Humor

Sobre a arte de engolir sapos

Certas coisas só são amargas se a gente as engole: assim escreveu o cartunista Millor Fernandes! Mas no senso comum corre o ditado que não é nada bom engolir sapos! Quanta sacanagem com o sapo. O sapo não é tão feio como parece. Há várias espécies de sapos e tem uns danadinhos bonitos perdidos na natureza.

O grande mestre Rubens Alves, no texto A arte de engolir sapos assinala: “Mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de levá-lo logo a um psicólogo para saber o que havia de errado com ele. Sapo é bicho de pesadelo.”

Vamos fazer um favor aos sapos: nada de engolir os pequenos anfíbios. Deixemos os bufonídeos em paz!

Em entrevista inédita, Adorno conta detalhes da parceria com os Beatles

Entrevista inédita de Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno ao editor da Partes, Gilberto da Silva

Numa tarde cinzenta, em uma sala apertada do  Instituto para Pesquisa Social (Institut für Sozialforschung) na Senckenberganlage 26, 60325 Frankfurt am Main, Alemanha, conseguimos entrevistar o mestre do marxismo ocidental, Adorno. Na ocasião, ele falou sobre sua experiência em trabalhar como compositor das músicas do The Beatles, grupo que revolucionou o cenário musical nos anos 60, e que levou ao delírio milhares de jovens em todo o planeta.  A revolução musical quase se concretizou com a revolução social ocorrida durante as manifestações de 1968 em todo o mundo.

Esta entrevista foi realizada um pouco antes da morte do pensador alemão (6 de agosto de 1969), logo em seguida The Beatles se afastariam, e em 1970 terminaram definitivamente com o grupo. John Lennon continuou mantendo contato com os frankfurtianos principalmente com Marcuse.

Virginiano, assim como este simples operário das letras, o velho Teddie foi muito amável e respondeu todas as perguntas.

Pergunta: Qual motivo levou um pensador alemão em sua maturidade a compor para um grupo de jovens saído da periferia de Liverpool, na Inglaterra?
Resposta: As longas conversas com Alban Berg foram intuídoras e reveladoras da capacidade da música e de sua penetração social. Refleti que a juventude devia ser o foco das minhas análises dialéticas e que poderíamos dar um novo fôlego aos trabalhos desenvolvidos no p âmbito do Instituto para Pesquisa Social (Institut für Sozialforschung) –IPS.

Pergunta: Quanto efetivamente ouve este encontro, se é que ouve, entre o senhor e os jovens de Liverpool?
Resposta: Em 1960, quando da visita dos meninos em Hamburgo fui até lá. Lembro que foi no dia 17 de agosto. Bairro St. Pauli. Os meninos ainda eram desconhecidos e estavam ali no meio de prostitutas e marinheiros, em shows de strip tease. Foi uma atração inevitável.  Tomamos chá com torradas e com marmelada. Os meninos gostaram muito do local, tanto que o Sutcliffi apaixonou-se por uma bela alemã, a Alice Kircherr e depois acabou ficando com ela. Pena que ele morreu muito cedo.

Pergunta: Por que Lucy in the sky with Diamonds?
Resposta: A juventude tem que perceber que as questões do consumo e da superficialidade do capitalismo atrapalha o desenvolvimento da livre reflexão e contribui para a alienação.

Pergunta: Quais fatores ou condições contribuíram para a confecção de Imagine?
Resposta: Foi um movimento de retribuição ao pensamento de Ernst Bloch, principalmente às ideias preconizadas em O Principio Esperança, queríamos passar um pouco de utopia para a juventude de que é possível continuar sonhando, mesmo na prática da crítica negativa.

You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day you’ll join us
And the world will live as one

(nota do entrevistador: Adorno cantarolou este trecho com um certo sorriso maroto)

Pergunta: Você chegou a ter alguma influência nos filmes dos The Beatles?
Resposta: Confesso que cinema não é muito a minha praia, portanto, relutei, mas fui vencido. Não queria que entrássemos de cara num produto tão forte da Indústria Cultural que é o gênero cinematográfico que demanda um uso muito grande de tecnologia superior a utilizada na indústria fonográfica. Corríamos um risco, dessa forma sugeri, por exemplo, que Yellow Submarine fosse uma animação, na perspectiva de causar um distanciamento necessário.

Pergunta: Tem noticia se está tudo bem, em termos de relacionamento, entre os Beatles?Resposta: Manter um grupo unido é muito difícil, pergunte isso para o jovem francês Guy Debord… Não dá para manter a unidade sempre.  Nós, no âmbito do IPS tivemos e temos muitos problemas de relacionamento.
É necessário que haja rompimentos, rupturas para seguirmos na resistência.

É sempre bom lembrar um trecho de Strawberry Fields Forever (Adorno canta em trecho da canção):

No one I think is in my tree
I mean, it must be high or low
That is, you can’t, you know, tune in
But it’s all right
That is, I think it’s not too bad

Pergunta: Qual a sua relação com George Martin?Resposta: Como sempre muito boa. Ele ouve minhas sugestões e acaba acatando muita coisa. O amor pela experimentação nos une.

Pergunta; E a Ioko Ono?Resposta: Eu nunca entre na vida privada de nenhum deles, cada um tem sua relação, só cuido de que no campo da produção musical eles estejam bem. A Ioko parece ser uma boa menina.

Pergunta: Quais são os seus parceiros favoritos em composição?
Resposta: Para cada produção há um parceiro ideal. Em Revolver optei por parceiros mais contundes questionadores.  Gostei da sinergia com Eric Hobsbawm
 para escrever Taxman que é uma critica contundente a taxação do imposto progressivo no reino Unido. Tomorrow Never Knows tem uma forte inspiração nos escritos e na biografia do Walter Benjamin. Revolver é um álbum que considero revolucionário. Mas reafirmo que é um exagero atribuir a minha pessoa a autoria de todas as composições dos The Beatles. Marcuse, Horkheimer, Pollock, Fromm, Löwental e até o menino Habermas contribuem, cada um à sua maneira, para as composições, inclusive os que já se foram, como Benjamin. Revolver, por exemplo, é dialética do ponto de vista do movimento de rotação e uma homenagem ao conceito de história de Benjamin, aquele movimento dialético de voltar ao passado e dele recolher as cinzas para construir o futuro.

Pergunta; E o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967)?
Resposta: A capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) foi um trabalho do jovem francês Debord inspirado em suas ideias de détournement dos situacionistas. É um álbum que prima pelo trabalho coletivo. Ali tem umas pitadas psicodélicas do Horkheimer. É um álbum que resolvemos realizar algo mais experimentalista.

Pergunta; Quem hoje representa mais o seu pensamento musical?
Resposta: Difícil eleger. Há muito preconceito ao movimento do marxismo cultural que é muito criticado pelos fascistas. São seres patológicos, personalidades autoritárias.

Pergunta: Os seus amigos de Liverpool estão bem?
Resposta: Manter um grupo unido com a fama e o assédio da imprensa e de fãs é muito difícil. São personalidades diferentes, comportamentos diferentes, creio que sempre acontece desgaste nas relações. Não é nada fácil manter um nível de qualidade que demanda muita entrega e dedicação. Mas há muita esperança. O grupo pode continuar em pleno desenvolvimento artístico.

Pergunta: Qual é planejamento futuro? Pretende ainda continuar compondo para os meninos?
Resposta: Estou ficando velho demais para continuar este processo artístico. Não tenho o mesmo pique de dez anos atrás para tanta dedicação.

Pergunta: Alguma mensagem para os brasileiros.
Resposta: Amo muito o Brasil. Só peço que tenham mais cuidado ao eleger um filósofo de estimação, alguns são simplesmente astrólogos que preparam a fábrica de sonhos para idiotas aplaudirem…

Escola de Samba Acadêmicos Unidos de Frankfurt

Por Gilberto da Silva

Gilberto da Silva é jornalista e sociólogo da Prefeitura do Município de São Paulo. Graduado em Jornalismo pela FIAM e Ciências Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. É editor do site Revista Partes (www.partes.com.br) e pesquisador do grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo na linha de pesquisa A Teoria Crítica e a Comunicação na Sociedade do Espetáculo organizado pela Cásper Líbero e coordenada pelo Prof. Dr. Cláudio Novaes Pinto Coelho.

Agora que a folia acabou, vou explicar para vocês como aconteceu o desfile da Escola de Samba Acadêmicos Unidos de Frankfurt, mais conhecida como Escola de Frankfurt, nas passarelas do samba pelo Brasil afora.  Os críticos, que fingem que assistem, teimam em classificá-la como uma escola melancólica, sem muita originalidade e não muito ligada a sua comunidade . Mas ouso afirmar que ela é uma explosão de alegria que na critica elenca projetos sociais e culturais que ajudam a comunidade a ir além da folia cumprindo com o seu papel de responsabilidade social.

O Enredo da escola em cada ano que sai na avenida é um misto composto de um desenvolvimento teórico baseado nas tendências filosóficas e sociais de tradicionais intelectuais de esquerda. Com base nesta tradição a cada ano um novo tema é introduzido na expectativa de dar conta das reivindicações da modernidade.  Na montagem do enredo, a Escola de Frankfurt pensa na totalidade da crítica, na sua historicidade, no desenvolvimento da crítica econômica ao capitalismo excludente. O enredo é sempre uma história com começo, meio e fim em que a originalidade e a maneira em que a história é contada vale muito.

De acordo com o regulamento praticado com a maioria das organizações de carnavais, a Comissão de Frente deve ter no mínimo 10 e um máximo de 15 componentes. Diante da história da nossa escola desfilam: Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Erich Fromm, Habermas, Neunann, Kircheimer., Horkheimer, Friedrich Pollock, Leo Lowental entre outros. Os jurados consideram aspectos como criatividade, coordenação e sintonia na exibição, bem como o figurino e indumentária apresentada pelos integrantes da ala. Na nossa escola sobressaem alguns personagens tais como Adorno, Horkheimer e Benjamin. Mas temos outros mestres na arte da coreografia com seus movimentos sincronizados.

No quesito Porta Bandeira e Mestre Sala a elegância e o respeito ao estandarte deve ser levando em consideração. Mira Komarovski russa e residente nos USA foi uma das pioneiras das questões de gênero e, portanto, nossa porta bandeira. É um caso raro de mulher na escola, mas os frankfurteanos prometem adequação aos novos tempos de empoderamento feminino em carnavais futuros. Max Horkheimer é o nosso mestre sala capaz de ir de um enredo a outro sempre com estilo, sempre com movimentos próprios do bailado, como os meneios, mesuras, meia-voltas.  A escola está selecionando sua Segunda Porta Bandeira e Mestre Sala…

Nossa Bateria é comandada pelo Mestre Adorno. Rígido no compasso, nosso mestre está sempre ditando o ritmo e a consistência do samba. Mestre Adorno cuida de seus ritmistas com muita dureza e trabalho para que estes não saiam da sintonia. Sempre pensando em melhorar seus instrumentos, mestre Adorno procura libertar o pensamento da escola das ortodoxias cegantes do capitalismo, pois o “mal está nas relações que condenam o homem à impotência e à apatia”. Quem desafinar tá fora! A rainha da bateria ainda não foi escolhida.

Em Harmonia, -um dos quesitos mais complicados do Carnaval, a Escola de Frankfurt trabalha no sentido de que o entrosamento entre seus membr0s – sempre tão geniosos – não atrapalhem os demais quesitos da escola.  Quem atravessar o samba tá ferrado! Aqui, Mestre Benjamin não deixa a aura cair.

O Samba Enredo da Escola de Frankfurt é sempre escolhido de forma a proporcionar uma ideia clara da história a ser contada. O tema deste ano foi Não fui eu e nem Ele Não: a dialética do esclarecimento diante da atrofia da racionalidade. Durante os anos de existência da escola tivemos maravilhosos samba enredos, tais como:  A Eclipse da Razão, nem orixás, nem mangás na terra do progresso desenfreado; Sobre o problema da verdade: samba no pé nas origens da fakenews; Teoria Crítica de volta ao passado, a cultura brasileira diante do homem unidimensional; Minima Moralia, os aforismo remanescentes da cultura de massas tupiniquim; e entre demais: A teoria critica na época do renascimento.

No quesito Fantasias, nosso mestre Fromm – o mais rico herdeiro de Freud – cuida com amor e carinho da confecção e do acabamento das roupas que retratam a realidade do nosso enredo, do amor, do ódio, da individualidade e do narcisismo. Mestre Fromm trata de todos os detalhes para que no item Fantasias, a escola saia perfeita. Mas membros da escola em nota de divergência alegam que Fromm está aos poucos abandonado os princípios da comunidade. Sua saída da agremiação é uma questão de tempo. A Velha Guarda está sempre de olho!

Em Alegorias e Adereços, Marcuse entra na guerra com tudo, mostrando sua capacidade performática ajudando a contar uma história que não se resume a apenas obedecer a uma ordem estabelecida. O protesto social deve ser retratado de forma a não perder a sua racionalidade. A provocação e a contestação deve existir de forma que a escola não seja engolida pela tecnologia.

Os componentes da Escola de Frankfurt dançam de acordo com o ritmo da bateria e do samba? Humberto Eco e Luckács tratam de desmentir e de afirmar o contrário. Seria a escola uma entidade apocalíptica?

A Escola de Frankfurt passa – enquanto as escolas de origens marxistas culturais puderem desfilar -pelo público com um curso regular, quer queira ou não seus críticos e algozes. A escola tem momentos em que para por muito tempo (vazio cultural) e depois corre para compensar (ascensão dos movimentos culturais). Nesta hora, alguns destaques extras são convidados a desfilar sua crítica no espetáculo, como críticos iguais a Debord. Estes destaques ajudam compensar alguns vazios deixados na avenida. Existem “buracos” entre as alas ou elas se misturam? Esses são alguns pontos observados pelos julgadores de Evolução. Inúmeros são os intelectuais a cuidarem deste quesito. Para não deixar vazios, fatídicos buracos que podem afetar a reputação da escola, sua diretoria tem investido em formação e em muito estudo da dinâmica do carnaval.

A escola nem bem terminou o carnaval deste ano já está preparando seu novo enredo para o próximo ano. Aqui o fechamento do universo do samba não acaba!

Publicado originalmente na Revista Partes:

http://www.partes.com.br/2019/03/10/escola-de-samba-academicos-unidos-de-frankfurt/

Aberrações políticas

Por Gilberto da Silva

No passado, as chamadas “aberrações humanas” eram utilizadas como atrações nos circos, os chamados circo de horrores (“freak shows”). Eram seres com anomalias genéticas em sua maioria. Pessoas com deformidades que eram abandonadas pela família e o donos dos circos os “adotavam”.

Pessoas como a Mulher Barbada, entre elas a famosa Annie Jones Elliot que possuía uma barba desde os nove meses de idade e que chegou a ganhar em dólares o equivalente ao então presidente dos Estados Unidos. Tinha de tudo: gêmeos que nasceram grudados (os famoso irmãos siameses), o garoto lagosta, a mulher mais feia do mundo, a mulher de quatro pernas,o homem elefante, anões e todo tipo de bizarrice.

O tempo, com a ajuda maravilhosa da Medicina, fez com que as pessoas passassem a entender que essas pessoas não eram bichos e sim humanos com anomalias genéticas.

Na Sociedade do Espetáculo essas aberrações entraram para o cenário da Política. No Brasil temos exemplos enorme de aberrações, que longe da genética, persiste na aberração ética, moral e intelectual. Nem dá pra exemplificar pois corro o risco de esquecer “atores! importantes!

 

Oddity Fat & Skinny Man, os “boxeadores circenses