Minha seleção 2018

Courtois, Trippier, Thiago Silva, Varane, L. Hernandez, Kante, Modric, Rakitic, Mbappé, Kane e Hazard.

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No dia 13 de julho de 1994, Brasil vence a Suécia e dá o penúltimo passo em busca do tetra

Romário fez o gol da vitória por 1 a 0, aos 30 minutos do segundo tempo, que levou a Seleção Brasileira à grande final

Créditos: Wilson de Carvalho / Gerência de Memória e Acervo da CBF

40 anos do Movimento Negro Unificado e 30 do Geledés contra o racismo

1º de agosto
Quarta-feira – 18h30
Intitulado 40 anos do Movimento Negro Unificado (MNU) e 30 do Geledés contra o racismo, o Debate CEDEM do próximo dia 1 de agosto celebra as conquistas do MNU e do Geledés – Instituto da Mulher Negra. São décadas de ação das duas entidades pelo reconhecimento do negro em sua plenitude. O MNU nasceu com o nome Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial para desmascarar o racismo velado da sociedade nacional, foi também um marco na resistência contra a ditadura militar. Em 1978, em pleno regime de exceção, um ato público ocorreu na escadaria do Teatro Municipal, em São Paulo, para denunciar manifestações de racismo. As gotas d’água foram o assassinato, por policiais, do trabalhador negro Robson Silveira da Luz, em Guaianazes, zona Sul da cidade, além da segregação de atletas negros, jogadores de vôlei do Clube de regatas Tietê, impedidos de entrar na piscina. Segundo seus fundadores, o MNU colocou a termo “NEGRO ” no vocabulário corrente. Em sua história, teve o papel de transformar a maneira de o negro enfrentar a discriminação racial e o racismo. De ações semi-clandestinas, ocorridas em terreiros de candomblé e centros culturais periféricos, o MNU passou a priorizar ações públicas. Locais como escolas de samba, universidades, sindicatos, partidos políticos tornaram-se os espaços de discussão da questão racial. Neste debate, membros do MNU e do Geledés abordarão as trajetórias de lutas, conquistas e desafios constantes para as questões de gênero e raça na sociedade brasileira.

 

Expositores

Prof. Ma. Suelaine Carneiro
Mestra em Educação pela UFSCar, socióloga e coordenadora do Geledés Instituto da Mulher Negra.

Neusa Maria Pereira
Jornalista, educadora social e uma das fundadoras do MNU-SP.

José Adão de Oliveira
Gastrônomo, torneiro mecânico, um dos fundadores do MNU-SP.

Mediador
Prof. Dr. Juarez Tadeu de Paula Xavier
Mestre e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam – USP). É assessor da Pró-Reitoria de Extensão Universitária da Unesp, docente da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Câmpus de Bauru; pesquisador do Centro de Estudos Latino Americano sobre Cultura e Comunicação (ECA-USP); Coordena o Núcleo Negro da Unesp para a Pesquisa e Extensão (NUPE) e o Núcleo de Estudos e Observação em Economia Criativa (FAAC-UNESP).

No dia 29 de junho de 1958, a seleção brasileira de futebol venceu sua primeira Copa do Mundo, na Suécia

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Primeiro título mundial da seleção brasileira completa 60 anos. A vitória na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, marcou o início de toda a trajetória de glórias da seleção brasileira de futebol.

O herói da equipe foi Pelé, então com 17 anos, no começo de sua esplêndida carreira.Estádio de Rosunda, em Estocolmo. Final da Copa do Mundo de 1958. Brasil contra a Suécia.

Treino é treino, jogo é jogo!

Didi foi um dos maiores jogadores da história do futebol. O “folha seca” como ficou conhecido pelo chute com efeito na bola, foi bicampeão mundial pelo Brasil em 58 e 62. Em 1958, Didi foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo, tendo sido campeão com a seleção brasileira. Foi então que a imprensa estrangeira deu a ele o apelido de Mr. Football.

Ao mestre Didi é atribuída a autoria da frase “Treino é treino, jogo é jogo”.

Didi morreu em 12 de maio de 2001 e embora tenha sido velado na sede do Botafogo do Rio de Janeiro (onde jogou), nenhum dirigente do clube apareceu no enterro. As despesas do enterro foram pagas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Sensibilidade e arte

relembranças do Jornal da Cohab de 1986

Wandir Marques Gonçalves 

No lumiar de um novo século, oramos pela nobreza de seus versos, Que tantos e a todos estes artistas narrou em suas canções, tem até quem diga: “Chico Buarque é um grande artista e poeta”, mas sim um grande músico, suas melodias soam corretas em nossos ouvidos, é como uma manequim nua, com suas curvas e suavidades, linda de se admirar. Logo em seguida vem suas vestes, e faz com que a mesma manequim linda e nua se torne linda e maravilhosamente vestida.

Homem de grande sensibilidade que une ação, força e a realidade num mesmo frasco, como se a química já estivera pronta pôr si própria.

Sua arte nos dá profundidade, buscando-nos no mais profundo sentimento de igualdade, a cada canção ele está mais a frente, mais atrás, mais ao meio, enfim ele nos encontra em todo momento.

Salve Chico Buarque!

 

 

 

 

 

Em filme sobre FHC não!
Chico disse que não está satisfeito com o governo do Fernando Henrique Cardoso e que não deixaria que sua obra, a música “O que será?”, fosse associada à atual gestão.  Chico vetou o uso de um trecho da sua música no filme e na videoinstalação “Pessoas do Brasil”, de Tadeu Jungle e Carlos Rennó, produzidos especialmente para serem exibidos na mostra Expo 2000, de Hannover, Alemanha.

 

 

Chico de Hollanda, de aqui e de alhures

Aqui, mais um trecho da carta do amigo Ruy Guerra ao velho amigo Chico

“Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua – tudo à flor do coração, em carne viva… Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção – saibam.
Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção.”

 

 

Curiosidade

Chico Buarque é filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e de dona Maria Amélia

 

 

Nesta edição, a letra da canção Pedro Pedreiro, letra e música de Chico feita em 1965, boa viagem e até mais amigo leitor

 

 

Pedro Pedreiro
Chico Buarque/1965

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande no bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)

 

Wandir Marques Gonçalves, é artista plástico

FecomercioSP e GREEN Eletron recolhem 663 quilos de eletroeletrônicos, pilhas e baterias portáteis

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O material, coletado durante a Conferência de Produção Mais Limpa,
foi encaminhado para a destinação ambientalmente correta

São Paulo, 13 de junho de 2018 – A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), por meio do seu Conselho de Sustentabilidade, realizou uma campanha de Logística Reversa na 17ª Conferência de Produção Mais Limpa e Mudanças Climáticas, no dia 4 de junho, em São Paulo. O evento anual discute os pilares da sustentabilidade (ambiental, econômico e social) e é iniciativa da Câmara Municipal de São Paulo, em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

Cerca de mil pessoas participaram da conferência e descartaram aproximadamente 663 quilos de pilhas, baterias portáteis e eletroeletrônicos pós-consumo no estande da FecomercioSP junto com a GREEN Eletron, gestora criada pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). A Federação e a GREEN Eletron ainda distribuíram cartilhas sobre Logística Reversa de pilhas e baterias portáteis e orientou os presentes sobre o descarte correto dos materiais.

Esses produtos pós-consumo não podem ser depositados no lixo doméstico (comum), pois podem possuir substâncias que contaminam o solo e a água. A resolução CONAMA 401/2008 e a lei 12.305/2010 orientam sobre o descarte desses produtos no que tange a sistema de logística reversa.

O presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP, José Goldemberg, ressalta que campanhas são importantes para informar as pessoas da necessidade de segregar esses tipos de produtos do lixo doméstico, e onde encontrar os pontos de entrega para o descarte responsável. “A cidade de São Paulo conta com pontos de entrega para vários produtos. É preciso que todos participem”, disse Goldemberg.

A GREEN Eletron será responsável pelo encaminhamento para triagem, desmonte, reciclagem e disposição final dos rejeitos. Assim, parte do material poderá ser utilizada como matéria-prima para novos produtos, fechando o ciclo de Logística Reversa. O processo minimiza impactos ambientais como contaminação de solo, lençóis freáticos e cursos d’água e ainda permite que recursos minerais, água e energia sejam poupados, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade.

“Precisamos entender que o equipamento Eletroeletrônico e as pilhas e baterias portáteis só vão ter a destinação adequada se for corretamente descartado”, afirmou o presidente-executivo da Abinee e da Green Eletron, Humberto Barbato. “Esses sistemas de Logística Reversa são os primeiros passos que estamos dando em direção a um mundo mais sustentável”, completou.

A FecomercioSP dispõe de uma plataforma de Logística Reversa (www.fecomercio.com.br/projeto-especial/logistica-reversa) que auxilia consumidores, empresas e sindicatos na adoção da Logística Reversa, e quaisquer dúvidas podem ser enviadas para o e-mail logisticareversa@fecomercio.com.br

A GREEN Eletron também possui um site que apresenta orientações e informações aos consumidores, sobre os sistemas de Logística Reversa que gerencia, confira no link: https://www.greeneletron.org.br/

Segundo o idealizador da conferência, o vereador Gilberto Natalini, em 2009, a Conferência P+L e Mudanças Climáticas assumiu o compromisso de realizar campanhas de arrecadação de lixo eletrônico. “Na primeira Virada Sustentável, a campanha arrecadou 20 toneladas de lixo eletrônico e sempre somos favoráveis à realização de campanhas de conscientização da população, referente ao descarte correto”, disse Natalini.

Adesão aos termos de compromisso de Logística Reversa
Para ajudar os comerciantes que vendem pilhas, baterias portáteis e eletroeletrônicos a cumprir as determinações legais, a FecomercioSP, por meio do seu Conselho de Sustentabilidade, promove a adesão aos termos de compromisso de Logística Reversa mediante plataforma disponível em seu site. É gratuito, fácil e prático.

Realizado o cadastro, os comerciantes podem receber esses produtos pós-consumo dos clientes e encaminhá-los para destinação ambientalmente adequada, de responsabilidade do fabricante ou importador.

A plataforma de Logística Reversa da FecomercioSP também traz informações para os consumidores e sindicatos representantes do comércio. Por meio da ferramenta, os consumidores podem encontrar os pontos de entrega mais próximos de suas casas e se informar pela cartilha de Logística Reversa.

Com a vigência de quatro anos, o Termo de Compromisso para a Logística Reversa de Pilhas e Baterias Portáteis foi assinado em 23 de dezembro de 2016, por FecomercioSP, Abinee, Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SMA), Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e GREEN Eletron. O termo contempla os seguintes produtos: baterias portáteis, pilhas comuns de zinco-manganês, pilhas alcalinas e pilhas recarregáveis. Os pontos de entrega podem ser encontrados no portal http://www.fecomercio.com.br/projeto-especial/logistica-reversa/pilhas-e-baterias-portateis e também https://www.greeneletron.org.br/pilhas.

O termo de compromisso para a Logística Reversa de produtos eletroeletrônicos de uso doméstico, também possui vigência de quatro anos e foi assinado em 16 de outubro de 2017, pelas mesmas instituições do termo anterior, que dão destinação correta a produtos como aparelhos de telefone, celulares, videogames, acessórios eletrônicos, câmeras de foto e vídeo, impressoras, desktops, laptops, tablets, notepads, e-readers e similares. Os pontos de entrega específicos podem ser consultados na página: http://www.fecomercio.com.br/projeto-especial/logistica-reversa/eletroeletronicos.

DO PODER DA PALAVRA

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ADÉLIA BEZERRA DE MENESES

 

Em “As 1001 Noites”, Sheherazade vence a morte e o poder, propiciando a cura através de um discurso vivo, corpóreo

 

“As 1001 Noites” em geral nos chegaram através de antologias infantis. Conhecemos as Histórias: “Sindbád, O Marujo”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “O Pescador e o Gênio” etc. Mas tais antolo­gias acabam por privar o leitor do plano geral da obra – a estrutura de encaixe dos contos, embutido uns dentro de outros- e, sobretudo, da poderosa figura da Sheherazade, que vence a morte através da Literatura. Tra­ta-se da maior apologia da Palavra, de que se tem conhecimento. E analisar o papel da contadeira de histórias significará abordar o problema das relações da mulher com a Literatura, da mulher com a Palavra, da mulher com o símbolo e com o corpo.

Sheherazade é personagem da narrativa que inicia e termina “As 1001 Noites”, servindo-lhes de moldura; é a partir dela que se dará o pretexto para os demais con­tos. Trata-se da história de Xariar, sultão de todas as Índias, da Pérsia e do Turquestão, que descobre, por intermédio de seu irmão, imperador da Grande Tártaria, que sua mulher o traía -E ele toma conhecimento disso no mesmo momento em que o irmão lhe revela que também fora traído pela mu­lher. A conclusão é inevitá­vel: “Todas as mulheres são naturalmente levadas pela infâmia, e não podem resistir à sua inclinação”. O sultão, no estupor da mais funda desilusão afetiva, propõe ao irmão que ambos  abandonem seus Estados e toda a sua glória, e saiam pelo mundo para, em terras estranhas, melhor esconderem seu comum infortúnio. O irmão aceita, com a condição de que voltariam se encontras­sem alguém mais infeliz do que eles próprios. Seguem caminho, disfarçados, e chegam à beira-mar, onde são surpreendidos por algo que parece um maremoto. Sobem a uma árvore, escondem-se entre os galhos, e presenciam uma cena qual um gênio (um djinn) tira do mar uma grande caixa de vidro, fechada a quatro chaves, onde estava encerrada uma bela mulher, quase adolescente, que ele libera da caixa. Era a sua mulher, que ele roubara para si no dia de suas núpcias, e que mantinha presa. Declarando-se cansado, o gênio diz à mulher que gostaria de deitar a cabeça nos seus joelhos, e adormece.

Os dois irmãos acabam por ser descobertos no meio das ramagens de seu esconderijo pelos olhos perscrutadores da jovem. Ela retira delica­damente a cabeça do gigante do colo, vem para baixo da árvore e propõe aos dois irmãos que tenham relação com ela. Atemorizados pela presença do gênio, eles inici­almente se recusam, mas ela os força exatamente com o argumento de que, se não dormissem com ela, ela acordaria o gênio. Obrigados, eles satisfazem sua vontade, primeiro o mais velho, depois o caçula. Ao fim, a jovem pede a cada um o seu anel. E diante de seus olhos estupefatos, abre uma pe­quena bolsa que continha outros 98 anéis. Conta que esses anéis foram dos homens que já a tinham possu­ído. “Com os dois de agora, diz ela, completo uma centena”. “Uma centena de amantes, malgrado a vigilância ciumenta e a precaução do gênio, que me quer só para si”. Ele se esmerava em encerrá-la numa caixa no fundo do mar, mas ela não deixava de enganá-lo…  “Vede que, quando uma mulher tem um desejo, não há mari­do que possa impedir a sua execução” – dizendo isso, ela se senta e coloca de novo a cabeça do gênio, que conti­nuava a dormir, tranquilamente em seu colo.

 

Plano

Os dois irmãos voltam pelo caminho de onde tinham vin­do, comentando que nada no mundo ultrapassava a malícia das mulheres, e que, nesse assunto, até aquele gênio de poderes sobrenatu­rais era mais infeliz do que eles. Convencidos da perfídia feminina, decidem retornar cada um para o seu reino. O sultão Xariar formula um plano, que lhe permitiria manter sua honra inviolavelmente preservada, sem que fosse obrigado a prescin­dir de mulher: consistia em dormir a cada noite com uma virgem, e no dia seguinte, ao acordar, mandar matá-la, pelo seu grão-vizir. E escolheria uma nova para a noite seguinte, e assim por diante. A cada dia, uma jovem casada e morta. E o início dessa prática trouxe à cidade a mais intensa das desola­ções.

Ora, o grão-vizir, que devia ao sultão a mais cega obe­diência e que malgrado sua vontade, a cada noite apre­sentava ao sultão um nova virgem, e a cada manhã, malgrado sua repugnância, era obrigado a matá-la, tinha duas filhas: Sheherazade e Dinerzade. E assim que, textualmente, é apresentada Sheherazade, na versão de Galland:

“… tinha uma coragem maior do que se seria de esperar do seu sexo, e um espírito de uma admirável penetração. Tinha muita lei­tura e uma memória tão prodigiosa, que nada lhe escapava, de tudo que ela “avia lido. Aplicara-se com todo sucesso ao estudo da filosofia e da medicina, e das belas-artes; e fazia versos melhores que os mais céle­bres poetas do seu tempo. Além disso, era provida de uma grande beleza, e uma muito sólida virtude coroava todas essas belas qualida­des.” (G., vol. 1, pág. 35)

Dessa descrição ressaltam primeiro as qualidades “inte­lectuais” que fazem de Sherazade uma mulher extremamente inteligente e que se cultivava (lia, estudava, fazia poesia). Mas suas características propriamente físicas -que não são dadas em detalhe, e vêm depois, e só depois, das intelectuais, também não são descuradas: trata-se de uma bela mulher.

Pois bem: essa mulher altamente interessante que parece ser Sheherazade, comunica um dia ao grão-vizir seu pai que queria tornar-se mulher do sultão:

“Desejo por um termo a essa barbárie que o sultão exerce sobre as famílias des­ta cidade. Quero dissipar o temor que tantas mães têm de perder suas filhas de uma maneira tão terrível. (…) Se eu perecer, minha morte será gloriosa; se tiver êxito, restarei um serviço importante minha pátria.”

E combina com a irmã seu plano: Dinerzade deveria deitar-se no quarto nupcial (sob pretexto de que, ainda uma vez, elas pudessem passar uma noite próximas), e uma hora antes do romper do dia, deveria acordar Sherazade e solicitar-lhe que contas­se uma de suas histórias. É o que se passa: nessa noite, depois de ter dormido com o sultão, que a desvirgina, Sheherazade é despertada pela irmã, que lhe pede uma história -talvez pela ultima vez. Depois de obtida a permissão do sultão, Shehrazade começa a narrar. E no auge do suspense, quando a ação esta para ser definida e a curiosidade do seu real ouvinte aguçada, vendo que a aurora se anunciava, suspende sua narrativa:

“Sheherazade, nesta pas­sagem, percebendo que era dia e sabendo que o sultão se levantava bem cedo para fazer suas preces e ir gerir seus negócios de Estado, parou de falar.” (G., vol. 1, pág. 46).

Diante da observação da irmã, de que essa história era maravilhosa, Sheheraza de lhe afirma que a continu­ação seria mais maravilhosa ainda e que, se o sultão quisesse deixá-la viver mais um dia, que lhe desse permissão para acabá-la na noi­te seguinte. Sheherazade ganha um dia de vida. Na segunda noite, quando a irmã a acorda, Sheherazade “sa­tisfaz a curiosidade do sul­tão”; acaba a historia inicia­da e começa uma nova, interrompida no auge do sus­pense, ao romper a aurora: e assim, noite após noite, o sultão declara desejar ouvir a história iniciada na véspera, e a deixa viver por mais um dia. Não há garantia, nem Sheherazade a pede: ela consegue, à prestação, dia a dia, ganhar um dia de vida. Ela aceita assumir o risco absoluto: arrisca perder a vida, para recuperar ao sul­tão uma imagem feminina, perdida pela infidelidade. Há algo de épico no seu gesto: uma mulher que, através da Palavra, salva a raça feminina.

E quando chega a milésima primeira noite, o sultão se rende: “1001 noites tinham transcorrido nesses inocentes divertimentos; elas tinham mesmo ajudado muito a di­minuir as prevenções iradas do sultão contra a fidelidade das mulheres; seu espírito tinha-se abrandado; ele es­tava convencido do mérito e da sabedoria de Sheheraza de; lembrava-se da coragem com a qual ela se tinha exposto voluntariamente a tornar-se sua esposa, sem apreensão quanto à morte a que se sabia destinada no dia seguinte.”

E diz o sultão: “Bem vejo, amável Sheherazade, que sois inesgotável em vossas narrativas; há muito me divertis; pacificaste minha cólera, e eu renuncio de bom grado à lei cruel que eu me tinha imposto… Desejo que sejais considerada como a libertadora de todas as moças que deveriam ser imola­das ao meu justo ressenti­mento”. (G.vol.3,pág. 439).

 

Memória

Isso, na versão de Galland. Na versão de Mardrus (1) (por muitos considerada a “tradução obscena” de “As 1001 Noites”), as coisas são apresentadas de uma maneira bem mais concreta. Em Mardrus, Sheherazade apresenta ao sultão ao fim da 1001ª noite, os filhos que, ao longo desses quase 3 anos, ela tivera com ele. A relação sexual entre o sultão e Sheherazade, que Galland omite, Mardrus explicita: ganha aqui inequívocas provas, ganha concretude.

Mas voltemos um instante à caracterização inicial de Sheherazade. Se há algo que a tipifica sobremaneira, é sua prodigiosa memória. Em “As 1001 Noites” podemos vislumbrar as ligações da narrativa com o infinito, da Memória com o infinito -aspecto esse que se tornará bastante evidente se formos situar a Memória na sua dimensão mítica. Com efeito, no Panteão grego, a Memória, “Mnemosyne”, é uma deusa, filha de Urano e de Gaia, irmã de Chronos e de Okeanos – a memória, filha do céu e da terra, irmã do tempo e do oceano: todas, metáforas de infinitude…

E a Memória é para os gregos a mãe das Musas, mãe das divindades responsáveis pela inspiração. ”Mnemosyne” preside à função poética. A própria sacralização da Memória (os gregos fizeram dela uma divin­dade!) revela, por si só, o alto valor que lhe é atribuído numa civilização de tradição oral, como foi, entre os século 12 e 8, antes da difusão da escrita, a da Grécia.

Essa deusa feminina tem tudo a ver com Sheherazade. “Mnemosyne” revela as ligações obscuras entre o rememorar” e o “inventar”: a musa inspiradora da invenção poética é, ela própria, filha da Memória.  Sherazade, a contadeira de histórias, não era apenas uma espécie de repositório vivo das histórias de seu povo, não apenas aquela que “transmitia” histórias contadas por outros; na sua caracterização inicial, fora-nos dito que ela também escrevia “versos melhores que os dos mais célebres poetas seu tempo”. Ela também criava.

E assim, noite após noite, Sheherazade vai, com a ajuda da Memória, conduzindo adiante o fio de suas histórias: vai tecendo as narrativas. Não é um fio linear: é uma teia, uma trama. Infin­dável, infinita. Uma história dará margem a uma outra história que, embutida dentro dela, desembocará numa terceira, que contém em si o germe de uma quarta etc. etc. Na acepção do último tradutor ocidental de “As 1001 Noites”, Khavam (saiu sua tradução completa, na França, em 1986), Sheherazade é “La Tisserande .des Nuits” -a tecelã das noites.

 

Mulher tecelã

Evidentemente, essa trama, essa rede narrativa eram frutos da astúcia de Sheherazade: serviam para enredar o sultão. Essa trama narrativa (trama quer dizer também procedimento ardiloso!) no limite significava… tramóia: a astúcia, velha arma dos fracos contra os fortes. E arma feminina, muitas vezes.

Sheherazade, a astuciosa, é a mulher que tece narrativas intermináveis, e que nesse fio prende o seu homem e vence seu poder. E nessa linha de astúcias, e de fios, e de tramas, há toda uma tradição (é verdade que de outra cultura, mais uma vez, a grega) de mulheres fian­deiras (2). Penso sobretudo em Penélope, de quem já se disse que é tão astuciosa quanto seu marido, o astuto     Ulisses, tecendo infindavelmente o manto com o qual afastará os pretendentes à sua mão, enquanto espera a volta do seu homem. Mas há também Ariadne, que fornece a Teseu o fio com que ele enfrenta o Labirinto; e Pan­dora (a primeira mulher), tecelã, que aprendeu a arte das fiandeiras com a deusa Atena, cujo epíteto é exatamente Atena Penitis, a “tecelã”; e Aracnê, que desafia a deusa Atena na arte da tapeçaria e acaba transformada em aranha. E há as Parcas, que tecem a trama dos destinos humanos. Todas, mulheres. Por que é sempre feminina a personagem que lida com o fio? Num estudo sobre a Feminilidade (3), Freud tece uma engenhosa explicação: a arte da tecelagem teria sido uma invenção de mulheres, inspi­rada pelo pudor feminino. Com efeito, o pudor, diz ele, teria como finalidade primi­tiva dissimular os órgãos genitais, dissimular a fenda que existe no sexo feminino:

“Parece que as mulheres fizeram poucas contribuições para as descobertas e inven­ções na história da civilização; no entanto, há uma técnica que podem ter inventado -traçar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-íamos ten­tados a imaginar o motivo inconsciente de tal realiza­ção. A própria natureza pa­rece ter proporcionado o modelo que essa realização imi­ta, causando o crescimento, na maturidade, dos pelos pubianos que escondem os genitais. O passo que faltava dar era enlaçar os fios, enquanto, no corpo, eles estão fixos à pele e só se emaranham.”

Mas voltemos a Sheherazade e Penélope, astuciosas e fiéis. Trata-se, aqui, do mesmo tema da fidelidade. Não nos podemos esquecer de que, na história de Sheherazade, é a fidelidade que está em jogo: o desígnio cruel que o sultão se havia imposto, de que sua mulher por uma noite fosse morta ao romper da aurora não tem outro objetivo senão preservar, ainda que à custa da morte, a fidelidade feminina. (E ao mesmo tempo, como veremos mais adiante, tal desígnio impedia-o de amar vedava ao sultão o amor: matando a mulher com quem dormia a cada noite, impedia-se de relacionar-se em continuidade, de estabelecei vínculos).

Penélope/Sheherazade Uma tece infindavelmente o manto, dia após dia, no meio dos príncipes, e sua fidelidade é condição para o reencontro; outra tece infindavelmente, noite após noite, teia de sua narrativa: sempre em suspense, sempre na terminada. Terminá-la, seria a morte.

Penélope: a fidelidade por um fio. Sheherazade: a vida por um fio. A falta de término, em ambas, é uma metáfora do infinito. Em ambos o casos, na tecelagem que praticam, é a fidelidade que está em questão. No caso de Penélope, a trama feita desfeita é seu ardil, para afastar os pretendentes reservar-se para a volta de Ulisses. No caso de Sheherazade, a construção de su teia narrativa não apenas ardil para ganhar mais um dia de vida, mas seu fi narrativo refaz, ponto a ponto, os farrapos do coração do sultão, dilacerado pela traição feminina.

Sheherazade tece o tecido de sua  história, conduz o fio da narrativa. A trama da narrativa não é um fio; é uma teia, com todas as suas ramificações, e nessa rede ela enreda o sultão. Não por acaso que ela é a imagem mesma da sedução.

Penélope: aquela que tece. Seu próprio nome (em grego, Penelopéia) revela sua vocação: do grego “pene”, fio de tecelagem, e, por extensão, trama, tecido (daí nosso pano do latim pannus). E c substantivo grego “penelopéia” significa: dor. Tudo se explica quando pensamos que ela vivia na nostalgia (= dor do retorno) de Ulisses, e que o pano que ela tecia (que tem a ver com a morte: era uma mortalha para Laertes, o pai do seu marido) era garantia da sua fidelidade, como que vedava o acesso de sua sexualidade aos preten­dentes que a assediavam:

“Então, de dia ela tecia a grande tela e de noite, desfazia a sua obra, à luz das tochas. Foi assim que, durante três anos, ela soube esconder sua astúcia e enganar os Aqueus” (“Odisséia”, cap. 24).

 

Astúcia

Penélope, Sheherazade uma tece de dia, outra tece de noite. Três anos: aproximadamente 1001 noites. Fidelidade e sedução articuladas Em ambas, uma mulher vence o poder masculino. Qual é, exatamente, a as­túcia de Sheherazade?

A primeira resposta é que Sherazade não apenas joga com a imperiosa necessidade de fição que habita o coração de cada homem, mas teria inventado também a técnica do suspense: inicia uma narrativa aguça a curiosidade de seu ouvinte e… não a satisfaz – naquela noite.  O desenlace seria narrado na próxima noite, se o sultão lhe concedesse mais um dia. Aos poucos, vão sendo introduzidas referências às reações do sultão, e, especificamente, à sua curiosidade. Assim termina, por exemplo, a noite 33:

Sherazade preparava­-se para prosseguir seu conto; mas, percebendo que era dia, interrompeu sua narrativa.  A qualidade dos novos personagens que a  sultana acabava de introduzir em cena tendo aguçãdo a curiosidade Xariar, e deixando-o na espera de algum aconteci­mento singular, o príncipe esperou  a noite seguinte com impaciência” (G., vol. 1,  pág.25)

Ou então: “O sultão, persuadido de que a história que  Sherazade tinha a contar seria o desenlace das prece­dentes disse consigo mesmo: “ É preciso que eu me conceda o prazer completo.’ Levantou-se e resolveu deixar viver ainda este dia a sultana”. (G.,  vol. 1, pág. 216).

Satisfazer a curiosidade, para o sultão, significa pra­zer. Postergá-la, significa cultura. Pois uma das coisas que diferenciam o homem do animal é exatamente isso: a capacidade de postergar a realização do prazer. E as­sim temos a curiosidade do sultão extremamente bem administrada por Shehera­zade, com sua técnica de suspense. E os textos acima provam o quanto a quaIidade narrativa de suas histórias, sua qualidade literária, por­tanto (a saber: introdução adequada de novos persona­gens; previsão de aconteci­mentos singulares; prepara­ção cuidada do desenlace) conta.

E o interessante é que a curiosidade está presente em dois níveis, em “As 1001 Noites”: nesse primeiro nível, da “macroestrutura”, na história que serve de moldura é a curiosidade que fundamenta o adiamento da execução da sultana. Mas também, ao nível das histórias contadas, entre os muitos motivos recorrentes nas narrativas de “As 1001 Noites”, esse motivo da curiosi­dade adquire grande importância, dado seu estatuto de desencadeador das ações. Curiosidade necessidade imperiosa de conhecer. Aguilhão do saber por experiência. Haveria que se fazer um estudo antropológico da curi­osidade, e do papel que ela desempenha em várias religiões e mitologias: desde a curiosidade de Eva, atiçada pela serpente, na narrativa mítica do Paraíso, tal como aparece no “Gênesis” (“Po­des comer de todas as árvo­res do jardim. Mas da árvore do conhecimento do Bem e do Mal não comerás…” E o resto a gente sabe: a queda, a expulsão do Eden, o Paraí­so Perdido…), passando pela curiosidade de Pandora, que abre a fatídica caixa de males que se espalharão por toda a terra, só restando no fundo da caixa a esperan­ça…; até a curiosidade do curumim que abre o coco de tucumã que encerra noite, fazendo com que a escuridão se espalhasse pelo mundo, como na lenda indígena brasileira. Sempre a curiosidade, com o que ela representa de fálico e fáustico, de motor do progresso e de propulsora do espírito humano, mas também com o que ela com­porta de fragilidade: deixar-se vencer pela curiosidade significa “sucumbir a uma fraqueza”, cair em ten­tação. Como naquela história que Sheherazade conta ao sultão, do moço a quem foram franqueadas 99 salas de um castelo, com todas as suas delícias; mas vedada a abertura da 100 ª porta: pre­mido pela curiosidade, ele a abre, e ai começa a sua perdição. Mas sobretudo, em vários contos de “As 1001 Noites” (como “O Comerci­ante e o Gênio” ou “História dos Três Dervixes e das Cinco Damas de Bagdá”, e muitas outras), é a curiosi­dade por uma narrativa a ser feita por uma personagem que lhe salva a vida, inicialmente suspendendo a execu­ção da sentença e, finalmen­te, anulando-a. Assim, o mesmo elemento que se en­contra, importantíssimo, a nível da estrutura geral da obra, comparece no detalhe, em numerosos contos.

E Sheherazade, o que faz é manipular a curisosidade do sultão. No entanto, ao longo das 1001 noites processasse uma evolução. Considera-se Sheherazade como a especia­lista do suspense. Contudo, isso é só inicialmente verda­de: ao longo de suas tantas noites de contadeira de histórias, ela abandona o supense, chegando a levar a termo, ao romper da aurora, as suas narrativas. Mas acena com a próxima… Ela abandonará o recurso do suspense  – que  tem algo de um golpe mais ou menos enviesado – um discursus interruptus-  che­gando a terminar os contos na mesma noite em que os iniciara. E mesmo prescin­im dindo do recurso do suspense, o sultão a deixará viver, mais um dia.

E aqui está a segunda a resposta para a pergunta “em que consiste a astúcia de Sheherazade”: na realidade, ela lida é com o Desejo. E todos sabemos que o Desejo não tem um objeto que o aplaque; uma vez cumulado, ele ressurge, desperto do outro, e assim suscessivamente. Não tem objeto que o supra, que o satisfaça, que o cumule. O que é que que o sultão queria? Uma nova de história, e por isso Shehera­zade viveria mais um dia, e depois outro, e outro. Ela não tenta obter dele, logo de do início, que lhe poupe a vida para sempre: consegue dele, a cada dia, que lhe poupe a vida por aquele dia. Mas ele, também, o sultão, daria sentido a mais um dia de sua existência, na espe­ra/expectativa de algo que o plenifique. A função de Sheherazade era alçar sua vontade, tendê-la para algo por vir. Ela age no sentido de acutilar o Desejo, de atiçá-lo, de só ilusoriamente aplacá-­lo… por uma noite. Uma vez supostamente aplacado, ele renascerá. O objeto do Dese­jo está sempre além, sempre adiante, visa sempre um além que escapa: é isso que nos conta a história de Sheherazade e do sultão de todas as Indias.

E o mundo do Desejo é o mundo do Id, mundo da noite, da magia e da fanta­sia. O dia que surge significa que a voz de Sheherazade deve-se calar; é de dia que se realizaria sua execução. Há uma fórmula quase que ritu­al, que escande o fio narrati­vo de Sheherazade: quando rompe o dia, ela se cala, e o sultão vai “cumprir seus deveres” de chefe de Estado. Há aí um confronto entre o princípio do prazer e o prin­cípio de realidade: o princí­pio do prazer cessa com a luz do dia, quando se impõe a realidade, com o seu cortejo de opressões. As noites são para as histórias e para o amor; os dias são para o trabalho (e para a morte)

 

Palavra

Referi a situação (presente tanto a nível das histó­rias que Sheherazade conta, quanto naquela da própria sultana, e que serve de mol­dura às demais) em que uma vida é trocada por uma narrativa. Isso significa um extraordinário apreço pela palavra. As vezes esse apre­ço é expresso materialmente. Numa das histórias que Sheherazade conta ao sultão (“A História de Ganem”), por exemplo, registra-se o seguinte:

“Ele [o califa] achou esta história tão extraordinária que ordenou a um famoso historiador que a escrevesse, em todos os detalhes. Ela foi em seguida depositada no seu tesouro, de onde várias cópias tiradas deste original a tornaram pública.” (G., vol. 2, pág. 420)

As histórias excelentes são guardadas no tesouro real! Estamos numa civilização em que, literalmente, a pala­vra vale ouro, em que a história narrada é tesouro.

E ainda, a palavra aqui é mágica. Já repeti várias vezes que, através da Pala­vra, Sheherazade vence a morte e o Poder. Sheheraza­de, a mulher, instaura um novo tipo de poder. A força da Palavra radica na magia. A palavra aqui transforma -como no curandeirismo, na magia, na religião… e na psicanálise. O conto “Ali-Ba­bá e os 40 ladrões”, por exemplo, é expressivo disso: trata-se de uma palavra má­gica, palavra eficaz, que tem o poder de remover um rochedo, o poder de fazer abrir a entrada da gruta onde os ladrões guardam seus tesouros: “Abre-te Sé­samo”. Ali-Babá a guarda na memória, com cuidado e respeito, e ela se torna um instrumento de força na sua boca. Mas seu irmão, o invejoso e insolente Cassim, se esquece da palavra certa, e tenta outras, que não têm, no entanto, a força mobiliza­dora da palavra mágica. Da palavra transformadora, que remove rochedos. Ele conse­gue penetrar na gruta dos ladrões, mas depois não con­segue sair:

“… acontece que ele se esquecera da palavra neces­sária (…) e, em lugar de “Sésamo”, diz “abre-te Ce­vada”; e espanta-se ao ver que a porta, longe de se abrir, permanece fechada. Nomeia vários outros nomes de grãos, diferentes daquele que era necessário, e a porta não se abre”. (G., vol. 3, pág. 247).

Ele se esquecera da pala­vra certa, da boa palavra acaba perecendo às mãos dos ladrões, que o pilham preso dentro da gruta.

Pois bem, há algo de mági­co na palavra, na história do rei Xariar e da bela Shehera­zade, que consegue demover seu coração de pedra. A tentação de um paralelo com a psicanálise é bastante grande: essa situação extra­ordinária em que a Palavra (aquela que é preferida pelo paciente, e aquela que éouvida por ele) é palavra eficaz: provoca alterações, transforma aquele que a re­cebe. Restaura-se aqui o po der arcaico e mágico da Palavra.

O poeta, o mago e o psicanalista: aqueles que constroem coisas com a pa­lavra, que alteram a realida­de, modificam a essência profunda do ser. E ao lado poeta, do mago e do psicana­lista, a mãe, que conta histórias, a mulher.

A mulher contadeira de histórias: sua influência foi reconhecida por todos aque­les que, desde a Antiguidade, se preocuparam com o pro­blema da eficácia da Pala­vra, da força transformadora da palavra:

“Por conseguinte, teremos de começar pela vigilância sobre os criadores de fábu­las, para aceitarmos as boas e rejeitarmos as ruins. Em seguida, recomendaremos às mães que contem a seus filhos somente as que lhes indicarmos e procurem amoldar por meio delas as  almas das crianças com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o corpo.” (“República”, livro 1  2,377b).

O grifo, evidentemente é meu, realça a importância  extrema que Platão atribui às narrativas: capacidade de moldar, de plasmar almas. Não seria exatamente isso que Sheherazade faz com o sultão? Ela plasmou, moldou sua alma, “abrandando o seu espírito”.

Jeanne Marie Gaguebin, num artigo publicado no Fo­lhetim (4), articula essa passagem de Platão a um texto de Walter Benjanim, que se intitula, exatamente, “Narrar e Curar” (5). Além da ligação entre a fala e o gesto, entre a voz e a mão (a que retornarei mais adian­te), o texto de Benjamin aponta, de uma maneira ex­tremamente pertinente, para a cura pela narração (não fosse esse o seu título!) – que é, como todos sabemos, apa­nágio da psicanálise (“tal­king cure’) e de certas técnicas de cura chamanísti­cas.

Pode-se considerar o sultão doente, ferido na sua afetivi­dade, na sua capacidade amorosa, pela traição feminina; pois bem, nessas lon­gas noites de história, Shehe­razade vai exercendo junto a ele um longo processo tera­pêutico, analítico, pontuado, a cada manhã, pela interrupção com que ela o remetia á  vida real. Ao fim das 1001 noites, o sultão se declara “curado”, abandona o “sin­toma” e se dá alta: “Vós pacificastes minha cólera, e eu renuncio de bom grado e, vosso favor, à lei cruel que eu me tinha impos­to”. E Sheherazade cessa suas narrativas.

Num processo analítico, o paciente fala; ao analista, cabe a escuta. Ele também fala, interpretando; mas o que funda a psicanálise é o discurso do analisando. Pois bem, aqui se trata de um processo invertido: é a escu­ta que é transformadora, é a escuta que cura o sultão.

Falei da psicanálise e tam­bém aludi a certos processos de cura chamanistica, que, aliás, estabelecem com a psicanálise mais de um vín­culo. Lévi Strauss relata, na “Antropologia Estrutural” (no capitulo “L’Efficacité Symbolique”) um procedi­mento dos índios Cuna do Panamá, por ocasião dos partos difíceis: o chamã can­ta para a mulher grávida, diz palavras ao seu ouvido, e assim o nascimento da cri­ança é facilitado. Trata-se, como observa o antropólogo, “de uma medicação puramente psicológica, uma vez que o chamã não toca no corpo da paciente, nem lhe administra remédios; mas, ao mesmo tempo, é colocado diretamente e explicitamente em causa o estado patológico e seu centro: diríamos antes que o canto constitui uma manipulação psicológica do órgão doente, e que é desta manipulaçáo que a cura é esperada’ (6). Manipulação psicológica: metáfora ex­pressiva para o processo psicanalítico. E também pa­ra aquele processo em que as narrativas, como queria PIatão, moldam as almas, “com mais carinho do que por meio das mãos fazem com o cor­po”. Mas voltemos a Lévi Sstrauss. Diz ele que o chamã fornece à sua doente uma ‘higuagem: “E é a passagem a esta expressão verbal (que permite, ao mesmo tempo, viver sob uma forma orde­nada e inteligível uma expe­riência atual, mas sem isso, anárquica e inefável) que provoca o desbloqueio do processo fisiológico, isto é, a reorganização, num sentido favorável, da sequência da qual a doente sofre o desen­volvimento” (pág. 218).

O sultão se encontra cris­pado na sua ira de traído, bloqueado na sua capacidade de amar: Sheherazade oferece a ele uma linguagem, na qual esse estado pode expri­mir-se. Sheherazade fala, e o sultão escuta. É como se a perturbação afetiva grave, de que fora acometido, na sua ira de traído pelas mu­’heres, só fosse acessível àlinguagem simbólica da poe­sia e da literatura. E aqui a gente encontra a narrativa restaurada no seu sentido pleno e primordial, de veícu­lo de experiência humana.

Sheherazade oferece ao sultão uma linguagem, um discurso simbólico que possa atingi-lo, por inteiriçado e crispado que ele estivesse na sua incapacidade afetiva. Ela oferece ao sultão o aces­so ao mundo simbólico; ofer­ta-lhe uma linguagem, como queria Lévi-Strauss, “na qual podem exprimir-se es­tados não formulados e, de outro modo, não formuláveis”. “Não é portentoso que na noite 602, o rei Xariar ouça da boca da rainha a sua própria história?”, pergunta-se Jorge Luís Borges (7) extasiado.

Sheherazade apresenta a Xariar o nível mítico: apresenta-lhe à consciência con­flitos que o traumatizaram, bloqueando sua capacidade afetiva, de tal maneira que ele possa lidar com eles. É por isso que ela não expurga de suas narrativas as histórias de adultérios e traições femininas, não omite casos em que as mulheres enga­nam a seus maridos; ela não faz ao rei uma narrativa “ad usum delphini”; é notável a ausência de censura moral nas suas histórias.

Trata-se aqui, como na psicanálise, (e na cura cha­manística), de propiciar uma transformação interior, con­sistindo numa reorganização estrutural da personalidade: trata-se de recuperar a ca­pacidade amorosa do sultão. Pois bem, Sheherazade, co­mo na transferência, propi­cia ao sultão que reviva com ela uma experiência afetiva continuada e para isso ela precisava de tempo (a saber: 1001 noites -o tempo de uma terapia?) e assim resgata sua capacidade afetiva.

Falei em paralelo com a psicanálise. Mas trata-se aqui de um paralelismo que, evidentemente, não exclui as diferenças. Pois há em “As 1001 Noites”, como aparece em Platão, como sugere W. Benjamin, uma ligação entre a fala eo gesto, entre a voz e a carícia. Não nos podemos esquecer de que as narrati­vas de Sheherazade se segui­am às suas noites de amor com o sultão  e são suas histórias que lhe facultam a  possibilidade de dormir próxima noite com ele É a narrativa que possibilita o encontro futuro. Já se disse que se Sheherazade tivesse oferecido ao sultão só o seu corpo, ela teria sido executa­da, logo após a primeira noite: foi o que, todas as suas antecessoras fizeram, e to­das pereceram. E Shehera­zade salva não apenas a si própria e a todas as mulhe­res em idade de casar do seu povo: ela salva também o sultão: ela o cura de sua ira patológica e assassina, e possibilita a ele uma descen­dência. A persistir no seu plano cruel e ginecida, o sultão se privaria para sem­pre de amar, e de filhos. Sheherazade oferece a ele o tempo e, junto com as suas histórias, a História; oferece a ele o tempo, e, junto com ele, as coisas todas que dele precisam para se engendra­rem: os filhos, a duração do afeto, a permanênciadevín­culos, o longo processo (ana­lítico) de uma cura. Shehera­zade oferece ao sultão um discurso vivo.

Sheherazade ou do poder da palavra. A sultana era uma contadeira de histórias, não em primeira linha uma escritora: ela as contava de viva voz. Aquelas 1001 noites eram marcadas pela cálida proximidade da ‘mulher, da mulher na sua inarrável corporeidade. Não podemos esquecer da carga corporal que a palavra falada carrega. Na narrativa oral, a Palavra é corpo: modulada pela voz humana, e portanto carregada de marcas corporais; carrega­da de valor significante. Que é a voz humana senão um sopro (pneuma: espírito…) que atravessa os labirintos dos orgãos da fala, carre­gando as marcas cálidas de um corpo humano? A pala­vra oral é isso: ligação de sema e soma, de signo e corpo. A palavra narrada guarda uma inequívoca di­mensão sensorial.

“No princípio era a Ação”, diz o Fausto de Goethe. Mas entre a Ação e a Palavra, em “As 1001 Noites” a escolha está feita. “No princípio era o Verbo”, parecem dizer-nos elas, retomando o início do texto do mais visionário dos Evangelistas. No entanto, esse texto não para aí: “…e o Verbo se fez carne”: restau­ra-se, assim, a dialética se­ma/soma, inscrita no cerne da palavra  a Palavra é também, inapelavelmente, corpo.

 

Notas

  1. Utilizo aqui basicamente o texto de Antoine Galland (1717), em edição Garnier ~ k>ari~, 1965, recorrendo também por vezes, ao texto de Mardrus (1899), publicado por Ro­bert/Laffont, Paris, 1985.
  2. Cf. Gilbert Lescault -“Fi­gurées, Défigurées (Petit Vocabulaire de la Féminité Représentée)”, Union Géné­rale d’Editions, Paris, 1977, em que, no vocábulo “Fileu­ses” são elencadas várias mulheres mitológicas que li­dam com o fio.
  3. Freud: “A Feminilidade”, Conferência 33 das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, 1933, vol. 22 das “Obras Completas”, Imago, pág. 162. A referência a esse ensaio foi sugerida pela leitura de Gilbert Lescault: “Figurées, Défigurées”, op. cit.
  4. “Narrar e Curar”, Folhe­tim, S. Paulo, 1 de setembro de 1985.
  5. “Erzaehlung und Hei­lung”, in “Gesammelte Schriften”, vol. 4, Suhrkamp Verlag, pág. 430.
  6. Cf. capítulo “L’Efficacité Symbolique”, in “Anthropologie Structurale”, Paris, Plon, 1958, págs. 211 e seguin­tes.
  7. Cf. J. L. Borges -“Los Traductores de las 1001 No­ches”, in “Historia de la Eternidad”, Emecé Editores, Buenos Aires, 1953.

 

Publicado no caderno Folhetim/Folha de São Paulo em sexta-feira, 29 de janeiro de 1988

ADÉLIA BEZERRA DE MENEZES é professora de Teoria Literária na Unicamp. autora de A Obra Crítica de Álvaro Lias e Sua Função Histórica” (Vozes) e “Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque” (Hucitec)

 

Um homem X para a mulher K

Um HOMEMXpara umamulher K

Por Gilberto da Silva
Tenho uma amiga que procura um homem. Um homem cis (O homem cis é aquela pessoa que nasceu e foi registrado homem e se reivindica homem).  Este homem não sou eu. Não que eu não seja homem cis, ou esteja em dúvida da minha cisdentidade. Não que eu não queira minha amiga K. O que ela sente por mim é apenas admiração e afeição. Não é o desejo por uma bela tarde de amor em uma cama macia, ou uma noitada de sexo que irá acabar com esta afeição. Ou que se transforme num belo caso de traição.
O que K procura é um homem próximo do ideal. Veja bem, para K o homem procurado, desejado, deve ter atributos quase que impossíveis de se encontrar num homem moderno, contemporâneo ou metrossexual.
K deseja um homem que satisfaça seus mais profundos anseios e necessidades. Que não reclame, que ame ir até o banheiro buscar sua toalha, pegar seus chinelos. Coisas simples de um cotidiano de amor e dedicação. K quer um “homem para chamar de seu”, que beijar muito, muito, muito. K quer um homem sem complexo de culpa, sem traumas, ela deseja ser verdadeiramente amada e não simplesmente desejada. A bela deseja ser amada por um homem dinâmico e educado, culto, compreensivo e dedicado. Um homem que saiba se impor sem ser machista, sem violência e com muita fidelidade.
Minha bela amiga pode até conseguir outros homens cis. Uns mais dedicados que outros. Uns mais interessantes que outros. Noites repletas de um amor ligeiro, boa música e bares, vinhos e tequilas. Mas nenhum chegará próximo do homem X: o ser que ela procura.

Deitada em sua rede, na sua casa de praia, K sonha com o Homem X acariciando seus pés enquanto a brisa marinha suavemente refresca seus cabelos.
K quer tudo que uma mulher deseja? Não querendo entrar na dividida feminista, não tenho certeza, mas a bela amiga quer fogo, paixão, tesão, emoção e a força do homem preenchendo seu enorme vazio carencial. Pena, que Wando (o cantor) morreu…

Mas o fato de K. querer um X não significa que este não possa ser feminista, pois o fato de ser feminista não altera a sua condição de homem.

Não se desespere pequena K, uma hora qualquer sua boca será beijada por um Homem Xcis. Um Homem Xcis que procura uma mulher Kcis. Os amores surgem para preencherem os vazios de nossas almas.

K, a força de seu delicado corpo e a inteligência que lhe é peculiar proporciona e abre o caminho para a chegada do Homem X.

 

PS. Dedico este pequeno texto às mulheres que, ansiosas por amar, procuram (numa busca quase sempre inútil) o homem ideal, o homem perfeito para chamar de seu.