Radionovela – Uma história no ar

 

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Em junho de 1941 uma nova era do rádio brasileiro começou quando o locutor da Nacional anunciou:

“- Senhoras e senhoritas, o famoso creme dental Colgate apresenta o primeiro capítulo da empolgante novela de Leandro Blanco, em adaptação de Gilberto Martins : Em Busca da Felicidade.”

A radionovela, de origem cubana foi a maior parcela de audiência nos horários matutino e vespertino. Segundo Renato Ortiz[1], “a radionovela surge no Brasil como um produto importado produzido pela Standard Propaganda, agência de publicidade que administrava a conta da Colgate – Palmolive no Brasil e pretendia explorar uma fórmula já testada com sucesso nos Estados Unidos e em países latinos, oferecendo programas voltados às donas de casa e seguindo um padrão preestabelecido:

  1. a) temática é folhetinesca e melodramática;
  2. b) o público visado é composto por donas de casa.”

Em Busca da Felicidade tinha todos os elementos de um grande drama: casos de adultério, mãe solteira, tentativa de suicídio, amores não correspondidos, etc. A ficção deu lugar a realidade e a diversos fatos curiosos. Um dos personagens era um médico, o Dr. Mendonça, que recebia dos ouvintes pedidos de receitas e diagnósticos. Outro caso foi o da personagem grávida e desprotegida Carlota, que comoveu os ouvintes ao ponto destes chegaram a enviar enxovais de bebê, alimentos e dinheiro. Um fã doou uma herança ao galã de voz aveludada e um grupo de senhoras mandou rezar uma missa pela morte de uma personagem.

O horário escolhido para transmissão da primeira radionovela do Brasil foi o matinal, que era de baixa audiência. Por isso o patrocinador criou uma estratégia para aferir a receptividade, oferecendo um brinde para quem enviasse um rótulo do creme dental Colgate. No primeiro mês chegaram 48 mil pedidos, comprovando a eficácia do novo programa. Depois disso, as radionovelas disseminaram-se pelas programações de todo o Brasil.

A primeira e autêntica história seriada radiofônica, durou dois anos e marcou época, abrindo os espaços hoje preenchidos pelas, nas novelas televisadas.

As radionovelas eram produções ambiciosas, apresentadas em até 120 capítulos, em contrapartida ao que se chamava Rádio-Teatro, que era uma história consumada em um programa ou em alguns poucos capítulos semanais. Muito se produziu também nesse formato. A primeira radionovela genuinamente brasileira foi Fatalidade, porém a que teve enorme sucesso foi a inesquecível Direito de Nascer.

Quando Perigo foi levada ao ar pela primeira vez, os atores falavam ao vivo, no estúdio da rádio, vestindo inclusive os figurinos da peça. Na época, não existia a gravação. No Brasil, as décadas de 40 e 50 foram o período áureo das novelas de rádio. A dramaturgia era tradicional, a linguagem radiofônica não se distanciava da literatura ou do teatro. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro transmitiu 116 novelas entre 1943 e 1945, num total de 2.985 capítulos. Uma pesquisa realizada pela própria Rádio Nacional revelou que, de 1943 a 1955, a emissora irradiou 11.756 horas de radionovelas.

A Rádio São Paulo, que se especializou no gênero, tinha novelas nos três períodos, chegando a ter no ar, diariamente, quinze novelas e contava com cerca de 20 novelas diárias no ar, necessitando de um grande elenco.

Os anos 60 viveu uma liberação e transformação radical dos costumes, quando as radionovelas exerceram um papel determinante ao expor uma temática de repressão sexual jamais visto pelo grande público.

Drama e sofrimento não estava implícito, mas explícito, desde os títulos das novelas. Alguns deles: Almas desencontradas; Prisioneira do Passado; Sonhos Desfeitos; Mais forte que o amor; Perdida ; Mulher sem alma e – a maior de todas – O Direito de nascer, do cubano Félix Cagnet, cujo enredo tinha início com a frase bombástica de Maria Helena (futura mãe de Albertinho Limonta):

“- Doutor, não posso ter este filho que vai nascer”.

A radionovela tinha a voz de Walter Foster na Rádio Tupi de São Paulo e de Paulo Gracindo na Nacional do Rio de Janeiro no papel do personagem Albertinho Limonta, levou a população a um estado de comoção, fato repetido nas diversas vezes em que foi exibida pela televisão. Registra Ismael Fernandes em Telenovela Brasileira: Memória que “o último capítulo em 13 de agosto de 1965 foi seguido de uma festa no Ginásio do Ibirapuera¸ totalmente lotado e numa espécie de neurose coletiva o povo gritava os nomes dos personagens e chorava por Mamãe Dolores, Maria Helena e Albertinho”.

O autor da novela, o cubano Felix Caignet, tinha, bem claro, o poder melodramático e mercadológico de sua produção, como esclareceu em depoimento na publicação cubana Revolución y Cultura, transcrito no livro de Renato Ortiz, acima mencionado: “Elas consumiam os produtos que meus programas anunciavam. Eram pobres e sofriam. Desejavam chorar para desafogar suas lágrimas . Eu estava obrigado a escrever para elas e facilitar-lhes o que necessitavam, porque enquanto choravam ,descarregavam sua própria angústia”.

O escritor, compositor e ator Mário Lago foi responsável na Rádio Nacional pela adaptação de “uma série de histórias emocionantes originais do escritor cubano Rodrigues Santos”, como eram anunciadas na emissora. A televisão copiou a fórmula do sucesso, e a versão que a TV Tupi colocou no ar, em 1965, de O Direito de Nascer, alcançou 73% de índice de audiência no Rio de Janeiro.

O sucesso que as novelas de TV fazem hoje reflete o êxito das radionovelas. Inclusive, no surgimento da TV, inúmeros profissionais do rádio foram contratados para preencherem e produzirem a programação. Vale lembrar que o rádio era ouvido, no princípio, em família e no centro da sala. As atrizes que interpretavam as vilãs sofriam: sempre que reconhecidas na rua ouviam muitos desaforos e chegavam a apanhar dos fãs.

 

As radionovelas perderam fôlego quando começaram as transmissões em FM, quase sucumbindo as emissoras AM.

 

A mágica sonora da radionovela

Uma boa história, vozes perfeitas, efeitos sonoros e a imaginação do ouvinte. Bastava isso para garantir o sucesso de uma radionovela, uma das marcas do rádio nos anos 50. As radionovelas faziam tanto sucesso que eram capazes de prender famílias inteiras na frente do rádio, naquela época era um aparelho grande  em tamanho e em destaque na sala principal de uma casa.

Atualmente não há radionovelas sendo apresentadas, mas muito das ideias de sonoplastia, aprimoradas pelo avanço tecnológico,estão presentes nos programas humorísticos de hoje. Estes programas são responsáveis por um significativo aumento nos índices de audiência e conseqüentemente trazem um grande retorno financeiros à emissoras.

Mas na época das radionovelas não existia computadores ou outros aparatos técnicos. As pessoas imaginavam os fatos e criavam as suas fantasias com o auxilio da voz e as “tecnologias” utilizadas eram chaveiros, canetas, tampinhas de garrafa, cascas de côco e qualquer objeto que emitisse sons. Os heróis (galãs) e as heroínas (ingênuas) eram construídos com o apoio da voz, da experiência e o rádio era o amigo fiel de muitos.

 

Radionovela e seus personagens 

Os radioatores mais famosos foram Paulo Gracindo, Mário Lago, Rodolfo Maia e Daisy Lúcidi, os grandes autores das décadas de 1940-50 foram Oduvaldo Vianna, Otávio Gabus Mendes e Gerônimo Monteiro, Walter George Durst, Benedito Rui Barbosa, Dias Gomes, Janete Clair, Ivani Ribeiro. As radionovelas reuniram os principais nomes da época de ouro do rádio. Renato Murce, Celso Guimarães, Abigail Maia, Sônia Maria, Nélio Pinheiro e Vida Alves são apenas alguns exemplos. Quem hoje está na televisão brilhando nas novelas também começou sua carreira nas tramas radiofônicas: Lima Duarte, Lolita Rodrigues e Mário Lago, entre muitos outros.

 

Oduvaldo Vianna – Depois de uma temporada como correspondente do jornal A Noite em Buenos Aires, Oduvaldo Vianna passa a integrar a equipe da pequena Rádio São Paulo. Ele trouxe como grande novidade o enorme sucesso das novelas transmitidas pela Radio El Mundo. Entusiasmado Oduvaldo escreveu algumas novelas e, inutilmente, procurou patrocinadores. Convidado a dirigir a Rádio São Paulo aceitou o cargo e aproveitou para levar ao ar sua radionovela: A predestinada, cujo sucesso levou a emissora à liderança de audiência. A radionovela resgatava, de alguma forma, o imaginário popular reproduzindo através dos contos e casos do cotidiano simples e sofrido da brasileira típica da época: a dona de casa. Em se tratando do universo feminino, numa época em que predominava o comportamento submisso, fruto de uma cultura historicamente machista e autoritária, a radionovela – bem como sua irmã mais próxima: a fotonovela – priorizava temáticas próximas ao papel possível em uma sociedade em transição do rural para o urbano, do arcaico para o moderno.

Paulo Gracindo, que protagonizou a trama O Direito de Nascer, disse que procurou uma companhia amadora de teatro para começar a treinar. Por sorte, na terceira peça que apresentava com o grupo, Oduvaldo Viana o viu e perguntou se ele não gostaria de tornar-se profissional. Convite prontamente aceito.

 

Janete Clair – Considerada uma das melhores autoras de novela, começou sua carreira no rádio em 1940, na cidade de Franca, interior de São Paulo, como atriz de programa infantil. Na capital paulista, adaptou romances e peças para as radionovelas e, em 1946, conheceu Dias Gomes, com quem viria a se casar. Grandes sucessos levam sua assinatura, como Irmãos Coragem. Janete Clair era muito disciplinada ao escrever suas histórias. Raramente saía de casa, tinha todas as tramas resumidas e pesquisava assuntos em jornais, revistas e no rádio. Criou 31 radionovelas, principalmente na Rádio Nacional. Em 64, escreveu a primeira história televisiva, para a Tupi. Mas foi na Globo que se consagrou, com 18 novelas. Na emissora, inaugurou a era pós-Glória Magadan, autora cubana das histórias de castelos, com heróis de capa e espada.

 

Dias Gomes – começou sua carreira no rádio. Na Jovem Pan, durante um ano, trabalhou como autor de radionovelas, há mais de 50 anos. Depois, passou por outras emissoras até ser contratado pela Rede Globo. Sua primeira novela na TV não levou seu nome, mas um pseudônimo feminino.

 

Moyses Weltman – autor da história Jerônimo, o Herói do Sertão; o seriado, de grande sucesso no rádio, ficou no ar de 1953 a 1971. Na época das radionovelas, enquanto as mulheres acompanhavam as tramas, as emissoras de rádio desenvolveram os seriados para conquistar a audiência masculina. Milton Rangel era o herói Jerônimo. O seriado teve grande sucesso e ficou no ar entre 1953 e 1971.

 

Walter Foster – Marcou a história do rádio e da televisão. Ator, diretor, autor e produtor, colocou voz nos personagens das radionovelas e escandalizou o Brasil ao protagonizar o primeiro beijo na boca na TV.

 

Lima Duarte – Participou de vários testes para locutor de rádio, mas só conseguiu entrar como sonoplasta. Com o tempo passou a ator das radionovelas e, mais tarde, das novelas na televisão.

 

Patrulha da Cidade – Era o Linha Direta dos anos 60, época em que as radionovelas entravam em declínio e os programas policiais tinham grande audiência. O Patrulha Cidade, por exemplo, misturava a dramaturgia à investigação do criminoso. O programa apresentado pela Globo usou uma fórmula do rádio dos anos 60.

 

Dânny Gris  – Daniel Clementino Gris da Silva  é ator, diretor, locutor e um dos último dos galãs do radioteatro. Sua voz não marcou época, mas acredita que “o bom locutor é aquele de quem ninguém reconhece a voz”. Para ele, “o ator de radioteatro é capaz de fazer teatro, mas nem todo ator de teatro é capaz de fazer radioteatro”. Dânny acredita que o radioteatro em Porto Alegre deixou de existir por falta de cultura, informação, incentivos locais e pela massificação da televisão. “Hoje, se você cantar desafinado, a alta tecnologia das máquinas corrige o problema ou substitui a voz. Mas, perde-se o encanto e a poesia, fazendo com que as relações entre veículo e ouvinte tornem-se frias ou inexistentes”.

 

A RADIONOVELA QUE MARCOU UM PAÍS

Nove horas da noite de 30 de outubro de 1938. A rádio CBS – Columbia Broadcasting System – e suas afiliadas de costa a costa, transmitem, dentro do programa Radioteatro Mercury, A invasão dos marcianos. Na adaptação da obra A Guerra dos Mundos do escritor inglês H. G. Wells, centenas de marcianos chegam em suas naves extraterrestres a uma pequena cidade de New Jersey chamada Grover’s Mill.

Era uma peça, literalmente. E os méritos públicos da adaptação, produção e direção do programa foram para sempre creditados ao então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. Sessenta anos depois, a ousadia ainda fascina. E a história do rádio passou a ter um antes e um depois…

No especial do Raditeatro Mercury da véspera do Dia das Bruxas de 1938 – denominado Mercury’s Halloween Show -, usando somente sons e silêncios, foi representada uma invasão de marcianos sob a forma de uma cobertura jornalística. Tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Orson Welles e o Radioteatro Mercury (ou Teatro Mercury no Ar) que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio.

A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. E, desses, meio milhão tiveram certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico e agindo de forma a confirmar os fatos que estavam sendo narrados: sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc. O medo paralisou três cidades. Pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores de Newark e Nova York (além de Nova Jersey), que sofreram a invasão virtual dos marcianos da história.

 

 

BIBLIOGRAFIA 

CÉSAR, Cyro. Rádio – Qualificação Profissional (Locução). Edições Radioficina, 1996

__________. Como Falar no Rádio – Prática de Locução AM e FM (Dicas e Toques) :

IBRASA, 1990. 9 ed. São Paulo.

__________. Rádio – Inspiração, Transpiração e Emoção : IBRASA, 2001. 3 ED. São Paulo.

Gisela Swetlana Ortriwano, A invasão dos marcianos: A Guerra dos Mundos que o rádio venceu, in: Rádio e Pânico – A guerra dos Mundos, 60 anos depois. Especialistas brasileiros analisam o programa que mais marcou a História da mídia no Século XX  Eduardo Meditsch (org.) Editora Insular

Ortiz , Renato . Telenovela : história e produção . São Paulo .Ed.Brasiliense . 1989

http://geocities.yahoo.com.br/memorialdatv/radio.htm

http://www.pucrs.br/famecos/vozesrad/danny.html

 

[1] Ortiz , Renato . Telenovela : história e produção . São Paulo .Ed.Brasiliense . 1989

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