Reinventando Freire: conectividade radical e ousadia no diálogo


Por Moacir Gadotti

15 de outubro de 2018

Dia do professor, dia da professora

Em 2017, Martin Carnoy e Rebecca Tarlau, respectivamente, professor e pós-doutoranda da Universidade de Stanford, visitaram o Instituto Paulo Freire (IPF), em São Paulo. Ambos queriam conhecer melhor o que o IPF fazia. Numa reunião, na biblioteca de Paulo Freire, Ângela Biz Antunes expôs, entre outras ações, os projetos relacionados a um dos eixos de atuação do IPF: Exercícios de Cidadania desde a Infância. Carnoy ficou encantado e disse que deveríamos escrever mais sobre a experiência do IPF. Olhando para mim, propôs-me uma parceria com o Lemann Center da Universidade de Stanford, do qual ele é codiretor, para escrever um livro, dizendo que os norte-americanos precisavam conhecer melhor Paulo Freire, inclusive para enfrentar o trumpismo.

Eu disse a ele que estava escrevendo e organizando livros desde a década de 1970 e que havia decidido suspender, senão definitivamente, pelo menos, temporariamente, esse tipo de atividade em minha vida. Todos riram, mas eu fiquei em silêncio. Estava, até o momento, certo da minha ideia, mas, de repente, vi-me diante de dúvidas. Afinal era um pedido de um amigo meu. Além disso, Paulo Freire também tinha amizade e admiração por ele. Como se não bastassem esses motivos, ele mencionou que seria um livro que contribuiria para combater ideias que dão sustentação ao trumpismo e, também, à onda conservadora que assola o Brasil. Paulo Freire precisa ser divulgado, estudado, reinventado. Diante desses argumentos, eu decidi adiar a ideia de suspender a produção de mais um livro e disse: “bem, aceito com duas condições, a primeira que a Universidade de Stanford produza alguns artigos sobre a atualidade de Freire e que você divida comigo a responsabilidade de organizar essa publicação”. Com o sorriso e a serenidade de seus 80 anos, Carnoy me retrucou: “eu também tenho uma condição: a de que você assine essa coordenação como primeiro autor”! Todos rimos. Condições aceitas.

Aí, lembramos momentos de nossa trajetória acadêmica inicial e como conhecemos Paulo Freire, na década de 1970, em Genebra, onde Paulo trabalhava como consultor no Conselho Mundial de Igrejas. Em 1974, Martin Carnoy publicou seu conhecido livro Educação como imperialismo cultural e eu, três anos depois, defenderia minha tese de doutorado, na Universidade de Genebra, com o título A educação contra a educação sobre a Educação Permanente como ideologia.

Paulo Freire gostou muito do livro de Carnoy e fez muitas anotações e destaques na edição que se encontra na sua biblioteca. Desde então, este livro foi uma referência para ele. Ivan Illich também fez elogios ao livro de Carnoy: “um livro importante”, disse ele; “tanto quanto sei, é o primeiro livro que descreve o lugar central que a escolarização teve no desenvolvimento da crise mundial da sociedade industrial que enfrentamos agora”. Paulo Freire participou da banca de minha tese e prefaciou o livro resultante dela, o qual foi publicado em 1978, em francês, pela editora L’Age D’Homme de Lausane (Suíça) e, no ano seguinte, no Brasil, pela editora Paz e Terra.

Paulo Freire estava profundamente interessado nos desdobramentos do processo de internacionalização da educação que estava em curso naquele momento histórico. Viu no livro do Carnoy um relato contundente das consequências dessa internacionalização no momento em que ele estava assessorando a reconstrução de alguns sistemas nacionais de educação de países recém libertados da colonização.

Passados mais de quarenta anos, relembrando nosso encontro com Paulo Freire, buscamos revisitar Freire pensando na educação do futuro a partir da práxis do instituto que leva seu nome. O resultado está neste livro que organizamos com um grupo de mais de 60 convidados: Reinventando Freire: a práxis do Instituto Paulo Freire, celebrando os 50 anos da Pedagogia do oprimido.

No convite que fizemos aos autores e autoras, esclarecemos que não se tratava de relatar diferentes ações e experiências do IPF, ou sua trajetória, e nem de ficar respondendo ao contexto brasileiro. Estávamos interessados em nos inspirar em Freire e na práxis do IPF sem ficar na descrição ou relato de seus projetos. Nossa proposta foi a de não falar apenas para nosso público interno, para aqueles e aquelas que já estão mais afinados com nosso discurso. Gostaríamos de alcançar um público mais amplo, não apenas de especialistas em educação, agregando mais gente para a causa que nos une em torno do legado de Paulo Freire. A educação, no mundo, passa por uma crise grave, associada à crise civilizatória atual, e Paulo Freire pode ser uma inspiração para o surgimento de novas políticas públicas de educação.

Pensamos em escrever pequenos ensaios, redigidos numa linguagem acessível, comunicativa, sedutora, ensaios densos, reflexivos, prospectivos, propositivos. Acabou saindo um livro exigente, volumoso, mas agradável de ser lido. Um convite ao diálogo em tempos obscuros. Sim, nós temos referenciais. Nós temos caminhos a seguir. Não estamos perdidos. Nós caminhamos por sendas de lutas e utopias, com um novo jeito de caminhar, juntos, na reinvenção de Freire, mantendo viva a luta por uma educação emancipadora. E somos apaixonados pelo que fazemos.

Iniciamos a primeira parte do livro, Atualidade de Freire, com autores e autoras que se debruçaram sobre as razões para continuar estudando Freire hoje, porque ele continua relevante e vigente, num mundo desigual, onde o conhecimento e as tecnologias da informação e da comunicação têm uma nova centralidade. A segunda parte apresenta as propostas do IPF relacionadas com a Educação Básica, com destaque para o exercício da cidadania desde a infância, a educação integral, a educação de adultos como política pública, o reconhecimento e certificação de saberes populares, o mundo do trabalho e a educação em direitos humanos.

A terceira parte trata da práxis do IPF relacionada com a Educação Superior, com destaque para a centralidade da Extensão Universitária, um campo privilegiado da tradição freiriana. No início da década de 60 Paulo Freire criou e dirigiu o Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, dando grande ênfase ao papel da extensão na reforma da universidade. Importante e inovadora, nessa parte, a abordagem freiriana da educação à distância e da educação popular na universidade. A quarta parte tem por título Outras pedagogias e educações possíveis, com a presença das educações e pedagogias emergentes, contra-hegemônicas, e, por isso mesmo, ainda pouco exploradas, como políticas públicas, a educação para a sustentabilidade, para a cidadania global e planetária, passando pelo hip-hop como prática da liberdade e pela pedagogia da economia.

A quinta e última parte trata de Testemunhos da práxis freiriana na trajetória de 27 anos do Instituto Paulo Freire, seja nas suas áreas de atuação, seja na dinâmica de sua organização e funcionamento, com um capítulo sobre testemunhos deixados pelos que passaram pelo IPF e dois longos capítulos com 34 análises e relatos de práticas vivenciadas, reveladores do esforço desta organização conectiva na busca de outro mundo possível.

Relendo agora este livro, não mais como um dos organizadores do trabalho, mas como leitor, eu vejo que os autores e autoras conseguiram demonstrar que Paulo Freire continua oferecendo contribuições e pistas importantes para entendermos os desafios atuais. O mundo se globalizou e se estreitou pelo avanço das tecnologias, mas também se distanciou no trato do humano, no respeito, valorização e convivência com as diferenças, bem como do reconhecimento das semelhanças culturais. A visão humanista de Freire é um referencial importante para superarmos esse distanciamento. Não se trata, agora, de repetir suas ideias como discípulos. Trata-se, muito mais, de anunciar uma outra educação possível, profundamente engajada no presente e nos seus desafios atuais, num embate recriador do mundo. Combatido ou admirado, ele continua sendo uma referência.

Paulo Freire ficou conhecido no mundo como um cruzador de fronteiras. Ele assumia o risco de atravessar fronteiras das ciências, das profissões, das culturas. Ele se autodefiniu como um menino conectivo. Essa era mais do que uma característica pessoal. Ela é, também, uma categoria epistemológica de toda a sua obra. Acho que isso é muito atual. Nos dias que vivemos, de intolerância e desafeto, precisamos muito exercitar a escuta, o diálogo entre diferentes, numa conectividade radical, para “tornar o mundo um lugar onde seja menos difícil amar” como afirma no final da sua Pedagogia do oprimido.

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E para comemorar esta data, o Instituto Paulo Freire, que luta pela defesa da escola pública, da democracia, da educação libertadora, emancipadora, disponibiliza gratuitamente, o pdf do livro “Reinventando Freire”. Acesse: https://bit.ly/2NCCTs7
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Dia 05 de outubro – Dia das Aves

 

No dia 05 de outubro é comemorado o Dia das Aves, data que serve de alerta para um crime ambiental: o tráfico de animais silvestres. Somente no mês de setembro, mais de 300 filhotes de papagaio-verdadeiro foram apreendidos na mesma região, em Mato Grosso do Sul, pela fiscalização. Isso representa, no mínimo, 150 ninhos saqueados esse ano que, em sua maioria, são inutilizados ou perdidos por queda das árvores e deixam de atender à espécie. Esse número equivale a uma parcela mínima de papagaios-verdadeiros que são retirados da natureza para atender o comércio ilegal de animais de estimação, dentro e fora do país

Palestra sobre o solo no Parque Cientec

Título da palestra:  A importância do solo no meio ambiente. Resumo: O solo é um recurso natural fundamental para a manutenção da vida na Terra. É um recurso natural finito, que precisa ser melhor conhecido para ser preservado da degradação. São muitos os tipos de solos e cada um deles possui características próprias.   Profa Dra Déborah de Oliveira – Departamento de Geografia da USPLocal: Auditório do Parque CienTec da USP Av. Miguel Stefano, 4 200 – Água Funda – SP

Luiza Possi apresenta show “Piano & Voz” em São Paulo

Luiza Possi está na estrada com o show Piano & Voz. No dia 09 de setembro, a se apresenta no Centro Cultural Olido, em São Paulo.“O show é feito de referências minhas como intérprete, há releituras de clássicos do jazz, MPB e do rock nacional, de Rita Lee a Raimundos”, conta Luiza. “Músicas do meu repertório – como “Eu Espero” e “Me Faz Bem” – também fazem parte do set list”, completa.Ao lado de Ivan Teixeira, no piano, Luiza tem viajado o Brasil com esse formato de show. Já dividiram o palco com ela, artistas como Alcione, DeMaria, Elba Ramalho e Enok, sanfoneiro do Trio Virgulino. Em outubro, a cantora receberá também Thedy Corrêa, vocalista do Nenhum de Nós nas apresentações que fará no Sul do país.SERVIÇOLuiza Possi | Piano & Voz
Local:
Centro Cultural Olido | Av. São João, 473Data: dia 09 de setembro | domingoHorário: Retirada de ingressos | 18hInício do show | 19hPreços: Entrada GratuitaDuração: 90 minutos

Livro da EdUFSCar aborda relações entre escrita e oralidade no teatro

Obra, de autoria do francês Roger Chartier, será lançada na UFSCar, com a presença do autorSerá lançado no próximo dia 12 de setembro, no campus sede da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), durante o V Colóquio Internacional de Análise do Discurso (CIAD), o livro “Do palco à página – publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII”, de autoria de Roger Chartier, traduzido por Bruno Feitler, com revisão de Mary Del Priore, e publicado pela EdUFSCar.O livro traz análises que o historiador francês faz das travessias vivenciadas pelos textos e que constituem um capítulo fundamental da história cultural da escrita e da leitura, dedicado a compreender as transformações e as variações de uso e sentido de um texto em suas itinerâncias. A obra parte do princípio de que, ao ultrapassar as fronteiras da cena para o manuscrito, do manuscrito para o impresso, e então ganhar a vida de novo nos palcos, tem-se a modificação da produção e difusão de textos. Quando os textos mudam de forma, a recepção se altera. Ela também se altera pela razão de os textos permanecerem os mesmos quando seus leitores já não o são.No prefácio, o autor explica que os quatro ensaios que compõem o livro tratam de períodos, gêneros e públicos diferentes. De um lado, o teatro da primeira modernidade, dos séculos XVI e XVII, seus autores e espectadores; do outro, o romance do Século das Luzes (XVIII) e seus leitores. Para Luzmara Curcino, docente do Departamento de Letras (DL) da UFSCar, e Pâmela Rosin e Clarissa Conti, respectivamente doutoranda e mestre pela UFSCar, todas elas autoras da apresentação da obra, Chartier se dedica à análise das transformações dos textos, dos mais cotidianos aos mais consagrados, dos mais antigos aos contemporâneos, assegurando que a História cumpra uma de suas funções fundamentais, que é iluminar o presente com interpretações do passado, de modo a nos permitir compreender as continuidades bem como as descontinuidades que regem as práticas atuais. “Em suas palavras, encontramos o aporte teórico fundamental e a sustentação histórica incontornável para empreender as travessias previstas e também as inesperadas nessa sempre desafiadora aventura de estudo da existência peculiar dos textos, entre a flutuação de seus usos e a relativa fixidez de suas formas, entre a institucionalização de sua recepção e a indeterminada variação de suas leituras”, escreveram as pesquisadoras na apresentação da obra.O lançamento do livro, aberto ao público e com a presença do autor francês, acontece no dia 12 de setembro, das 15h20 às 16 horas, na Livraria da EdUFSCar, localizada na área Norte do Campus São Carlos. Mais informações no site da EdUFSCar (www.edufscar.com.br).

Não esqueçam do Museu!

“No feriado da Independência, foi queimado o prédio onde foi assinada a independência do Brasil” diz filósofo Dia 7 de Setembro, sexta-feira, será o feriado da Independência, cuja história foi perdida, queimado na triste tragédia que não só chocou o país, mas como também o envergonhou diante do mundo. O incêndio do Museu Histórico Nacional foi repercussão, não só no Brasil, mas em todo mundo.Arrasado, um fã de arqueologia, da história e do tempo, o filósofo luso-brasileiro Fabiano de Abreu diz que sexta-feira será de luto.“O feriado da independência, aquele de depois de amanhã, que muitos esperam ansiosamente para descansar e dar aquela escapadela da rotina, não é mais um feriado da independência e sim do ‘Luto da Independência’, pois queimaram o prédio onde foi assinada a independência do Brasil.”O filósofo que ontem participou de um debate na RTP internacional para todos os países lusófonos, fez questão de lembrar a perda especial para a colônia portuguesa no Rio de Janeiro e no Brasil. “Ontem ao falar na RTP fiz questão de expressar o sentimento de nós, portugueses, que vivemos no Brasil e a perda significativa de um pedaço de Portugal que ali estava.”

Aberrações políticas

Por Gilberto da Silva

No passado, as chamadas “aberrações humanas” eram utilizadas como atrações nos circos, os chamados circo de horrores (“freak shows”). Eram seres com anomalias genéticas em sua maioria. Pessoas com deformidades que eram abandonadas pela família e o donos dos circos os “adotavam”.

Pessoas como a Mulher Barbada, entre elas a famosa Annie Jones Elliot que possuía uma barba desde os nove meses de idade e que chegou a ganhar em dólares o equivalente ao então presidente dos Estados Unidos. Tinha de tudo: gêmeos que nasceram grudados (os famoso irmãos siameses), o garoto lagosta, a mulher mais feia do mundo, a mulher de quatro pernas,o homem elefante, anões e todo tipo de bizarrice.

O tempo, com a ajuda maravilhosa da Medicina, fez com que as pessoas passassem a entender que essas pessoas não eram bichos e sim humanos com anomalias genéticas.

Na Sociedade do Espetáculo essas aberrações entraram para o cenário da Política. No Brasil temos exemplos enorme de aberrações, que longe da genética, persiste na aberração ética, moral e intelectual. Nem dá pra exemplificar pois corro o risco de esquecer “atores! importantes!

 

Oddity Fat & Skinny Man, os “boxeadores circenses

Preparando meu mix anti mau olhado

Acabo de preparar meu pacote de proteção física e espiritual para os próximos dias. Na verdade é um mix! Na minha lista é possível encontrar um pé de arruda – que não usarei para efeitos calmantes, e sim para resgatar uma crença popular de raiz africana, que versa que ao colocar uma folha por cima de uma orelha ajuda a espantados maus espíritos. Deixo na lista um saco de sal grosso para limpar a energia negativa. Já pedi uma bíblia autografada pelo papa Francisco: não sei se receberei, mas valeu a intenção. Na lista inclusa está uma corrente de nossa senhora aparecida. Um elefantinho indiano ficará bem na mesa da sala. Uma figa de presente será bem recebida. Tomarei banhos de descarregos e comprarei vasos de pimenteira. Suplementarei com Guiné, Alecrim, espada de São Jorge e Manjericão. Manterei a boca calada e tomarei cuidado com as reclamações, com as fofocas. Colocarei um leão voltado para a porta nos ambiente-se vivo. Lerei salmos de proteção. Usarei cristais. Irei em mais jogos do Santos. Escolherei bem meus candidatos. Desafiarei!