Gilberto da Silva

As pessoas por trás da máquina de ferro

Por Gilberto da Silva

Gilberto da Silva é jornalista, professor (sem aulas…) e sociólogo da Prefeitura do Município de São Paulo. Graduado em Jornalismo pela FIAM e Ciências Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. É editor do site Revista Partes

Na minha memória afetiva de criança está sempre presente o apito, ao longe, do trem. Imaginações infantis, viagens, sonhos e por consequência imaginava-me aquele senhor trabalhando para levar a locomotiva para rincões nunca conhecido.

As primeiras viagens marcadas pelo ferro, pelo aço das bitolas. Cambará – Ourinhos – São Paulo: trajetos muitas vezes demorados, oito, dez até doze horas de viagens. A primeira vez que desci na estação Julio Prestes, em São Paulo, pelas mãos do meu avô materno, inesquecível: aquele amontoado de gente nunca visto pelos olhos juvenis.

As trocas de máquinas, as mudanças nos trilhos e os sonhos de ser um maquinista. A vida e a lida nos levam para caminhos nunca dantes sonhados. Este foi só mais um sonho, sonhado acordado.

O que nunca esqueci é que ali, dentro daquela máquina, que na Grande São Paulo transportou diariamente meus sonhos, minhas dores, minhas angústias, meus amores, minhas desilusões, meus defeitos e minhas qualidades estava um ser denominado ferroviário e ao seu lado outros seres responsáveis para que tudo desse certo, mesmo nas horas em que irritados pelas demoras e atrasos, invariavelmente enlouquecíamos.

Eles e elas estão nos trilhos diariamente levando, trazendo pessoas e mercadorias para alimentar nosso corpo e nossa alma. Meus profundos agradecimentos a esses trabalhadores.

Contrarresiliente, uma resenha

Por Gilberto da Silva

O livro é de poesias, mas bem poderia ser um livro de crônicas. Ou será uma crônica-poesia? Mas poderia ser também um livro reportagem, um retrato escrito poeticamente na desgraça que é ser nas ruas onde não ser igual já é um enorme diferencial. O Zeh Gustavo, nosso contrarresiliente fala (ou melhor escreve, descreve e reescreve) o que o engasgado está por nós.
Vá devagar, o livro tem seu público e tem seu selo antifascista, portanto, não espere que nele impere cápsulas antipedagógicas oprimidas. Aqui a escrita é trans! Transbolzonarizado, transacomodado, transeunte.
O Zeh que já em outras lavras traçou linhas incômodas, em contrarresiliente vai direto ao golpe! Pronto para combater o ar contaminado de imbecilidade ou da boçalidade bosta que impera nos guetos nobres da sociedade pós-boçal com seus hiper chiliques.
A poesia aqui é contracorrente e deveras atinge quem deveras ler. Ler aqui é um ato de contravenção, contradição, contradito, não espere palavras mornas, textos leves como beijos suaves ou músicas para dormir.
Portanto, na contra mão necessária, eu super indico a leitura de contrarresiliente de Zeh Gustavo, editado pela Editora Viés.

título: CONTRARRESILIENTE
isbn: 9786580885046
idioma: Português
encadernação: Brochura
formato: 14 x 21 x 0,8
páginas: 136
ano de edição: 2019
edição:

Veja o comentário no Canal do Youtube:

https://youtu.be/fVxk1lYSbA0

Ensinar uma criança é ajudá-la a perceber a beleza do mundo, diz Celso Antunes

Entrevistei, via e-mail, o professor Celso Antunes que completou 80 anos de vida, em 5 de outubro, e tem mais de 50 anos de livros publicados. Livros, em sua maioria, que viraram referência no ensino. Os primeiros livros didáticos que o professor Celso Antunes escreveu foram publicados pela Editora do Brasil, no início da década de 60. Eu mesmo, Gilberto da Silva, usei livros do professor Celso Antunes nas minhas aulas de Geografia no ensino fundamental do rede pública do estado de São Paulo. Os livros de Geografia que escreveu se destinavam a alunos dos Cursos Ginasiais, e mais tarde os nomes foram alterados para Ensino Fundamental.

Do blog do professor, extraímos uma fala significativa: “Fiz Geografia e depois o mestrado em Educação, dei aula em toda parte e para toda gente, virei o mundo atrás de escola e professor e depois escrevi livros didáticos e um montão de outros destinados a professores e pais, professoras e mães ou ao contrário. Fiz palestras em escolas, teatros, boates, igrejas, churrascaria e praça pública, tive um montão de livros traduzidos no exterior. Já estive em tudo quanto é lugar, jamais recusei convite, viajei até em carroça e para minha felicidade hoje estou aqui com vocês”.

Após muitos anos e sempre com resultados editoriais extremamente significativos, o professor resolveu mudar sua linha de produção. O autor passou a escrever livros sobre temas educativos, não mais centrados na especificidade de uma disciplina escolar. Embora destinados agora a outro público-alvo, essas obras foram e ainda são editadas pelas principais editoras do país e, muitas delas, traduzidas para demais países da América do Sul, da América do Norte e Europa.

Leia a entrevista abaixo:

 

Partes: O que é ser criança neste mundo sem fronteiras colocadas pela multiplicação de canais de comunicação?. Nesse contexto, como como permitir que cada criança conheças suas finalidades e competências para obter um educação plena?

Celso Antunes: Toda criança é, potencialmente, uma “usina de aprendizagens”, uma mente admiravelmente “gulosa” à espera de estímulos que possam faze-la produzir a luz plena da criatividade, mas que para essa “usina” funcione plenamente necessita de estímulos diversos e constantes proporcionados por educadores (profissionais ou não) que a convidem para conversas intrigantes, desafios de natureza lógico matemática e linguísticas, brincadeiras que a fazem imaginar o impossível e sonhar sonhos nos quais se faz plena protagonista.

Quem verdadeiramente educa uma criança “abre” as portas de um cérebro inquisidor, curioso, ávido em superar dificuldades. Uma criança é fonte inesgotável de consciência intrapessoal, interpessoal e existencial, mas as portas desse guloso saber não se abrem sem adultos que conversem, desafiem, proponha e, plenamente, embarquem no “tapete mágico” em que vivem e que anseiam conduzir pelo mundo da fantasia.

Como estas mudanças estruturais de uma sociedade em transformação afetam os processos de aprendizagem? O que deve ser realizado na relação aluno-professor?

Ensinar uma criança não significa “entulhar” sua mente criativa e desafiadora de informações conceituais e que pode, sem necessariamente fazer uso da memória, as obter a um toque de mouse.

Ensinar uma criança é ajudá-la a perceber a beleza do mundo, o correr do tempo, as múltiplas linguagens da natureza e com esse seu saber, usar sempre a ousadia de recriar.

Ensinar uma criança é convida-las diariamente ao passeio pelo imaginário e pelo impossível, perguntando o que se quiser perguntar as fazendo de suas respostas vigorosas estímulos para mais perguntas. Ensinar uma criança não significa aprisiona-la da restrição do “certo” ou do “errado”, mas faze-la arquiteta dos sonhos que ousa sonhar, na ilimitada ampliação das veredas que busca a cada dia construir. 

Se o educador não nasce pronto, que ações ele deverá tomar na sua caminhada profissional? Ao repensar sua prática cotidiana o que o professor deve fazer para evoluir na sua profissão?

Ler muito e imaginar formas de transformar o que aprende em ações que propõe, conversar com seus colegas convidando-os a vigorosa prática de “trocas” sobre procedimentos estratégicos.  Não permitir que um único dia possa se esvair, sem abrigar conversas íntimas e profundas sobre o que aprendeu, que estratégias realmente vale a pena reaplicar, que novos horizontes buscar.

Uma verdadeira sala de professores pode abrigar momentos de lazer, distração e conversa descontraída sobre os momentos que se vive, mas deve também guardar instantes para se revelar experimentos, propor caminhadas intelectuais, refletir sobre os desafios que cada cotidiano nos impõe.

O educador, brasileiro, infelizmente parece ainda não perceber a verdadeira dimensão de sua representatividade e, assim, descobrir-se como um efetivo semeador de amanhãs, construtor de futuros.

Os quatro pilares essenciais da educação – aprender a conhecer, aprender a viver com os outros, aprender a fazer e aprender a ser – continuam válidos? Como fazer com que a família tome parte mais efetiva nesse processo?

Uma família verdadeiramente educadora não pode jamais abrir mão de possuir seu “vinte a trinta minutos semanais” da “meia hora de bate-papo” em que com a televisão desligada, os celulares temporariamente mudos, mergulhem em relatos, experiências, desafios.

Momentos alegres de conversas soltas e livres, mas autênticas, sobre o que se é, os planos que abriga, os sonhos que agasalha. Nesses mágicos minutos desfaz-se a hipocrisia da “mascara” de nossa condição de mãe, pai, irmão e filhos, mas como se reconstrói a certeza de que “amigos vigorosos” sempre trocam pensamentos e sugerem a ousadia oportuna de também trocar em saberes, apresentar relato de experiências, explicação dos sonhos ousados que se ousa imaginar e, assim, construir momentos que, mais tarde, serão lembrados como “fundamentais” para uma nova construção de cada “eu”.

Enfim, fortalecer-se no pilar educacional decisivo de transformar o nosso “saber “ na ousadia de propostas de mais “ser”.

 

 

O Celso Antunes é um educador brasileiro, formado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Ciências Humanas e Especialista em Inteligência e Cognição. Membro consultor da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar, reconhecido pela UNESCO. Embajador de La Educacion – Organización de Estados Americanos. Membro Fundador da Entidade “TODOS PELA EDUCAÇÃO” e Consultor Educacional do Canal Futura. Pró-reitor do Centro Universitário Sant’Anna (SP), Palestrante e Escritor. São mais de 180 livros sobre educação e cerca de 60 livros didáticos publicados. Possui obras traduzidas na Argentina, México, Peru, Colômbia, Espanha, Portugal e outros países.

O menino selvagem e as invariantes do humano

L’enfant Sauvage, Francois Truffaut’s moving portrait

O menino selvagem e as invariantes do humano

Publicado originalmente como

 

“tudo que é dito é dito por alguém”

Humberto Maturana /Francisco Varela

Victor d’Aveyron

Em meados do século dezenove, em Paris, o jovem médico Jean-Jacques Gaspar Itard dá com um aglomerado de pessoas observando, na rua, um menino, enjaulado, a quem chamavam de menino-macaco. Com autorização judicial, o médico o conduz à residência, onde tratará de educa-lo, tornando-o objeto de investigações científicas.

Aparentando seis a oito anos, surdo e mudo, com posturas próximas do animalesco, o menino que fora capturado no mato, onde teria sido abandonado ainda recém-nascido, quase nada aprenderá. Itard observará meticulosamente o menino durante três anos, período que o teve de sobrevida em ambiente social.  Entre as letras do alfabeto fonético, o menino aprendeu apenas a pronunciar o “ô”, derivando daí o nome Victor e o sobrenome d’Aveyron, região onde fora capturado. Durante este período o máximo de imagens que Victor conseguiu reconhecer foi o desenho de uma garrafa de leite no quadro negro.

Itard levantou comportamentos e reações de Victor, tudo relacionou e fez descobertas importantes, como as relações fisiológicas entre garganta, nariz, olhos e ouvidos. Assim, criou a otorrinolaringologia. De quebra foi o fundador da psicologia moderna e forneceu importantíssimos elementos para o estudo do significado das aquisições culturais para o funcionamento da inteligência humana. Em outras palavras para a dicotomia natureza x cultura.

Um filme e um livro foram produzidos para retratar a saga de Itard e do menino Victor. O filme L’enfant sauvage, de François Truffaut (1932-1984), resultou numa bela película, com o diretor encarnando Itard. No livro Lês Enfants Sauvages (as crianças selvagens) de Lucien Malson o relatório de Gaspar Itard sobre Victor d”Aveyron é mostrado na íntegra.

Malson acrescenta ao relatório de Itard sobre Victor muitas informações sobre crianças recapturadas após anos de vida no mato ou em outros lugares, comentando relatos feitos desde o ano de 1500 acerca de quase quinhentas crianças (499 no total) inclusive duas meninas gêmeas indianas que, resgatadas e levadas ao convívio de uma família de um missionário anglicano, não chegaram a aprender a nadar, ficaram com as pernas murchas porque nunca as utilizaram para isso. Comentando o caso das gêmeas indianas Maturana mostra que “embora em sua constituição genética a anatomia e a fisiologia fossem humanas, as duas meninas nunca chegaram a acoplar-se ao contexto humano. Os comportamentos que o missionário e sua família queriam mudar nelas, por serem aberrantes no âmbito humano, eram inteiramente naturais para as meninas lupinas. Na verdade, Mowgli, o menino da selva imaginado por Kipling, jamais poderia ter existido de carne e osso, porque sabia falar e comportou-se como um homem quando reconheceu o ambiente humano. Nós, seres de carne e osso, não somos alheios ao mundo em que existimos e que está disponível em nosso cotidiano”  (Maturana, 2002: 146).

Todo este material reunido, pesquisado, interpretado e concluído, permitiu aos cientistas estabelecer as capacidades e aptidões naturais da inteligência humana, aquelas que constituem o seu “esqueleto” antropológico, como membros da espécie, isto é, o de que dispõem para desenvolver e aplicar em sua vida social e cultural.

A “escola contra a verdade”

Os relatos, apresentações e reflexões de Lucien Malson parecem continuar muito interessantes porque consistiram um ponto de mutação, o início de uma reviravolta nas considerações que se faziam em meados do século passado (anos 50/60) quando aparentemente se vivia o apogeu das correntes de pensamento segundo as quais o “homem não tem natureza, tem cultura”. Malson reúne lições de importantes pensadores, como o antropólogo franco-belga Claude Lévi-Strauss, para fazer despontar indicações científicas de uma “certa natureza” humana em meio ao torvelinho de correntes conflitantes. Em As Estruturas Elementares do Parentesco (1949), Claude Lévi-Strauss analisa a proibição do incesto como meio positivo de assegurar a comunicação e o intercâmbio das mulheres entre os grupos, e vê nisso o critério de passagem da natureza à cultura. Na realidade, tais indicações da ciência formaram um núcleo de revelações e alcançaram uma repercussão suficiente para dar aos seus autores a legenda de uma escola contra a verdade, em alusão ao pensamento velho-europeu dominante.

Desses fatos resultam alguns pontos importantes para a reflexão. Primeiro, seguindo a linha do método analítico – ao qual Jean Piaget havia dedicado seus estudos três décadas antes –a chamada escola contra a verdade determinou uma natureza humana que todos os membros da espécie recebem no estado de nascimento, certamente um patrimônio hereditário. Segundo, essa determinação consiste na introdução do valor da afetividade – isso que tem hoje o nome de emoção – no pensamento científico. Em terceiro lugar, tal avanço mantém o mérito de, como reviravolta ou ponto de mutação (conceito exclusivo de cultura para o de natureza-e-cultura), servir de marco para a reflexão na atualidade, onde a genética e a biologia aparecem com novo vigor de ciência-piloto para vastos campos da atividade humana.

De fato, na atualidade são pensados aspectos circunstanciais da evolução da espécie que conduzem ao chamado pós-humano – máquinas e sistemas assumem ares de vida própria. Isso remete à ponderação sobre o que é humano, o que é identidade humana e sobre as chances de o homem fazer, por conta própria, uma nova revolução biológica (por meio da genômica, engenharia genética, sistemas cibernéticos e máquinas). Ou seja, as chances de ultrapassar o estágio de humanidade alcançado, por uma verdadeira evolução biológica anterior – há cerca de 100 mil anos – que lhe deu a natureza atual.

Esse debate vai longe. As lições de Malson, todavia, servem como ponto de referência para a discussão. De qualquer modo, independentemente de uma exaustiva análise de cada uma dos milhares de genes humanos, e de sua repercussão na vida social, seria possível intuir, apenas a título de polemizar, que a genômica, além de precisas indicações para a saúde e os comportamentos, não terá o condão de mudar a natureza da espécie. Esta natureza é resultante de uma engenharia natural construída ao longo de milhões de anos e não poderia ser objeto de modificações pela ação humana baseada no conhecimento científico. Como produzir artificialmente um ovo de galinha do qual possa nascer um pinto?

O que são os animais humanos, afinal? Como atuam na vida? Vejamos, em resumo, o que dizem os autores referenciados por Lucien Malson a partir da história do menino selvagem Victor d’Aveyron.

As invariantes do humano

“Será preciso admitir que os homens são homens fora do ambiente social, visto que aquilo que consideramos ser próprio deles, como o riso ou sorriso, jamais alumia o rosto das crianças isoladas.”   Lucien Malson – Les enfants sauvages (1964)

Na linguagem de Malson, e refletindo os pesquisadores da época, a inteligência humana se compõe de duas faces (da mesma moeda), sendo uma a razão e outra a afetividade. Para Piaget “inteligência humana (razão) não é senão um instrumento da espécie que facilita sua adaptação ao mundo exterior” (Freitag, 1991: 50)

A razão é geneticamente dotada de três capacidades, “a razão é fenômeno evolutivo que não progride de forma contínua e linear, como julgava o antigo racionalismo, mas por mutações e reorganizações profundas.” (Morin, 2001: 167). As capacidade inatas da razão são a liberdade em relação ao espaço e ao tempo; o pensamento da coisa pura; e a capacidade combinatória.

A afetividade é apontada como a relação que a pessoa matem consigo mesma e que funciona como um filtro para as relações com as outras pessoas, as coisas e o mundo. As aptidões inatas da afetividade são o apelo à regra; o voto de reciprocidade; e o movimento oblativo.

São capacidades e aptidões ou tendências presentes em todos os seres humanos, de qualquer raça ou sexo, em qualquer lugar e em qualquer momento da história da espécie, conforme puderam verificar os cientistas, inclusive com aportes da paleontologia antropológica

a) As capacidades racionais

  1. Liberdade em relação ao espaço e ao tempo

“Como vocês sabem, o primeiro filósofo que enfrentou esta questão foi Emmanuel Kant na sua Crítica da Razão Pura; ele disse que o tempo e o espaço não existem, somos NÓS que os colocamos no mundo dos fenômenos para poder ordená-los e, ao mesmo tempo, a causalidade, a finalidade somos NÓS que as damos aos fenômenos para poder compreendê-los.”  Morin, 2001: 74)

Entre todos os sistemas vivos, os seres humanos são os únicos que atuam livremente em relação ao espaço e ao tempo (as duas únicas dimensões que conhecem entre os bilhões de dimensões existentes no universo, segundo o escritor argentino Jorge Luis Borges).

Em relação ao tempo

Como sujeitos, os seres humanos compreendem naturalmente que o ponto geométrico em que se encontram no espaço euclidiano é intercambiável com o ponto geométrico em que se encontra um estímulo que cai sob sua percepção. Sabem que podem se deslocar até o estímulo ou, ao invés, podem fazer o estímulo vir até eles. Podem ir até a árvore, em busca dos frutos, ou fazer outra pessoa vir de avião até aqui; criar e utilizar correios e meios de comunicação; fazer compras pela Internet, enfim, capacidade de domínio completo sobre a dimensão espacial. Diferentemente, um animal não-humano é incapaz de, estando engaiolado, construir um instrumento para trazer até ele as frutas que estão fora do seu alcance corporal. Tudo depende de nós e por nós.

Em relação ao tempo

Do mesmo modo os seres humanos são livres em relação ao tempo, liberdade que consiste em, como sujeitos, serem capazes de escolher a hora em que vão responder um estímulo, a partir do momento em que este cai sob sua percepção. Um animal, quando faminto, não pode recusar a consumir, de imediato, um alimento que aparece. Os seres humanos reagem de outra maneira: mesmo famintos podem decidir jejuar durante quarenta dias; do mesmo modo, podem optar pela castidade ou seja pelo que for, à revelia dos estímulos.

Livres em relação ao espaço e ao tempo, os seres humanos podem dominar o aqui e o agora, pensar a eternidade, pesquisar o passado, engendrar o futuro.

  1. O pensamento da coisa pura

Segunda capacidade natural dos homens e mulheres, o pensamento da coisa pura corresponde ao pensamento simbólico, ou seja, a capacidade de pensar simbolicamente. É possível tudo investir num símbolo –a cruz representa a paixão de Cristo; a bandeira, o país ou o time de futebol. Cada coisa pode ter seu símbolo, mas fica conservada a capacidade de não se emaranhar nos símbolos, de conservar o significado puro da coisa – Por exemplo -, um jornal é para se conhecerem as notícias e opiniões. No entanto, se chove, posso fazer dele um guarda-chuva; se faz frio, um cobertor, se é necessário acender uma fogueira, um pavio. Todavia, a consciência de que se trata de um jornal permanece imperdível, sem confusão com outras coisas. Daí a possibilidade de criar milhões de vocabulários, ideias, conceitos, teses, linguagens, obras de arte etc.

  1. A capacidade combinatória

A terceira capacidade natural da inteligência, pelo lado da razão, é a capacidade combinatória, a de combinar dois elementos para conseguir um terceiro, como resultado. Os seres humanos, ao pensar em como atravessar um rio, combinam o vertical (pilares) com o horizontal (vão) e constroem uma ponte.

Enfim, essas três capacidades, permanentemente utilizadas em combinação uma com as outras, correspondem aos aspectos racionais, a racionalidade, da inteligência.

As aptidões afetivas

Quando se trata da afetividade os membros da espécie humana têm aptidões ou tendências inatas sempre observáveis em seu comportamento: o apelo à regra, o voto de reciprocidade e o movimento oblativo (ou a prática do dom, de dar presentes).

  1. O apelo à regra

O apelo à regra consiste na tendência natural de estabelecer regras para as relações e situações, com o objetivo de “evitar os inevitáveis sofrimentos do arbitrário”, quer se trate de arbitrário de origem social, quer de origem natural. É tendência objetivada nas regras do jogo, na impossibilidade de mudar as regras durante o jogo, nas leis e outras decisões que buscam uma ordem nas relações, assim como na criação de inventos, instrumentos ou obras para prevenir danos e catástrofes que fatores naturais poderiam causar. A criação de regras e de medidas preventivas tem assim origem numa aptidão natural, num apelo ou recurso sempre-presente, não podendo ser reduzida a uma vontade do poder, do mais velho ou do moralista, padre ou professor.

  1. O voto de reciprocidade

“Não faça aos outros o que não queres que te façam a ti”

“Faz aos outros o que desejares que te fizessem a ti”

“Já que não é possível uma igualdade de força e meios entre as partes, que ao menos haja igualdade nas relações”.

Por isso que, nas eleições, o voto de um analfabeto tem o mesmo valor de um erudito, e nas assembleias os mais fortes se igualam aos mais fracos. A regra da reciprocidade é colocada por Simone de Beauvoir (1908-1989), no livro O Segundo Sexo (1949), como regra de ouro nas relações entre homem e mulher, mas bem se entende que, sendo natural e universal, seja também uma regra na qual se vote sempre, por tendência natural inata, vale dizer em todas as circunstâncias, momentos e lugares.

  1. O movimento oblativo

O gesto oblativo ou movimento oblativo corresponde à prática do dom, de dar um presente a alguém, nas relações interindividuais ou sociais, políticas ou mesmo internacionais. É uma operação de significados complexos: ao dar presente, você renuncia ao egoísmo, abdica da superioridade, se iguala ao outro, mais que isso, o homenageia. Ao aceitar e receber o presente, o outro também renuncia ao egoísmo e abdica da superioridade, se iguala ao que presenteia. Ao mesmo tempo, o objeto presenteado se torna de valor maior, coisa predileta e estimada. O presente dignifica e ritualiza as relações, trazendo-as para um elevado patamar de consideração recíproca, aprofundando a relação e melhorando suas perspectivas. O movimento oblativo “é o mínimo múltiplo comum de todos os desejos e medos contraditórios”, na bela expressão de Susan Isaacs.

Podemos também citar, como dádiva, o potlatch, palavra de origem ameríndia que significa “presente” ou “dádiva”. Entre algumas tribos indígenas do noroeste dos Estados Unidos da América, o potlatch é o nome dado a uma festividade de inverno com distribuição ou troca de presentes, envolvendo frequentemente a dissipação dos bens do anfitrião.

Inteligentes e desejosos de paz

A atuação dos seres humanos, em sua lida diária como em ocasiões especiais, contém o exercício simultâneo das três capacidades da razão e das três aptidões de afetividade, que são patrimônio comum a todos, que todos aplicam ininterruptamente mas que nem todos desenvolvem por igual. Sugere Lucien Malson que tudo que os humanos fazem contém essas aptidões e capacidades, em maior ou menor escala, e que não seria possível fazer alguma coisa fora do seu exercício conjunto. São as invariantes do humano, o que não varia na espécie (ao que afirmam outros cientistas, já cerca de 110 mil anos de idade e com mais, pelo menos 30 mil anos à frente, sem chances de mudança específica).

A conclusão de Lucien Malson é a de que essas capacidades e aptidões naturais, trazidas hereditariamente no estado de nascimento e refletindo uma história realizada ao longo da evolução biológica da espécie, indicam que o homem e a mulher nascem inteligentes e desejosos de paz.

Referências Bibliográficas

FREITAG, Bárbara. Piaget e a filosofia. São Paulo: Editora Unesp, 1991.

MALSON, Lucien. Les enfants sauvages. Editora: Union Generale, 1964.

MATURANA, Humberto R e VARELA, Francisco J.. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athenas, 2001.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. RJ: 4ª ed. Bertrand Brasil, 2001.

Mulher não se dizputa

Com o carro chefe DIZPUTA, uma das três músicas finalistas da categoria Melhor Canção do Prêmio da Música Brasileira, concorrendo nada mais com “Descaração familiar”, de Tom Zé, e “Nunca mais vou jurar”, de Zeca Pagodinho. Carol Naine apresenta seu disco “Qualquer pessoa além de nós”, segundo álbum autoral de Carol, lançado oficialmente em CD em maio deste ano em um show no Rio de Janeiro, terra da cantora.

A agora paulistana (desde 2015) coloca sua voz a serviço de um repertório repletos de canções críticas, de questionamentos a dogmatismo, a sexismo e diversidade cultural, fruto desta vivência na metrópole sugando o fruto das turbulências da sociedade contemporânea, costurando as reflexões cotidianas, de quem saiu do mundo da televisão e das redes sociais paras as ruas movimentas da capital.

“Qualquer pessoa além de nós” também ganhou menção honrosa e entrou para a lista do Embrulhador de “Melhores Discos da Música Brasileira“. Diversas canções deste trabalho foram premiadas em festivais do Brasil, como Femucic (do SESC), Femup, São Lourenço e Limeira. Carol também tem participado de shows em teatros na cidade e no estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Ceará.

Fetiche

Gilberto da Silva

Da primeira vez que entrei naquela sala senti um arrepio e uma dor profunda. Não podia acreditar que aquilo que se passava por uma mesa, não fosse uma mesa. Aquele jovem, moderno, articulado, dotado de uma brilhante intelectualidade convidou-me para um café com torradas. Ainda atordoado, não aceitei o convite para tomar café naquele “móvel”. Sai espumando ódio daquele lugar, como se empunhasse uma bandeira de luta numa passeata. Não conseguia esquecer cena tão dantesca; ou melhor, cena de apenas “o inferno”. Jurei não voltar ao local, nunca mais, nem por um momento apenas.

Da segunda vez que entrei naquela sala pude, ainda sob efeito do estranhamento, perceber detalhes daquele corpo. A sua forma ainda me remetia aos tempos do meu conhecimento sobre aquela forma. Vacilei, quase sentei em uma cadeira (absorveria um café, ou um chocolate, sem ainda depositar a xícara em sua linha reta), mas desisti diante de uma inesperada reflexão sobre as formas de vida. Pense: vã filosofia… Sai do local com uma sensação que as relações humanas não estavam bem e que algo de pobre podia estar ocorrendo naquele reino. Sim apoderei-me das leituras de Shakespeare e tentei entendeu um pouco sobre as relações de poder.

Da terceira vez, passados anos de obscuridade, adentrei na velha sala do velho senhor que, de forma simpática e lisonjeira, me apresentou seus discípulos – todos bem vestidos e dóceis – e convidou-me à sentar numa cadeira. A mesa estava lá. Havia outras, todas elas prontas para o uso em outros locais da casa. Já era uma mesa em sua forma mesa, natural, trivial, coloquial. Uma mesa, arquitetonicamente parecida com um corpo humano, decorava a sala.

Um doce café frio

Por Gilberto da Silva

 

Quem me chamou para um café, e não foi?

Quem acendeu um pavio e o deixou ao vento morno das manhãs? Coisas do destino.

Aquele pó está ficando velho e o cheiro já foi embora. Não há mais pó? Nem água?

Ilusões?

 

Aos poucos, cafés, mensagens, telefonemas e imagens se dissipam no horizonte das manhãs.

Não há mais o sabor das redes, sociais ou não, nem as falas mansas das tardes quentes.

 

Quem foi que me deixou com uma xícara na mão, saboreando as quenturas do líquido negro da paixão?

E que levou consigo as águas gasosas e gozosas que entremeavam os cafés…

 

Entre palavras mais ou menos ditas, malditas ou bem profetizadas, aqueles cafés quentinhos das tardes ficaram registrados em poucas linhas manuscritas.

Letras mais ou menos críveis, tortas e sinuosas.

Esfriaram também as filas dos cinemas, as músicas, o doce caminhar pelos bosques e praças.

Pior que o frio são as águas que descongelam levando para longe os restos.

Os restos da imaginação.

 

Assim, não há café para todos. Nem xícaras disponíveis para apreciar.

Lá fora da cafeteria, um cão passa preguiçosamente pela calçada.

Amigo, vamos caminhar?

Cães não tomam café…

 

Gilberto da Silva jornalista, sociólogo e editor da Partes, funcionário público aposentado e adora café…

Não olhai as estrelas

Por Gilberto da Silva

Gilberto da Silva é jornalista e sociólogo, editor da revista Partes

É duro viver no dantesco mundo dos oportunistas. Nem as estrelas poupam. Miram o Sol todos os dias para consumir a energia solar em toda a sua potencialidade. Não perdem um lanche. Não atrasam um trem.  Cavam seus espaços na arquitetura falida dos que optam por uma vida honesta. Oportunistas são hábeis manipuladores.

Não há necessidade de ficar olhando estrelas para observar oportunistas no universo. Há uma constelação deles vagando por nossas ruas. E não são aliens.  Não há necessidade de procurar no espaço infinito. Cá estão perto dos nossos olhos, no espaço das nossas vivências. o oportunista é um tentador no sentido de ser um agente da tentação.

Falando de um tipo específico de oportunistas, Lenin em O oportunismo e a falência da II Internacional (1916), afirma que o oportunismo é primeiro um estado de espírito, depois uma tendência e numa fase final, um grupo ou camada da burocracia operária a que se juntam companheiros pequeno-burgueses: “O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele amadureceu para uma aliança aberta, frequentemente vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é precisamente essa aliança que lhe dá uma grande força e o monopólio da imprensa legal e da mistificação das massas” escreveu em certo trecho.

Egoísta, o oportunista não dá espaço para você.  Ele sempre vai dar um jeitinho para te chamar de trouxa. Onde encontrar um oportunista? Procure quem pratica caixa dois, quem realiza subornos de fiscais, quem comete sonegação fiscal, quem fura filas, quem compra ou vende de produtos sem nota fiscal, quem comete fraudes contábeis, quem te induz  a erro, quem pratica a formação de cartéis, quem comete plágio, quem realiza superfaturamentos, quem explora o trabalho infantil, quem contrata funcionários sem carteira assinada, quem se apropria do trabalho alheio, quem comete assédio moral e assédio sexual, quem manipula seus amigos ou funcionários, ou quem pratica danos ao meio ambiente, quem está sempre dando um jeitinho, entre outros tantos exemplos.

Os oportunistas estão sempre à espreita para golpes e contragolpes, portanto, não fique parado olhando estrelas…

Homens na Roda da Fortuna

Por Gilberto da Silva
roda (1)
Pense no filho do homem X que se safou da prisão por ter atropelado um bicicletista. Pense naqueles que conseguiram tudo e perderam. E pense naqueles que nunca conseguirão. Ilusões?? Olhe para aquele menino que acabou de te assaltar. Olhe para aquele outro indo para a escola. O que você tem feito para tudo isso acabar?Tens ficado muito tempo a postar suas críticas e não se autocriticar. Você consegue enxergar os seus erros?Quantos homens X erguerão fortunas sem se importar com os Ys? A Roda da Fortuna é cruel. O mundo da roda da fortuna é amoral.  A Justiça nesse reino não se faz. Tortuoso é o caminho da eternidade. Você tentará???Pense no político que criticou o Monstro e nele habitou. Pense na Vénus que deixou seu rosto diabólico ao tentar ser a Imperatriz. Você já pagou seu dízimo hoje? Honrou suas cotas? Tentou agradar o rei?Pense no Destino e suas deusas: a fiadeira, a medidora e a cortadora. Cada uma fazendo o seu serviço em tempo. Na Roda não há circulo vazio. Então, os homens podem nela circular. Pense em evoluir e regenerar.

A roda é a própria tortura. A roda é a mudança, mas saiba, o destino não vem ao nosso encontro, nós é que vamos ao encontro dele.

 

 

Men Of Good Fortune

Lou Reed

Men Of Good Fortune

Men of good fortune, often cause empires to fall
While men of poor beginnings, often can’t do anything at all
The rich son waits for his father to die
The poor just drink and cry
And me I just don’t care at all

Men of good fortune, very often can’t do a thing
While men of poor beginnings, often can do anything
At heart they try to act like a man
Handle things the best way they can
They have no rich daddy to fall back on

Men of good fortune, often cause empires to fall
While men of poor beginnings, often can’t do anything at all
It takes money to make money they say
Look at the Fords, but didn’t they start that way
Anyway, it makes no difference to me

Men of good fortune, often wish that they could die
While men of poor beginnings want what they have
And to get it they’ll die
All those great things that live has to give
They wanna have money and live
But me, I just don’t care at all

Men of good fortune
Men of poor beginning