Crônicas

Ipsis verbis

Gilberto da Silva

Tem dias que eu acordo pensando que a vida poderia ser mais fácil. Poderia. Para que simplificar, se o charme do pensamento ocidental é complexar! Mas há infinitas variações: de humor, de caráter, de pensamento, de formação etc.. Tem dias que levanto lendo resumos de trabalhos acadêmicos, por exemplo, e fico a pensar que sou uma infinita pessoa de inteligência abaixo da mediana, quase reduzida a um pequeno sujeito irregular. Ler resumos de trabalhos acadêmicos, pode, no meu caso, causar problemas não apenas mentais, mas também de ordem estomacal.

Vejamos: os trabalhos – em sua  maioria – para agradar uma seleta clientela que circulam em torno da Távola Redonda, apresentam verbos nunca antes usados nas falas e conversas de botequins, ou mesmo nas boas casas de leitores comuns. São, na realidade, complexas feituras para distribuição teórica em frequências reduzidas que primam não pela quantidade e sim pela qualidade no padrão conceitual em que ele deseja se destacar. Em sua maioria, tais trabalhos reforçam que o “objetivo” e, então, a coisa, a matéria deixa de ser objectum (no sentido escolástico) e vira uma simples metafísica no sentido kantiano das realidades suprassensíveis. Eu leio, releio, trileio e dou rodeios em todas as sintéticas linhas. Leio um, leio outro, idem ou id.

São textos muito bonitos, barrocos, renascentistas, pós-modernos, estruturalistas, discursivos e nada compreensivos (pelo menos para o cidadão mediano como eu…).

Após minuciosas leituras em eterno método cíclico desses resumos, eu fico com síndrome do pânico, com “gastura” no estômago e dor de cabeça. Sinto-me alijado do processo. Um ser qualquer sem sabedoria. Sinto-me um sujeito em franco processo de regressão linear múltipla. Se não consegui entender nem o resumo, imagine a totalidade do texto, do artigo, do trabalho!

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Fetiche

Gilberto da Silva

Da primeira vez que entrei naquela sala senti um arrepio e uma dor profunda. Não podia acreditar que aquilo que se passava por uma mesa, não fosse uma mesa. Aquele jovem, moderno, articulado, dotado de uma brilhante intelectualidade convidou-me para um café com torradas. Ainda atordoado, não aceitei o convite para tomar café naquele “móvel”. Sai espumando ódio daquele lugar, como se empunhasse uma bandeira de luta numa passeata. Não conseguia esquecer cena tão dantesca; ou melhor, cena de apenas “o inferno”. Jurei não voltar ao local, nunca mais, nem por um momento apenas.

Da segunda vez que entrei naquela sala pude, ainda sob efeito do estranhamento, perceber detalhes daquele corpo. A sua forma ainda me remetia aos tempos do meu conhecimento sobre aquela forma. Vacilei, quase sentei em uma cadeira (absorveria um café, ou um chocolate, sem ainda depositar a xícara em sua linha reta), mas desisti diante de uma inesperada reflexão sobre as formas de vida. Pense: vã filosofia… Sai do local com uma sensação que as relações humanas não estavam bem e que algo de pobre podia estar ocorrendo naquele reino. Sim apoderei-me das leituras de Shakespeare e tentei entendeu um pouco sobre as relações de poder.

Da terceira vez, passados anos de obscuridade, adentrei na velha sala do velho senhor que, de forma simpática e lisonjeira, me apresentou seus discípulos – todos bem vestidos e dóceis – e convidou-me à sentar numa cadeira. A mesa estava lá. Havia outras, todas elas prontas para o uso em outros locais da casa. Já era uma mesa em sua forma mesa, natural, trivial, coloquial. Uma mesa, arquitetonicamente parecida com um corpo humano, decorando a sala.

 

Agosto vem ai e eu estou de olho…

Por Gilberto da Silva

Agosto, mesmo a contragosto está chegando. Eu, quieto, ficarei no meu posto. Atento. Reflexivo. Noites densas, dias tensos. Mês do cachorro louco e das quedas de presidentes.  ( e eu aqui fazendo figa…).  Irei começar o mês rezando ou confessando, pois dia 04 é dia do Padre. Vou ao médico sabendo que no dia 5 é o Dia Nacional da saúde: vou aproveitar um dia antes para orar pelo SUS, pelos convênios e pela decência.

Agosto, do latim augustus (oitavo mês do calendário gregoriano) ainda tem Lava-jato? Dia 11 é o dia do Magistrado, claro,  a toga vem primeiro que o advogado no dia 12…  Aproveitarei e pedirei no dia 11 para o Garçom trazer mais uma, boa, gelada para afogar as mágoas e espantar a tristeza. Noites densas…. Dias quentes…. Estudante, esqueça seu dia… estudante não precisa de dia na nossa nova louca e vã filosofia que refletirei bastante no dia 16 em homenagem a Sócrates, Platão, Hegel. Kant e Neném Prancha.

Dia dos Pais no mesmo dia do economista – procede: precisamos conciliar essas duas características para nosso consumo diário. No dia 20 vai ter festa na maçonaria e eu não fui convidado ( se alguém por aqui passar por lá, avise-me. E no dia 22 vou curtir o folclore nacional e celebrar um pouco do que nos resta de cultura para curtir a infância no dia 24, irei numa feira e respeitarei o soldado no dia 25 e irei ao psicólogo no dia 27, pois de loucura em loucura vamos vivendo.

O bancário no dia 28 que me perdoe pois vou voar nas asas de alguma ave retirada de alguma avicultura e voando para setembro e a primavera entrar!

 

Canção De Agosto Emilinha Borba

Há quem diga que agosto
é um mês que traz desgosto
deve ser superstição
uma simples brincadeira
ou apenas impressãoPois pra quem vivi contente
mês de agosto não existe
mais pra quem não é feliz, ai,ai
até fevereiro é triste

Todos nós podemos ter
um desgosto um desengano
em qualquer hora do dia
em qualquer dia do mês
em qualquer mês do ano

 

 

 

 

Um doce café frio

Um doce café frio

Por Gilberto da Silva

 

Quem me chamou para um café, e não foi? Quem acendeu um pavio e o deixou ao vento morno das manhãs? Coisas do destino.

Aquele pó já está ficando velho e o cheiro já foi embora. Não há mais pó? Nem água?

Aos poucos, cafés, mensagens, telefonemas se dissipam no horizonte das manhãs.

Quem foi que me deixou com uma xícara na mão, saboreando as quenturas do líquido negro da paixão?

Entre palavras mais ou menos ditas, malditas ou bem profetizadas, aqueles cafés quentinhos das tardes ficaram registrados em poucas linhas manuscritas.

Esfriaram também as filas dos cinemas, as músicas, o doce caminhar pelos bosques e praças. Pior que o frio são as águas que descongelam levando para longe os restos. Os restos da imaginação.

Nem só delícias encontraremos no jardim

“O Jardim das Delícias” (detalhe do “Inferno”), c 1500, óleo sobre painel Museu do Prado, Madrid

Por Gilberto da Silva
Tem gente que gosta de criar animais de estimação. Aos pequenos (em algumas ocasiões nem tanto..) dedicam um amor quase incondicional. Outras pessoas preferem adotar políticos de estimação.
Tem pessoas que gostam de cultivar flores. Preparam e cultivam enormes jardins, regam suas folhas e pés com uma militância insaciável. Outras pessoas preferem cultivar filósofos, mesmo sem nunca ter lido um capítulo de suas obras..
Uns mais afetados pelo dia a dia das decepções alheias procuram descarregar suas iras nas redes sociais. Menos mal, poderia praticar maus-tratos em algum animal, ou em algum filósofo.
Outros preferem procurar um Guia espiritual, alguém que o indicará ao reino do céu, com ou sem cobrança de pedágio. Geralmente a coisa se resume numa conta fracionária. E binária. No céu tudo é alegria e no inferno tudo é tristeza. Dê muito céu a um incauto que ele reduzirá sua fração num inferno.
O desapontamento, a decepção, ou toda forma de descrédito, uma hora chega e bate na sua porta ou no seu quintal. É possível que nesse precioso momento não encontrarás mais o político, o filósofo ou o guia espiritual de plantão.
Gosto, diz o ditado, não se discute. Mas também não é bom provar sempre.

Lágrimas revolucionárias

Por Gilberto da Silva

Ficamos a chorar isoladamente em nossos pequenos cantos, pequenos espaços, miúdas águas. Ficamos a chorar nossas lágrimas em nossos pequenos córregos e não juntamos todas estas lágrimas para torná-las um grande rio. Se juntarmos todas as lágrimas caídas isoladamente as transformaremos em um mar de revolução.
As lágrimas nos libertam. As lágrimas fluem em sentidos. Lágrimas aliviam estresse e tensão. Lágrimas limpam as tristezas e abrem espaços para as alegrias. As lágrimas rolam junto com os nossos problemas.
Desviando Paulo Freire afirmo: ninguém liberta ninguém quando chora sozinho; as lágrimas juntas se transformam em revolução.

 

Não olhai as estrelas

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Por Gilberto da Silva

É duro viver no dantesco mundo dos oportunistas. Nem as estrelas poupam. Miram o Sol todos os dias para consumir a energia solar em toda a sua potencialidade. Não perdem um lanche. Não atrasam um trem.  Cavam seus espaços na arquitetura falida dos que optam por uma vida honesta. Oportunistas são hábeis manipuladores.

Não há necessidade de ficar olhando estrelas para observar oportunistas no universo. Há uma constelação deles vagando por nossas ruas. E não são aliens.  Não há necessidade de procurar no espaço infinito. Os oportunistas estão perto dos nossos olhos, no espaço das nossas vivências. o oportunista é um tentador no sentido de ser um agente da tentação.

Falando de um tipo específico de oportunistas, Lenin em O oportunismo e a falência da II Internacional (1916), afirma que o oportunismo é primeiro um estado de espírito, depois uma tendência e numa fase final, um grupo ou camada da burocracia operária a que se juntam companheiros pequeno-burgueses: “O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele amadureceu para uma aliança aberta, frequentemente vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é precisamente essa aliança que lhe dá uma grande força e o monopólio da imprensa legal e da mistificação das massas” escreveu em certo trecho.

Egoísta, o oportunista não dá espaço para você.  Ele sempre vai dar um jeitinho para te chamar de trouxa. Onde encontrar um oportunista? Procure quem pratica caixa dois, quem realiza subornos de fiscais, quem comete sonegação fiscal, quem fura filas, quem compra ou vende produtos sem nota fiscal, quem comete fraudes contábeis, quem te induz  a erro, quem pratica formação de cartéis, quem comete plágio, quem realiza superfaturamentos, quem explora o trabalho infantil, quem contrata funcionários sem carteira assinada, quem costuma se apropriar do trabalho alheio, quem comete assédio moral e assédio sexual, quem manipula seus amigos ou funcionários, ou quem pratica danos ao meio ambiente, quem está sempre dando um jeitinho, entre outros tantos exemplos.

Os oportunistas estão sempre à espreita para golpes e contragolpes, portanto, não fique parado olhando estrelas…

Serenamente sentado na praça

img_3317Por Gilberto da Silva

Vou ficar por aqui, num canto de praça, esperando o ano acabar. Sentado no banco da praça olhando os pássaros. Como paulistano que sou poderia ver tiririzinho-do-mato, ferreirinho-de-cara-canela, beija-flor-preto, tesoura-de-fronte-violeta, beija-flor-roxo. Ah! tucano-de-bico-verde e bico preto verei com certeza.

Na espera de meus braços abertos, com generosidade e paciência, abraçarei amigos e amigas que não se furtam a um afeto caloroso. Revisarei meus toscos textos, meus enroscos, meus desgostos, minha falsa modéstia.  De posse de meu caderno de anotações – com traços firmes e de cor forte – riscarei os nomes indesejáveis, primeiramente este, depois aquele etc. Olharei na agenda de telefones do celular e deletarei contatos inoportunos e incluirei outros poucos.

Na virada para o ano seguinte, vestirei todas as cores possíveis e gritarei para todos que nenhuma cor é pior ou melhor que a outra.  Do armário de roupas velhas e novas usarei as disponíveis sem distinção de modelo, corte, marca ou tecelagem.  Olhando com meus olhos – já em processo de envelhecimento – para o jardim ao meu redor esperarei por imagens de uma sociedade mais democrática e menos preconceituosa. Mirando o jardim exercitarei o prazer do olfato e sentirei o cheiro das flores, das dálias, das orquídeas, das rosas: das mais simples para as mais complexas. Tentarei extrair o aroma das coisas mais simples.

Na hora dos fogos de artifícios fecharei os ouvidos em respeito aos meus sentidos e a dos outros animais. Beberei uma água simples, comerei um bolo de fubá e tentarei respirar profundamente por alguns instantes. Se existir uma pequena farra, por que não farrear?

Na entrada do ano seguinte chamarei para sentar ao meu lado amigos de verdade, gente boa para prosa alegre ou nem tanto. Que tragam um bom livro, uma boa conversa, um café ou mesmo um bom etílico para momentos comemorativos.  Que venham os amigos velhos e os mais novos. Tentarei num esforço hercúleo não pedir nada em troca a não ser que eu esteja num processo de caducidade.  Mas quem – sem corrupção- não gosta de uma agradinho. Uma bala, um chocolate, um sorriso verdadeiro? Que tudo seja de coração e sem rancor.

Já no ano seguinte, no sereno das manhãs seremos serenos. Seremos?

Ditadura do palavreado

banco

Por Gilberto da Silva

Senta um pouco ai nesse banquinho de madeira que lá vem um texto. Textão, texto, textinho, testículo, pouco importa. Importa o conteúdo! Prefiro a veracidade das vozes ouvidas seja dentro ou fora do lugar da fala. Empatia e respeito é pra todos. Que Ubuntu é esse onde uns podem falar mais do que outros? Que ubuntu é esse que uns “merecem” ser mais ouvidos do que outros. Se é preguiça em outrem ler o que você escreve, relegue, mas não negue que algo pode estar errado. Mas além da fala precisamos, em alguns momentos, da escuta, do ouvir, do ler, do COMpreender.

Importa a verdade escrita, lida, ouvida e repassada, ou melhor contemporaneamente falando, compartilhada. Que neurose é essa de “lá vem textão…”???! Delírios de uma sociedade de excesso de informação? Que esquizofrenia, que incapacidade de ter paciência, de ter leniência, de ter saco…  Essa tendência de não ter mais o aporte do real é lastimável. Vivemos numa superfície, baumaniana (Zygmunt Bauman), líquida, imperfeita, surreal. Vivemos numa sociedade bancária onde a cobrança é mais importante do que a poupança.

Para além de semânticas, semiótica. Filosofias, sociologias, psicologias e economias não funcionam sem dialogia. No mais é ditadura. Ditadura do palavreado…

Não é uma questão de mi-mi-mi ou de nhem nhem nhem. A vida não se resume em 140 caracteres, ou no limite da sua linha do tempo virtual.

E assim, “malandramente”, vamos seguindo entre ironias: libidinosas ou não, entre gozos e impotências, entre narcisos e neuroses.

No banco de jardim
No banco de jardim,
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.

No banco de jardim,
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.

No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Nau da insensatez

naudosinsensatos

Por Gilberto da Silva

Na nau da insensatez, os viajantes não sabem a diferença entre revolucionário, conservador, reacionário, esquerda, direita, liberalismo, estatismo, ironia, metáfora etc. Não sabem, não buscam saber e nutrem ódio a quem sabe. O que se faz na rapidez de um supersônico é a criminalização, o julgamento apressado e condenatório, sem direito a uma defesa digna. O linchamento se faz em todos os instantes.

Dentro da nau não há busca por soluções de conflitos ideológicos, não há debate fraterno ou cordial que tente navegar pela forma do consenso ou mesmo pelo antagonismo dialético na busca de soluções ou de aspiração ao espírito da solidariedade.

Tais argumentações não significam o abandono de posições intelectuais e políticas. O contraditório deve ser debatido dentro de um ambiente sadio e não ancorado por um pensamento doentio. Trabalha-se, hoje, pelo gueto, pela exclusão, pelo Thânatos sem o Eros…

Na nau da odiosidade o outro é sempre ameaça permanente. É regressividade, animalismo, canalização do mal sendo usada sem distinção. Na pressa condenatório todo comentário é eivado de maldade de preconceitos; rifa-se o diálogo, a partilha, a compaixão e a colaboração. A ética, nesse caso, só é boa se for para o benefício do Eu.

Como fazer para parar a nau?