Dia: 3 de maio de 2015

O candidato e o caipira

zefortunaepitangueira

Zé Fortuna (pai da grande atriz e professora Marlene Fortuna) junto com seu irmão Pitangueira faz parte das minhas reminiscências.  Eu os ouvia muito em Cambará (PR). Zé Fortuna foi um artista completo: ator, escritor, poeta, músico e autor teatral. (Veja site da família <http://www.josefortuna.com.br/biografia.php>.

Paineira Velha, Lembrança, retalhos de Amor, Lenda da Valsa dos Noivos, O selo de sangue, Vestido Branco e tantos outros sucessos que posteriormente foram gravados por diversos cantores e cantoras.

Por hoje, eu fico com esse diálogo maravilhoso entre um político e um homem do campo. feito há tanto tempo e tão atual!!!

 

O Candidato e o Caipira
Zé Fortuna & Pitangueira

Olá caboclo, bom dia. Então, como vai você?
Vou indo bem, seu dotô, mas me descurpe eu dizê
Eu não conheço o sinhô. Quem tu é, posso sabê?
Ora, caboclo, nunca ouviu falar do dr. Pereira?
Fui prefeito há muito tempo no arraial das caneleiras
Ah! Já ouvi falar do seu nome, mas o que eu tô admirado é que eu nunca vi o doutor andando por estes lado e hoje por que razão abandonou o povoado?
Pra vir conversá na roça com um caboclo pé-rapado?

Aí é que está o motivo de eu vir lhe visitar
Pensei em você que passa o dia todo a labu
Capinando a terra dura sem ninguém lhe auxiliar
Por isso eu deixei a cidade e vim aqui lhe ajudar
Mas doutor, tô até envergonhado só de ouvir o senhor falar
O senhor deixou a cidade pra vir aqui me ajudá?
O doutor tem as mão fina, num vai se acostumá doutor
O cabo da enxada vai suas mãos calejá
Bem, mas já que o senhor insiste vou uma enxada lhe arrumá

Não, não, não, não é isso que eu quero. Você entendeu mal
O fato é que as eleições vem aí e eu sou um dos candidatos
Bem que achei impossível tanta fartura hoje em dia!
Quando o milagre é demais até o santo desconfia
Mas como eu estava dizendo. Eu quero, se for eleito
Lhe auxiliar na assembléia defendendo seus direitos
Enquanto você trabalha de sol a sol aqui no eito
Eu luto para que a pátria reconheça o vosso feito
Eu vim pedir o seu voto, que é a arma do cidadão
Com ele você me elege e formamos a união
Para juntos construirmos a grandeza da nação!

Muito bonito, dotô! Sua fala doce tem mé
Mas tu qué sarvá a nação lá na cidade, não é?
Mas pegá no guatambu de sol a sol tu num qué!
Pois daqui depende a pátria, das lavoura do sertão
Destes campos, destas matas, dos calos de nossa mão
Desses caboclo que luta sem nunca ter recompensa
Sem estrada, sem recurso, sem remédio pras doença
E o dotô se for eleito já qué aumento dobrado desse tar de subsídio
Que o pobre chama ordenado. E prá que desigualdade se somo igual
Brasileiro pois ganha mais tu num dia do que o pobre o ano inteiro?

Mas é justo que devemos ganhar mais do que vocês
Pois o que eu gasto num dia, você não gasta num mês
Não gasto porque não tenho, mas bem que eu sei o que é bom!
Ah, se eu pudesse possui automove, televisão
Por isso o certo seria vocês num ter ordenado
Prá vê quem era no duro, um democrata apurado
Garanto que ninguém mais queria ser deputado
E tem mais, se aqui a seca acabá com as plantação
Não aparece ninguém oiá pra nóis no sertão
E por que só vem agora nas época de eleição?

É porque não temos tempo de abandonar a cidade
Ocupado com os problemas que afligem a sociedade
Óia outro erro, dotô, se eu fico sem trabaiá, o patrão
Me manda embora, não tenho com quem queixá
E vocês lá na assembléia se quizé pode fartá um ano inteiro
E recebe ordenado legar. Se um dia o pobre caboclo cansado
Da dura lida fizé um erro, coitado, tá preso por toda a vida
Enquanto vocês, dotô pode errá a vontade, não tem cadeia porque goza da imunidade. Por isso me dá licença tenho outra ocupação
Meus fios, pega a enxada e vamo entrá no taião, essa conversa, dotô
Num enche barriga, não.

 

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