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Tirania, tiranias, tirânicos

SONETO LXV
Se a morte predomina na bravura
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar – meditação atroz –
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.

Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre idêntica.

         Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem lida com escravos naturais.

         Se acaso hoje nascesse um povo completamente novo, que não estivesse acostumado à sujeição nem soubesse o que é a liberdade, que ignorasse tudo sobre uma e outra coisa, incluindo os nomes, e se lhe fosse dado a escolher entre o ser sujeito ou o viver a liberdade, qual seria a escolha desse povo?

         Não custa a responder que prefeririam obedecer à razão em vez de servirem a um homem; a não ser que se tratasse dos israelitas, os quais, sem ninguém os obrigar e sem necessidade, elegeram um tirano [I Samuel, capítulo 8]; mas nunca leio a história de tal povo sem uma grande decepção e alguma fúria, tanta que quase me alegro por lhe terem acontecido tantas desgraças.

Discurso Sobre a Servidão Voluntária

Etienne de La Boétie

 

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O Amor entre o racional e o irracional

Segundo o biólogo Marc Bekoff, da Universidade do Colorado, nos EUA, os cachorros podem ser tão racionais que fazem planos para o futuro . Foto crédito Gilberto da Silva

Revendo meus arquivos encontro a correspondência de um amigo sobre a questões sobre Ética, Moral e o Amor, não posso deixar de registrar aqui, preservando sua identidade, que mesmo que esta missiva tenha sido trocada há vários anos passados ela continua atual

 

 

Caro amigo Gilberto

Há algum tempo atrás, nós estávamos escrevendo – através da internet (e-mail) as chamadas “provocações”. Em uma dessas provocações intituladas “As ideias fora de lugar” eu falei de um conceito utilizado – o AMOR, onde você Giba disse que fora do amor não existe ética – eu disse naquela ocasião que sempre entendi o seguinte: “o que nos diferencia de outras espécies é a Razão!! – Acredito então que o que permeia e nos faz éticos é também a racionalidade, dessa forma, diria “fora da racionalidade não existe ética”. Pois bem, acho que devo admitir que eu estava totalmente errado. Primeiramente porque o Amor não é somente emocional – o amor também pode ser fruto da razão (mas isso é uma discussão muito filosófica para as nossas reflexões futuras)  – o que cabe neste momento é admitir um erro – pois uma vez que eu queria discutir a partir de um tema “As ideias fora de lugar” como posso afirmar que fora da racionalidade (que pode representar uma ideia no lugar) não existe ética. Os acontecimentos recentes (envolvendo o PT e sua direção em denúncias de corrupção) também contribuíram para eu entender que é necessário muito mais que a razão para nos manter éticos – talvez seja necessário mesmo – o AMOR, a Emoção, a Vergonha, a Pureza e tantos outros sentimentos ou reações humanas.

Eu estou escrevendo um artigo sobre Ética e Moral também abordando racionalidade e irracionalidade – por isso estou – teclando para você – é uma forma também de ordenar as ideias. Existe um filósofo (francês) Gilles G. Granger que escreveu um livro com o título: O irracional – que me influenciou bastante também – segundo ele existe algumas posturas que devemos ter perante o irracional – entre outras – fala que preciso utilizá-lo como recurso – na qual as regras são deliberadamente violadas ou abandonadas em busca de resultados novos ou inesperados – o que significa dizer que deixar de lado o racional pode ser um meio de renovar e prolongar o ato criador.

Penso que faltou isso ao partido no governo – e não a defesa corrente que todos dizem – “se não for assim – não se governa”.

Abraços

J.

 

PS: 1)Em O irracional, o filosofo francês procura considerar o sentido e a função do irracional em algumas obras humanas, mais especificamente na ciência. Segundo ele, a irracionalidade aparece quando a produção da obra se situa ou se desenvolve contra ou fora do quadro original, que eventualmente se tornou demasiado restrito ou esterilizado. Para Granger, o cientista, sobretudo o matemático, pode ter três posturas perante o irracional: a primeira seria encarar o irracional como obstáculo, que nada mais e do que o ponto de partida para o cientista reconquistar a racionalidade a partir do encontro com a irracionalidade. A segunda, classificada como recurso, manifesta-se na criação artística e tem a função de renovar e prolongar o ato criador. A ultima, denominada renuncia, e a verdadeira recusa do racional. Nesse caso, o produtor da obra renega o sistema originário de enquadramento do seu pensamento e da livre curso a sua fantasia.

2) Muito do conceito de AMOR que utilizei nas ditas provocações trocadas entre nós foi extraída dos pensamento de Humberto Maturana.

3) As provocações ocorreram antes do advento da “Lava Jato”.

4) Entre tantas leituras vale apena ler O Erro de Descartes, Emoção, Razão e Cérebro humano, livro de 1994, escrito pelo neurologista António Damásio.

Então o que eu tenho?

Gilberto da Silva

Nesse mundo que se liquida, que se decompõe, sem alma, sem fé, sem consciência, precisamos recuperar nosso corpo, nossa liberdade, nossa alma, nossa consciência. Tenhamos alma, liberdade, amor e nosso corpo: para falar e cantar o que é nosso.

“Na natureza, as mudanças, seja qual for sua infinita diversidade, mostram um ciclo que sempre se repete: nada de novo sob o sol, e nesse sentido o jogo polimorfo das formas naturais não é isento de monotonia. Só se produz novidades nas mudanças que ocorrem no domínio espiritual.” Hegel

Mas não só a espiritual. É preciso lidar com as novas formas da materialidade, do real concreto, vivido. Somos mais que meros partidos, frações ou pedaços espalhados pelo chão. Somos Raízes, Esperanças, e Vontade. É possível, sim, sair  do estado de melancolia e desespero!

A consciência da liberdade parte da reflexão sobre a tirania.

 

Ain’t Got No / I Got Life

Ain’t got no home, ain’t got no shoes
Ain’t got no money, ain’t got no class
Ain’t got no skirts, ain’t got no sweaters
Ain’t got no perfume, ain’t got no love
Ain’t got no faith

Ain’t got no culture
Ain’t got no mother, ain’t got no father
Ain’t got no brother, ain’t got no children
Ain’t got no aunts, ain’t got no uncles
Ain’t got no love, ain’t got no mind

Ain’t got no country, ain’t got no schooling
Ain’t got no friends, ain’t got no nothing
Ain’t got no water, ain’t got no air
Ain’t got no smokes, ain’t got no chicken
Ain’t got no

Ain’t got no water
Ain’t got no love
Ain’t got no air
Ain’t got no God
Ain’t got no wine
Ain’t got no money
Ain’t got no faith
Ain’t got no God
Ain’t got no love

Then what have I got
Why am I alive anyway?
Yeah, hell
What have I got
Nobody can take away

I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my
I got myself

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood

I’ve got life
I’ve got lives

I’ve got headaches, and toothaches
And bad times too like you

I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my smile

I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back
I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood

I’ve got life
I’ve got my freedom
Ohhh
I’ve got life!

Eu Não Tenho / Eu Tenho Vida

Não tenho casa, não tenho sapatos
Não tenho dinheiro, não tenho classe
Não tenho saias, não tenho casacos
Não tenho perfume, não tenho amor
Não tenho fé

Não tenho cultura
Não tenho mãe, não tenho pai
Não tenho irmão, não tenho filhos
Não tenho tias, não tenho tios
Não tenho amor, não tenho ideia

Não tenho país, não tenho escolaridade
Não tenho amigos, não tenho nada
Não tenho água, não tenho ar
Não tenho cigarros, não tenho um franguinho
Eu não tenho

Não tenho água
Não tenho amor
Não tenho ar
Não tenho Deus
Não tenho vinho
Não tenho dinheiro
Não tenho fé
Não tenho Deus
Não tenho amor

Então o que eu tenho?
Por que mesmo eu estou viva?
Sim, inferno
O que eu tenho
Ninguém pode tomar

Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas
Tenho meus olhos, tenho meu nariz
Tenho minha boca
Eu tenho
Eu tenho a mim mesma

Tenho meus braços, minhas mãos
Tenho minhas orelhas, minhas pernas
Tenho meus pés, e meus dedos
Tenho meu fígado
Tenho meu sangue

Eu tenho uma vida
Eu tenho vidas!

Tenho dores de cabeça, e de dente
E tenho horas ruins, assim como você

Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça
Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas
Tenho meus olhos, tenho meu nariz
Tenho minha boca
Eu tenho o meu sorriso!

Eu tenho a minha língua, meu queixo
Meu pescoço e meus seios
Meu coração, minha alma
E minhas costas
Tenho meu sexo

Tenho meus braços, minhas mãos
Meus dedos, minhas pernas
Tenho meus pés, e meus dedos
Tenho meu fígado
Tenho o meu sangue

Eu tenho vida
Eu tenho minha liberdade
Ohhh
Eu tenho a vida!

A coisa aqui tá des-humana, Ana

 

Ana,

Aqui a Condição não está nada boa. A condução, pior. O homem, este animal social ou político que você conhecia bem, aqui, na nossa miserabilidade social, cultural e política atingiu os limites da insuportabilidade.

Minha cara, receba essas palavras  com um certo ar de desencanto. Não total, por que ainda sonho com o amanhã que eu não viverei. O labor aqui atingiu o limite da escravidão moderna, totalmente informatizada segue em seus guetos em metadados orientados. Como nossos heróis morreram todos de overdose, ninguém mais se suporta e se fecham em suas windows – escolha  aversão, devidamente paramentados para as guerras virtuais. Para você sentir: a mais pura atividade dos homens que é pensar, está devidamente extinta.

Liberdade ainda que tardia não é projeto de ninguém. Educação, respeito coisas essenciais nem se encontra mais nos museus (que foram todos privatizados).

Cara filósofa, aqui já ultrapassamos as origens do totalitarismo. Já estamos no fim da Fundação do homem.

Então, o homem aqui segue seguindo o padrão Catão, como você bem observou: “Numquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum esse quam cum solus esser”.

Bem, para não cansar muito o seu descanso, fico por aqui.

Manda um abraço para o Martin e diga que tem gente aqui adorando seu período virtuoso…

Abraços do Giba.

 

Entre a Cruz e a Espada

Não vou ficar na linha de tiro nessa discussão entre o papai partido e seu filho partido (debate Lula/PT x PSOL). Sabe aquela história do pai que botou pra fora seu filho rebelde…. pois é, nenhum dos dois nunca pedirá perdão ou ambos apertarão as mãos e a família – que sofre nessas ocasiões –  só terá paz após a morte de um deles… Fim de jogo!

Curiosamente lembrei da seguinte letra:

Velho Bandido

Sérgio Sampaio

Eu que sou filho de um pai teimoso
Descobri maravilhado que sou mentiroso
Sou feio, desidratado e infiel, bolinha de papel
Que nunca vou ser réu dormindo
Eu descobri como um velho bandido
Que já tudo está perdido neste céu de zinco
Eu que só tenho essa cabeça grande
Penso pouco, falo muito e sigo pr’adiante
Descobri que a velha arca já furou
Quem não desembarcou
Dançou na transação dormindo
E como eu fui o tal velho bandido
E vou ficar matando rato pra comer
Dançando rock pra viver
Fazendo samba pra vender… sorrindo

 

Ditadura do palavreado

banco

Por Gilberto da Silva

Senta um pouco ai nesse banquinho de madeira que lá vem um texto. Textão, texto, textinho, testículo, pouco importa. Importa o conteúdo! Prefiro a veracidade das vozes ouvidas seja dentro ou fora do lugar da fala. Empatia e respeito é pra todos. Que Ubuntu é esse onde uns podem falar mais do que outros? Que ubuntu é esse que uns “merecem” ser mais ouvidos do que outros. Se é preguiça em outrem ler o que você escreve, relegue, mas não negue que algo pode estar errado. Mas além da fala precisamos, em alguns momentos, da escuta, do ouvir, do ler, do COMpreender.

Importa a verdade escrita, lida, ouvida e repassada, ou melhor contemporaneamente falando, compartilhada. Que neurose é essa de “lá vem textão…”???! Delírios de uma sociedade de excesso de informação? Que esquizofrenia, que incapacidade de ter paciência, de ter leniência, de ter saco…  Essa tendência de não ter mais o aporte do real é lastimável. Vivemos numa superfície, baumaniana (Zygmunt Bauman), líquida, imperfeita, surreal. Vivemos numa sociedade bancária onde a cobrança é mais importante do que a poupança.

Para além de semânticas, semiótica. Filosofias, sociologias, psicologias e economias não funcionam sem dialogia. No mais é ditadura. Ditadura do palavreado…

Não é uma questão de mi-mi-mi ou de nhem nhem nhem. A vida não se resume em 140 caracteres, ou no limite da sua linha do tempo virtual.

E assim, “malandramente”, vamos seguindo entre ironias: libidinosas ou não, entre gozos e impotências, entre narcisos e neuroses.

No banco de jardim
No banco de jardim,
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.

No banco de jardim,
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.

No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Dia Mundial dos Animais

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Hoje, 4 de outubro é o Dia Mundial dos Animais. Nossa homenagem a data e àqueles que são os melhores amigos do homem e merecem todo cuidado especial!

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O Dia Mundial dos Animais é comemorado todos os anos em 4 de Outubro. Tudo começou em Florença, Itália em 1931, em uma convenção de ecologistas. Neste dia, a vida animal em todas as suas formas é celebrada, e eventos especiais são planejadas em locais por todo o mundo.

 

O 4 de Outubro foi originalmente escolhido para o Dia Mundial dos Animais, porque é o dia da festa de São Francisco de Assis, um amante da natureza e padroeiro dos animais e do meio ambiente. Igrejas de todo o mundo reservam o domingo mais próximo da data para abençoar os animais.

Educação e juventude

juventudeDentre estas e outras preciosidades retiradas da magnífica obra O Princípio Esperança, de Ernest Bloch (1885-1977) que para ele “ninguém se entorta no devido tempo, pois ninguém quer virar ganchinho. Ou esta pérola sobre o fascista: “o fascista aproveita chances, chances aparentes, como qualquer homem de ação capitalista, pois ele próprio é mestre na realidade capitalista.”

Nós, os heróis e os mortos

Duque500Hoje, 25 de agosto de 2016, ao ler uma matéria da Folha de S. Paulo sobre moradores em situação de rua (disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/08/1806716-agentes-de-haddad-atropelam-regra-ao-retirar-de-praca-morador-de-rua.shtml) lembrei de uma crônica famoso que custou caro ao seu autor, o grande cronista paulistano Lourenço Diáferia. Eu, anquela época, pacientemente lia e recortava essas cronicas e as colava num caderno. Pena que não saberia que um dia existira uma máquina chamada escaner que poderia ter preservado esse material. Por contingências várias tive que me desfazer dessas raridades. Mas na internet achei uma cópia dessa crônica que foi considerado ofensivo às forças armadas, e Diaféria foi imediatamente preso e enquadrado na famosa Lei se Segurança Nacional.

Pode não ter relação o caso da matéria de hoje da FSP com a cronica, mas vale dar uma lida nela:

 

 

Herói. Morto. Nós.

*Lourenço Diaféria

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo.

Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói, como o santo, é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo.

O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento – apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher – salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis – tarde demais.

 

*Lourenço Diaféria foi “absolvido” em 1979. Morreu em 2009.
A crônica foi publicada em 1º de setembro de 1977, no Jornal Folha de são Paulo.

Quero ver #LuizaErundina nos debates da TV

queroErundinanosdebates

Por Gilberto da Silva

Uma das maiores aberrações que poderá acontecer nessas eleições para a prefeitura da Cidade de São Paulo é a ausência nos debates de televisão da futura candidata Luiz Erundina. A nova lei eleitoral feita na escuridão pelo deputado Eduardo Cunha só garante o direito à presença nos debates aos candidatos de partidos e coligações que tenham a partir de 9 deputados federais na Câmara dos Deputados, desconsiderando a efetiva representatividade dos candidatos e impedindo que o eleitor tenha acesso a novas ideias.

Vejamos o que diz o artigo 46 da Lei nº 9.504/1997 da reforma eleitoral que passou a assegurar a participação em debates de candidatos dos partidos com representação superior a nove deputados federais e facultada a dos demais:

 

Art. 46. Independentemente da veiculação de propaganda eleitoral gratuita no horário definido nesta Lei, é facultada a transmissão por emissora de rádio ou televisão de debates sobre as eleições majoritária ou proporcional, sendo assegurada a participação de candidatos dos partidos com representação superior a nove Deputados, e facultada a dos demais, observado o seguinte:

  • Caputcom redação dada pelo art. 2º da Lei nº 13.165/2015.
  • -TSE, de 16.6.2010, na Cta nº 79636: possibilidade de realização, em qualquer época, de debate na Internet, com transmissão ao vivo, sem a condição imposta ao rádio e à televisão do tratamento isonômico entre os candidatos.

I – nas eleições majoritárias, a apresentação dos debates poderá ser feita:

  1. a) em conjunto, estando presentes todos os candidatos a um mesmo cargo eletivo;
  2. b) em grupos, estando presentes, no mínimo, três candidatos;

II – nas eleições proporcionais, os debates deverão ser organizados de modo que assegurem a presença de número equivalente de candidatos de todos os partidos e coligações a um mesmo cargo eletivo, podendo desdobrar-se em mais de um dia;

III – os debates deverão ser parte de programação previamente estabelecida e divulgada pela emissora, fazendo-se mediante sorteio a escolha do dia e da ordem de fala de cada candidato, salvo se celebrado acordo em outro sentido entre os partidos e coligações interessados.

  • 1º Será admitida a realização de debate sem a presença de candidato de algum partido, desde que o veículo de comunicação responsável comprove havê-lo convidado com a antecedência mínima de setenta e duas horas da realização do debate.
  • -TSE nº 19433/2002: aplicação desta regra também quando são apenas dois os candidatos que disputam a eleição, salvo se a marcação do debate é feita unilateralmente ou com o propósito de favorecer um deles.
  • 2º É vedada a presença de um mesmo candidato a eleição proporcional em mais de um debate da mesma emissora.
  • 3º O descumprimento do disposto neste artigo sujeita a empresa infratora às penalidades previstas no art. 56.
  • 4º O debate será realizado segundo as regras estabelecidas em acordo celebrado entre os partidos políticos e a pessoa jurídica interessada na realização do evento, dando-se ciência à Justiça Eleitoral.
  • Parágrafo 4º acrescido pelo art. 3º da Lei nº 12.034/2009.
  • Para os debates que se realizarem no primeiro turno das eleições, serão consideradas aprovadas as regras, inclusive as que definam o número de participantes, que obtiverem a concordância de pelo menos 2/3 (dois terços) dos candidatos aptos, no caso de eleição majoritária, e de pelo menos 2/3 (dois terços) dos partidos ou coligações com candidatos aptos, no caso de eleição proporcional.
  • Parágrafo 5º com redação dada pelo art. 2º da Lei nº 13.165/2015.
  • art. 16-A desta lei.

 

Como podemos analisar, a lei garante a possiblidade de que se houver, a partir de um acordo democrático, a concordância de pelo menos dois terços dos candidatos, o concorrente que não preencher este requisito poderá passar a participar dos debates na televisão.

Luiza Erundina possui uma vida inteira dedicada à política. Foi secretária de Educação de Campina Grande, na Paraíba; fundou o PT; elegeu-se vereadora de São Paulo; foi deputada estadual e prefeita da maior cidade da América Latina; foi Ministra da Administração Federal e é deputada federal desde 1998.

Ficar sem a presença da ex-prefeita Luiza Erundina nos debates será uma perda para a democracia e uma perca de qualidade, pois Erundina representa uma parcela significativa da sociedade que quer ter voz e ser ouvida.

Aquele que é um defensor da democracia precisa reivindicar seu direito de VER LUIZA nos debates eleitorais, dialogando com os outros candidatos e contribuindo para uma eleição democrática.

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