherazade a pede: ela consegue, à prestação, dia a dia, ganhar um dia de vida. Ela aceita assumir o risco absoluto: arrisca perder a vida, para recuperar ao sul­tão uma imagem feminina, perdida pela infidelidade. Há algo de épico no seu gesto: uma mulher que, através da Palavra, salva a raça feminina.

E quando chega a milésima primeira noite, o sultão se rende: “1001 noites tinham transcorrido nesses inocentes divertimentos; elas tinham mesmo ajudado muito a di­minuir as prevenções iradas do sultão contra a fidelidade das mulheres; seu espírito tinha-se abrandado; ele es­tava convencido do mérito e da sabedoria de Sheheraza de; lembrava-se da coragem com a qual ela se tinha exposto voluntariamente a tornar-se sua esposa, sem apreensão quanto à morte a que se sabia destinada no dia seguinte.”

E diz o sultão: “Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável em vossas narrativas; há muito me divertis; pacificaste minha cólera, e eu renuncio de bom grado à lei cruel que eu me tinha imposto… Desejo que sejais considerada como a libertadora de todas as moças que deveriam ser imola­das ao meu justo ressenti­mento”. (G.vol.3,pág. 439).

 

Memória

Isso, na versão de Galland. Na versão de Mardrus (1) (por muitos considerada a “tradução obscena” de “As 1001 Noites”), as coisas são apresentadas de uma maneira bem mais concreta. Em Mardrus, Sheherazade apresenta ao sultão ao fim da 1001ª noite, os filhos que, ao longo desses quase 3 anos, ela tivera com ele. A relação sexual entre o sultão e Sheherazade, que Galland omite, Mardrus explicita: ganha aqui inequívocas provas, ganha concretude.

Mas voltemos um instante à caracterização inicial de Sheherazade. Se há algo que a tipifica sobremaneira, é sua prodigiosa memória. Em “As 1001 Noites” podemos vislumbrar as ligações da narrativa com o infinito, da Memória com o infinito -aspecto esse que se tornará bastante evidente se formos situar a Memória na sua dimensão mítica. Com efeito, no Panteão grego, a Memória, “Mnemosyne”, é uma deusa, filha de Urano e de Gaia, irmã de Chronos e de Okeanos – a memória, filha do céu e da terra, irmã do tempo e do oceano: todas, metáforas de infinitude…

E a Memória é para os gregos a mãe das Musas, mãe das divindades responsáveis pela inspiração. ”Mnemosyne” preside à função poética. A própria sacralização da Memória (os gregos fizeram dela uma divin­dade!) revela, por si só, o alto valor que lhe é atribuído numa civilização de tradição oral, como foi, entre os século 12 e 8, antes da difusão da escrita, a da Grécia.

Essa deusa feminina tem tudo a ver com Sheherazade. “Mnemosyne” revela as ligações obscuras entre o rememorar” e o “inventar”: a musa inspiradora da invenção poética é, ela própria, filha da Memória.  Sherazade, a contadeira de histórias, não era apenas uma espécie de repositório vivo das histórias de seu povo, não apenas aquela que “transmitia” histórias contadas por outros; na sua caracterização inicial, fora-nos dito que ela também escrevia “versos melhores que os dos mais célebres poetas seu tempo”. Ela também criava.

E assim, noite após noite, Sheherazade vai, com a ajuda da Memória, conduzindo adiante o fio de suas histórias: vai tecendo as narrativas. Não é um fio linear: é uma teia, uma trama. Infin­dável, infinita. Uma história dará margem a uma outra história que, embutida dentro dela, desembocará numa terceira, que contém em si o germe de uma quarta etc. etc. Na acepção do último tradutor ocidental de “As 1001 Noites”, Khavam (saiu sua tradução completa, na França, em 1986), Sheherazade é “La Tisserande .des Nuits” -a tecelã das noites.

 

Mulher tecelã

Evidentemente, essa trama, essa rede narrativa eram frutos da astúcia de Sheherazade: serviam para enredar o sultão. Essa trama narrativa (trama quer dizer também procedimento ardiloso!) no limite significava… tramóia: a astúcia, velha arma dos fracos contra os fortes. E arma feminina, muitas vezes.

Sheherazade, a astuciosa, é a mulher que tece narrativas intermináveis, e que nesse fio prende o seu homem e vence seu poder. E nessa linha de astúcias, e de fios, e de tramas, há toda uma tradição (é verdade que de outra cultura, mais uma vez, a grega) de mulheres fian­deiras (2). Penso sobretudo em Penélope, de quem já se disse que é tão astuciosa quanto seu marido, o astuto     Ulisses, tecendo infindavelmente o manto com o qual afastará os pretendentes à sua mão, enquanto espera a volta do seu homem. Mas há também Ariadne, que fornece a Teseu o fio com que ele enfrenta o Labirinto; e Pan­dora (a primeira mulher), tecelã, que aprendeu a arte das fiandeiras com a deusa Atena, cujo epíteto é exatamente Atena Penitis, a “tecelã”; e Aracnê, que desafia a deusa Atena na arte da tapeçaria e acaba transformada em aranha. E há as Parcas, que tecem a trama dos destinos humanos. Todas, mulheres. Por que é sempre feminina a personagem que lida com o fio? Num estudo sobre a Feminilidade (3), Freud tece uma engenhosa explicação: a arte da tecelagem teria sido uma invenção de mulheres, inspi­rada pelo pudor feminino. Com efeito, o pudor, diz ele, teria como finalidade primi­tiva dissimular os órgãos genitais, dissimular a fenda que existe no sexo feminino:

“Parece que as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e inven­ções na história da civilização; no entanto, há uma técnica que podem ter inventado -traçar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-íamos ten­tados a imaginar o motivo inconsciente de tal realiza­ção. A própria natureza pa­rece ter proporcionado o modelo que essa realização imi­ta, causando o crescimento, na maturidade, dos pelos pubianos que escondem os genitais. O passo que faltava dar era enlaçar os fios, enquanto, no corpo, eles estão fixos à pele e só se emaranham.”

Mas voltemos a Sheherazade e Penélope, astuciosas e fiéis. Trata-se, aqui, do mesmo tema da fidelidade. Não nos podemos esquecer de que, na história de Sheherazade, é a fidelidade que está em jogo: o desígnio cruel que o sultão se havia imposto, de que sua mulher por uma noite fosse morta ao romper da aurora não tem outro objetivo senão preservar, ainda que à custa da morte, a fidelidade feminina. (E ao mesmo tempo, como veremos mais adiante, tal desígnio impedia-o de amar vedava ao sultão o amor: matando a mulher com quem dormia a cada noite, impedia-se de relacionar-se em continuidade, de estabelecei vínculos).

Penélope/Sheherazade Uma tece infindavelmente o manto, dia após dia, no meio dos príncipes, e sua fidelidade é condição para o reencontro; outra tece infindavelmente, noite após noite, teia de sua narrativa: sempre em suspense, sempre na terminada. Terminá-la, seria a morte.

Penélope: a fidelidade por um fio. Sheherazade: a vida por um fio. A falta de término, em ambas, é uma metáfora do infinito. Em ambos o casos, na tecelagem que praticam, é a fidelidade que está em questão. No caso de Penélope, a trama feita desfeita é seu ardil, para afastar os pretendentes reservar-se para a volta de Ulisses. No caso de Sheherazade, a construção de su teia narrativa não apenas ardil para ganhar mais um dia de vida, mas seu fi narrativo refaz, ponto a ponto, os farrapos do coração do sultão, dilacerado pela traição feminina.

Sheherazade tece o tecido de sua  história, conduz o fio da narrativa. A trama da narrativa não é um fio; é uma teia, com todas as suas ramificações, e nessa rede ela enreda o sultão. Não por acaso que ela é a imagem mesma da sedução.

Penélope: aquela que tece. Seu próprio nome (em grego, Penelopéia) revela sua vocação: do grego “pene”, fio de tecelagem, e, por extensão, trama, tecido (daí nosso pano do latim pannus). E c substantivo grego “penelopéia” significa: dor. Tudo se explica quando pensamos que ela vivia na nostalgia (= dor do retorno) de Ulisses, e que o pano que ela tecia (que tem a ver com a morte: era uma mortalha para Laertes, o pai do seu marido) era garantia da sua fidelidade, como que vedava o acesso de sua sexualidade aos preten­dentes que a assediavam:

“Então, de dia ela tecia a grande tela e de noite, desfazia a sua obra, à luz das tochas. Foi assim que, durante três anos, ela soube esconder sua astúcia e enganar os Aqueus” (“Odisséia”, cap. 24).

 

Astúcia

Penélope, Sheherazade uma tece de dia, outra tece de noite. Três anos: aproximadamente 1001 noites. Fidelidade e sedução articuladas Em ambas, uma mulher vence o poder masculino. Qual é, exatamente, a as­túcia de Sheherazade?

A primeira resposta é que Sherazade não apenas joga com a imperiosa necessidade de fição que habita o coração de cada homem, mas teria inventado também a técnica do suspense: inicia uma narrativa aguça a curiosidade de seu ouvinte e… não a satisfaz – naquela noite.  O desenlace seria narrado na próxima noite, se o sultão lhe concedesse mais um dia. Aos poucos, vão sendo introduzidas referências às reações do sultão, e, especificamente, à sua curiosidade. Assim termina, por exemplo, a noite 33:

Sherazade preparava­-se para prosseguir seu conto; mas, percebendo que era dia, interrompeu sua narrativa.  A qualidade dos novos personagens que a  sultana acabava de introduzir em cena tendo aguçãdo a curiosidade Xariar, e deixando-o na espera de algum aconteci­mento singular, o príncipe esperou  a noite seguinte com impaciência” (G., vol. 1,  pág.25)

Ou então: “O sultão, persuadido de que a história que  Sherazade tinha a contar seria o desenlace das prece­dentes disse consigo mesmo: “ É preciso que eu me conceda o prazer completo.’ Levantou-se e resolveu deixar viver ainda este dia a sultana”. (G.,  vol. 1, pág. 216).

Satisfazer a curiosidade, para o sultão, significa pra­zer. Postergá-la, significa cultura. Pois uma das coisas que diferenciam o homem do animal é exatamente isso: a capacidade de postergar a realização do prazer. E as­sim temos a curiosidade do sultão extremamente bem administrada por Shehera­zade, com sua técnica de suspense. E os textos acima provam o quanto a quaIidade narrativa de suas histórias, sua qualidade literária, por­tanto (a saber: introdução adequada de novos persona­gens; previsão de aconteci­mentos singulares; prepara­ção cuidada do desenlace) conta.

E o interessante é que a curiosidade está presente em dois níveis, em “As 1001 Noites”: nesse primeiro nível, da “macroestrutura”, na história que serve de moldura é a curiosidade que fundamenta o adiamento da execução da sultana. Mas também, ao nível das histórias contadas, entre os muitos motivos recorrentes nas narrativas de “As 1001 Noites”, esse motivo da curiosi­dade adquire grande importância, dado seu estatuto de desencadeador das ações. Curiosidade necessidade imperiosa de conhecer. Aguilhão do saber por experiência. Haveria que se fazer um estudo antropológico da curi­osidade, e do papel que ela desempenha em várias religiões e mitologias: desde a curiosidade de Eva, atiçada pela serpente, na narrativa mítica do Paraíso, tal como aparece no “Gênesis” (“Po­des comer de todas as árvo­res do jardim. Mas da árvore do conhecimento do Bem e do Mal não comerás…” E o resto a gente sabe: a queda, a expulsão do Eden, o Paraí­so Perdido…), passando pela curiosidade de Pandora, que abre a fatídica caixa de males que se espalharão por toda a terra, só restando no fundo da caixa a esperan­ça…; até a curiosidade do curumim que abre o coco de tucumã que encerra noite, fazendo com que a escuridão se espalhasse pelo mundo, como na lenda indígena brasileira. Sempre a curiosidade, com o que ela representa de fálico e fáustico, de motor do progresso e de propulsora do espírito humano, mas também com o que ela com­porta de fragilidade: deixar-se vencer pela curiosidade significa “sucumbir a uma fraqueza”, cair em ten­tação. Como naquela história que Sheherazade conta ao sultão, do moço a quem foram franqueadas 99 salas de um castelo, com todas as suas delícias; mas vedada a abertura da 100 ª porta: pre­mido pela curiosidade, ele a abre, e ai começa a sua perdição. Mas sobretudo, em vários contos de “As 1001 Noites” (como “O Comerci­ante e o Gênio” ou “História dos Três Dervixes e das Cinco Damas de Bagdá”, e muitas outras), é a curiosi­dade por uma narrativa a ser feita por uma personagem que lhe salva a vida, inicialmente suspendendo a execu­ção da sentença e, finalmen­te, anulando-a. Assim, o mesmo elemento que se en­contra, importantíssimo, a nível da estrutura geral da obra, comparece no detalhe, em numerosos contos.

E Sheherazade, o que faz é manipular a curisosidade do sultão. No entanto, ao longo das 1001 noites processasse uma evolução. Considera-se Sheherazade como a especia­lista do suspense. Contudo, isso é só inicialmente verda­de: ao longo de suas tantas noites de contadeira de histórias, ela abandona o supense, chegando a levar a termo, ao romper da aurora, as suas narrativas. Mas acena com a próxima… Ela abandonará o recurso do suspense  – que  tem algo de um golpe mais ou menos enviesado – um discursus interruptus-  che­gando a terminar os contos na mesma noite em que os iniciara. E mesmo prescin­im dindo do recurso do suspense, o sultão a deixará viver, mais um dia.

E aqui está a segunda a resposta para a pergunta “em que consiste a astúcia de Sheherazade”: na realidade, ela lida é com o Desejo. E todos sabemos que o Desejo não tem um objeto que o aplaque; uma vez cumulado, ele ressurge, desperto do outro, e assim suscessivamente. Não tem objeto que o supra, que o satisfaça, que o cumule. O que é que que o sultão queria? Uma nova de história, e por isso Shehera­zade viveria mais um dia, e depois outro, e outro. Ela não tenta obter dele, logo de do início, que lhe poupe a vida para sempre: consegue dele, a cada dia, que lhe poupe a vida por aquele dia. Mas ele, também, o sultão, daria sentido a mais um dia de sua existência, na espe­ra/expectativa de algo que o plenifique. A função de Sheherazade era alçar sua vontade, tendê-la para algo por vir. Ela age no sentido de acutilar o Desejo, de atiçá-lo, de só ilusoriamente aplacá-­lo… por uma noite. Uma vez supostamente aplacado, ele renascerá. O objeto do Dese­jo está sempre além, sempre adiante, visa sempre um além que escapa: é isso que nos conta a história de Sheherazade e do sultão de todas as Indias.

E o mundo do Desejo é o mundo do Id, mundo da noite, da magia e da fanta­sia. O dia que surge significa que a voz de Sheherazade deve-se calar; é de dia que se realizaria sua execução. Há uma fórmula quase que ritu­al, que escande o fio narrati­vo de Sheherazade: quando rompe o dia, ela se cala, e o sultão vai “cumprir seus deveres” de chefe de Estado. Há aí um confronto entre o princípio do prazer e o prin­cípio de realidade: o princí­pio do prazer cessa com a luz do dia, quando se impõe a realidade, com o seu cortejo de opressões. As noites são para as histórias e para o amor; os dias são para o trabalho (e para a morte)

 

Palavra

Referi a situação (presente tanto a nível das histó­rias que Sheherazade conta, quanto naquela da própria sultana, e que serve de mol­dura às demais) em que uma vida é trocada por uma narrativa. Isso significa um extraordinário apreço pela palavra. As vezes esse apre­ço é expresso materialmente. Numa das histórias que Sheherazade conta ao sultão (“A História de Ganem”), por exemplo, registra-se o seguinte:

“Ele [o califa] achou esta história tão extraordinária que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse, em todos os detalhes. Ela foi em seguida depositada no seu tesouro, de onde várias cópias tiradas deste original a tornaram pública.” (G., vol. 2, pág. 420)

As histórias excelentes são guardadas no tesouro real! Estamos numa civilização em que, literalmente, a pala­vra vale ouro, em que a história narrada é tesouro.

E ainda, a palavra aqui é mágica. Já repeti várias vezes que, através da Pala­vra, Sheherazade vence a morte e o Poder. Sheheraza­de, a mulher, instaura um novo tipo de poder. A força da Palavra radica na magia. A palavra aqui transforma -como no curandeirismo, na magia, na religião… e na psicanálise. O conto “Ali-Ba­bá e os 40 ladrões”, por exemplo, é expressivo disso: trata-se de uma palavra má­gica, palavra eficaz, que tem o poder de remover um rochedo, o poder de fazer abrir a entrada da gruta onde os ladrões guardam seus tesouros: “Abre-te Sé­samo”. Ali-Babá a guarda na memória, com cuidado e respeito, e ela se torna um instrumento de força na sua boca. Mas seu irmão, o invejoso e insolente Cassim, se esquece da palavra certa, e tenta outras, que não têm, no entanto, a força mobiliza­dora da palavra mágica. Da palavra transformadora, que remove rochedos. Ele conse­gue penetrar na gruta dos ladrões, mas depois não con­segue sair:

“… acontece que ele se esquecera da palavra neces­sária (…) e, em lugar de “Sésamo”, diz “abre-te Ce­vada”; e espanta-se ao ver que a porta, longe de se abrir, permanece fechada. Nomeia vários outros nomes de grãos, diferentes daquele que era necessário, e a porta não se abre”. (G., vol. 3, pág. 247).

Ele se esquecera da pala­vra certa, da boa palavra acaba perecendo às mãos dos ladrões, que o pilham preso dentro da gruta.

Pois bem, há algo de mági­co na palavra, na história do rei Xariar e da bela Shehera­zade, que consegue demover seu coração de pedra. A tentação de um paralelo com a psicanálise é bastante grande: essa situação extra­ordinária em que a Palavra (aquela que é preferida pelo paciente, e aquela que éouvida por ele) é palavra eficaz: provoca alterações, transforma aquele que a re­cebe. Restaura-se aqui o po der arcaico e mágico da Palavra.

O poeta, o mago e o psicanalista: aqueles que constroem coisas com a pa­lavra, que alteram a realida­de, modificam a essência profunda do ser. E ao lado poeta, do mago e do psicana­lista, a mãe, que conta histórias, a mulher.

A mulher contadeira de histórias: sua influência foi reconhecida por todos aque­les que, desde a Antiguidade, se preocuparam com o pro­blema da eficácia da Pala­vra, da força transformadora da palavra:

“Por conseguinte, teremos de começar pela vigilância sobre os criadores de fábu­las, para aceitarmos as boas e rejeitarmos as ruins. Em seguida, recomendaremos às mães que contem a seus filhos somente as que lhes indicarmos e procurem amoldar por meio delas as  almas das crianças com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o corpo.” (“República”, livro 1  2,377b).

O grifo, evidentemente é meu, realça a importância  extrema que Platão atribui às narrativas: capacidade de moldar, de plasmar almas. Não seria exatamente isso que Sheherazade faz com o sultão? Ela plasmou, moldou sua alma, “abrandando o seu espírito”.

Jeanne Marie Gaguebin, num artigo publicado no Fo­lhetim (4), articula essa passagem de Platão a um texto de Walter Benjanim, que se intitula, exatamente, “Narrar e Curar” (5). Além da ligação entre a fala e o gesto, entre a voz e a mão (a que retornarei mais adian­te), o texto de Benjamin aponta, de uma maneira ex­tremamente pertinente, para a cura pela narração (não fosse esse o seu título!) – que é, como todos sabemos, apa­nágio da psicanálise (“tal­king cure’) e de certas técnicas de cura chamanísti­cas.

Pode-se considerar o sultão doente, ferido na sua afetivi­dade, na sua capacidade amorosa, pela traição feminina; pois bem, nessas lon­gas noites de história, Shehe­razade vai exercendo junto a ele um longo processo tera­pêutico, analítico, pontuado, a cada manhã, pela interrupção com que ela o remetia á  vida real. Ao fim das 1001 noites, o sultão se declara “curado”, abandona o “sin­toma” e se dá alta: “Vós pacificastes minha cólera, e eu renuncio de bom grado e, vosso favor, à lei cruel que eu me tinha impos­to”. E Sheherazade cessa suas narrativas.

Num processo analítico, o paciente fala; ao analista, cabe a escuta. Ele também fala, interpretando; mas o que funda a psicanálise é o discurso do analisando. Pois bem, aqui se trata de um processo invertido: é a escu­ta que é transformadora, é a escuta que cura o sultão.

Falei da psicanálise e tam­bém aludi a certos processos de cura chamanistica, que, aliás, estabelecem com a psicanálise mais de um vín­culo. Lévi Strauss relata, na “Antropologia Estrutural” (no capitulo “L’Efficacité Symbolique”) um procedi­mento dos índios Cuna do Panamá, por ocasião dos partos difíceis: o chamã can­ta para a mulher grávida, diz palavras ao seu ouvido, e assim o nascimento da cri­ança é facilitado. Trata-se, como observa o antropólogo, “de uma medicação puramente psicológica, uma vez que o chamã não toca no corpo da paciente, nem lhe administra remédios; mas, ao mesmo tempo, é colocado diretamente e explicitamente em causa o estado patológico e seu centro: diríamos antes que o canto constitui uma manipulação psicológica do órgão doente, e que é desta manipulaçáo que a cura é esperada’ (6). Manipulação psicológica: metáfora ex­pressiva para o processo psicanalítico. E também pa­ra aquele processo em que as narrativas, como queria PIatão, moldam as almas, “com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o cor­po”. Mas voltemos a Lévi Sstrauss. Diz ele que o chamã fornece à sua doente uma ‘higuagem: “E é a passagem a esta expressão verbal (que permite, ao mesmo tempo, viver sob uma forma orde­nada e inteligível uma expe­riência atual, mas sem isso, anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico, isto é, a reorganização, num sentido favorável, da sequência da qual a doente sofre o desen­volvimento” (pág. 218).

O sultão se encontra cris­pado na sua ira de traído, bloqueado na sua capacidade de amar: Sheherazade oferece a ele uma linguagem, na qual esse estado pode expri­mir-se. Sheherazade fala, e o sultão escuta. É como se a perturbação afetiva grave, de que fora acometido, na sua ira de traído pelas mu­’heres, só fosse acessível àlinguagem simbólica da poe­sia e da literatura. E aqui a gente encontra a narrativa restaurada no seu sentido pleno e primordial, de veícu­lo de experiência humana.

Sheherazade oferece ao sultão uma linguagem, um discurso simbólico que possa atingi-lo, por inteiriçado e crispado que ele estivesse na sua incapacidade afetiva. Ela oferece ao sultão o aces­so ao mundo simbólico; ofer­ta-lhe uma linguagem, como queria Lévi-Strauss, “na qual podem exprimir-se es­tados não formulados e, de outro modo, não formuláveis”. “Não é portentoso que na noite 602, o rei Xariar ouça da boca da rainha a sua própria história?”, pergunta-se Jorge Luís Borges (7) extasiado.

Sheherazade apresenta a Xariar o nível mítico: apresenta-lhe à consciência con­flitos que o traumatizaram, bloqueando sua capacidade afetiva, de tal maneira que ele possa lidar com eles. É por isso que ela não expurga de suas narrativas as histórias de adultérios e traições femininas, não omite casos em que as mulheres enga­nam a seus maridos; ela não faz ao rei uma narrativa “ad usum delphini”; é notável a ausência de censura moral nas suas histórias.

Trata-se aqui, como na psicanálise, (e na cura cha­manística), de propiciar uma transformação interior, con­sistindo numa reorganização estrutural da personalidade: trata-se de recuperar a ca­pacidade amorosa do sultão. Pois bem, Sheherazade, co­mo na transferência, propi­cia ao sultão que reviva com ela uma experiência afetiva continuada e para isso ela precisava de tempo (a saber: 1001 noites -o tempo de uma terapia?) e assim resgata sua capacidade afetiva.

Falei em paralelo com a psicanálise. Mas trata-se aqui de um paralelismo que, evidentemente, não exclui as diferenças. Pois há em “As 1001 Noites”, como aparece em Platão, como sugere W. Benjamin, uma ligação entre a fala eo gesto, entre a voz e a carícia. Não nos podemos esquecer de que as narrati­vas de Sheherazade se segui­am às suas noites de amor com o sultão  e são suas histórias que lhe facultam a  possibilidade de dormir próxima noite com ele É a narrativa que possibilita o encontro futuro. Já se disse que se Sheherazade tivesse oferecido ao sultão só o seu corpo, ela teria sido executa­da, logo após a primeira noite: foi o que, todas as suas antecessoras fizeram, e to­das pereceram. E Shehera­zade salva não apenas a si própria e a todas as mulhe­res em idade de casar do seu povo: ela salva também o sultão: ela o cura de sua ira patológica e assassina, e possibilita a ele uma descen­dência. A persistir no seu plano cruel e ginecida, o sultão se privaria para sem­pre de amar, e de filhos. Sheherazade oferece a ele o tempo e, junto com as suas histórias, a História; oferece a ele o tempo, e, junto com ele, as coisas todas que dele precisam para se engendra­rem: os filhos, a duração do afeto, a permanênciadevín­culos, o longo processo (ana­lítico) de uma cura. Shehera­zade oferece ao sultão um discurso vivo.

Sheherazade ou do poder da palavra. A sultana era uma contadeira de histórias, não em primeira linha uma escritora: ela as contava de viva voz. Aquelas 1001 noites eram marcadas pela cálida proximidade da ‘mulher, da mulher na sua inarrável corporeidade. Não podemos esquecer da carga corporal que a palavra falada carrega. Na narrativa oral, a Palavra é corpo: modulada pela voz humana, e portanto carregada de marcas corporais; carrega­da de valor significante. Que é a voz humana senão um sopro (pneuma: espírito…) que atravessa os labirintos dos orgãos da fala, carre­gando as marcas cálidas de um corpo humano? A pala­vra oral é isso: ligação de sema e soma, de signo e corpo. A palavra narrada guarda uma inequívoca di­mensão sensorial.

“No princípio era a Ação”, diz o Fausto de Goethe. Mas entre a Ação e a Palavra, em “As 1001 Noites” a escolha está feita. “No princípio era o Verbo”, parecem dizer-nos elas, retomando o início do texto do mais visionário dos Evangelistas. No entanto, esse texto não para aí: “…e o Verbo se fez carne”: restau­ra-se, assim, a dialética se­ma/soma, inscrita no cerne da palavra  a Palavra é também, inapelavelmente, corpo.

 

Notas

  1. Utilizo aqui basicamente o texto de Antoine Galland (1717), em edição Garnier ~ k>ari~, 1965, recorrendo também por vezes, ao texto de Mardrus (1899), publicado por Ro­bert/Laffont, Paris, 1985.
  2. Cf. Gilbert Lescault -“Fi­gurées, Défigurées (Petit Vocabulaire de la Féminité Représentée)”, Union Géné­rale d’Editions, Paris, 1977, em que, no vocábulo “Fileu­ses” são elencadas várias mulheres mitológicas que li­dam com o fio.
  3. Freud: “A Feminilidade”, Conferência 33 das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, 1933, vol. 22 das “Obras Completas”, Imago, pág. 162. A referência a esse ensaio foi sugerida pela leitura de Gilbert Lescault: “Figurées, Défigurées”, op. cit.
  4. “Narrar e Curar”, Folhe­tim, S. Paulo, 1 de setembro de 1985.
  5. “Erzaehlung und Hei­lung”, in “Gesammelte Schriften”, vol. 4, Suhrkamp Verlag, pág. 430.
  6. Cf. capítulo “L’Efficacité Symbolique”, in “Anthropologie Structurale”, Paris, Plon, 1958, págs. 211 e seguin­tes.
  7. Cf. J. L. Borges -“Los Traductores de las 1001 No­ches”, in “Historia de la Eternidad”, Emecé Editores, Buenos Aires, 1953.

 

Publicado no caderno Folhetim/Folha de São Paulo em sexta-feira, 29 de janeiro de 1988

ADÉLIA BEZERRA DE MENEZES é professora de Teoria Literária na Unicamp. autora de A Obra Crítica de Álvaro Lias e Sua Função Histórica” (Vozes) e “Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque” (Hucitec)

 

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