Mês: novembro 2014

Momo e o Senhor do Tempo

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Por Gilberto da Silva

O que fazer com o meu tempo livre? Estamos sempre amarrados na desculpa do circulo temporal onde ninguém quer compreender o vazio do outro, o tempo do outro, não fazer nada sempre fazendo alguma coisa. Então, nessa arte de saber o que fazer com o tempo e aproveitando o feriado, depois de muito tempo, literalmente, muito tempo, li Manu – A Menina que sabia ouvir, de Michael Ende (Editora Salamandra, 6ª edição, 1984); existe uma edição pela Martins Fontes que não sei o ano como o nome Momo e o senhor do tempo, o título original é Momo (1973, Alemanha Ocidental). Michael Ende nasceu em 1929, em Garmisch-Partenkirchen, Alemanha. Estudou na Waldorf-School e desertou quando foi chamado para cumprir serviço militar em 1945, tinha então 16 anos. Terminado a guerra, Ende tornou-se ator, crítico e finalmente escritor. Apesar do prestígio alcançado na Literatura e dos muitos prêmios que o distinguiram, o autor sempre se revelou modesto, quase tímido, preferindo o seu mundo de fantasia, mas sem perder de vista a realidade e as suas histórias. A História Sem Fim é o mais conhecido livro de Michael Ende, mas Momo, publicado seis anos antes, é o romance de fantasia para todas as idades que lhe garantiu grande aclamação do público.

Em setembro deste ano (2013) Momo completou seu 40 º aniversário: a primeira edição foi publicada há em 1 Setembro de 1973. Mas sua magia não diminuiu e nem envelheceu.

O filme Momo e o Senhor do Tempo de 1986 e dirigido por Johannes Schaarf, baseado na obra de Ende, eu já tinha assistido em VHS, presente da Jaqueline Novaes em tempos idos. Faltava ler o livro, exemplar que encontrei em um sebo em 2010. Mas não encontrei tempo para ler….

Em dedicação à Jaqueline e ao Omar Freddi, que sempre citaram a obra em nossas conversas, passei a leitura sobre a vida de uma garota que vive nas ruínas de um anfiteatro, nas proximidades de uma cidade italiana. Momo (Manu na tradução brasileira) é uma pequena garota de origem desconhecida, querida entre seus vizinhos, por sua extraordinária habilidade em ouvir seus problemas e criar brincadeiras divertidas. Esta rotina bucólica e inocente é desfeita, pela chegada dos Homens Cinzentos, que vem roubar o tempo das pessoas, e que passaram a convencer as pessoas a economizar tempo e com isso a vida foi se tornando fria e vazia e contra os quais, Manu irá lutar com a missão de trazer de volta o tempo perdido.

MANU_A_MENINA_QUE_SABIA_OUVIR_1258209575PO que Manu tem de melhor é o dom de saber ouvir, coisa que nem todos podem realizar, Manu não dava bons conselhos, ela ouvia sempre encontrasse as palavras certas para dizer. Não é que ela divertisse o pessoal, cantando, dançando, ou tocando algum instrumento. Não é que ela tivesse poderes mágicos, ou lesse a mão, ou enxergasse o futuro. Ela não dizia, nem perguntava nada que pudesse pôr tais ideias na cabeça das pessoas: ela ficava simplesmente ali sentada, ouvindo com atenção e simpatia. “Ela ouvia de um jeito que fazia as pessoas preocupadas, ou hesitantes, de repente saberem exatamente aquilo que queriam; os tímidos, de repente sentiam-se à vontade e confiantes, os desgraçados e oprimidos de repente sentiam-se felizes e cheios de esperança” (p.11) Dessa forma, ao fitar a pessoa com seus grandes olhos negros, dava-lhe a impressão de que as ideias que surgiam haviam nascido espontaneamente.

A obra é um clássico para todas as idades. É infantil, para crianças, mas bate de frente com a criança que existe em nós adormecida, envelhecida pelo tempo… afinal, “as crianças são nossas inimigas naturais…. Se não fossem elas, há muito tempo que toda a humanidade estaria em nosso poder” declarou o juiz dos homens cinzas.

O dom de ouvir que Momo/Manu possui é diferente do simples ouvir nosso de cada dia é uma capacidade única de ouvir e que devemos tentar fazê-lo. Não é tão simples assim…

 

A Comunicação, por ela mesma

Fragmento da capa de O Rosto e a Máquina

Por Gilberto da Silva

A PAULUS lança O rosto e a máquina: O fenômeno da comunicação visto pelos ângulos humano, medial e tecnológico, de Ciro Marcondes Filho que busca formatar uma Teoria da Comunicação livre dos “vícios” da Sociologia, da Filosofia, da Antropologia ou da Ciência Política. Assim como vários estudiosos da área, Ciro que  professor da USP, deseja uma Nova Teoria da Comunicação feita e discutida no ‘campo’ próprio da Ciência – um saber específico, uma área de conhecimento específica – e não nas chamadas Ciências Aplicadas.

Segundo Ciro, “nas antigas formas, ao se estudar a comunicação, fazia-se sociologia, ciência política, estudos antropológicos, todos eles muito importantes e necessários, mas não comunicação propriamente dita”. Este rótulo  é usado nas escolas internacionais como a de Chicago, Birmingham, de Frankfurt, de Toronto, de Moscou. Para o autor este rótulo reproduz chavões e abordagens equivocadas. “Nossa proposta é revolucionária neste sentido: ela trabalha na constituição de um campo de saber específico, de uma área do conhecimento própria”, completa.

Ciro Marcondes Filho é pesquisador de conceito 1A do CNPq, criador do Princípio da Razão Durante, a base da Nova Teoria da Comunicação, que propõe um saber específico e original para a área de Comunicação, assim como um procedimento de pesquisa próprio, o metáporo.

Nesta obra o ponto de partida é a afirmativa que a velha disciplina Teoria da Comunicação trabalha com rótulo antigo, obsoleta e não em sintonia com a nova Era Digital. O livro O rosto e a máquina: O fenômeno da comunicação visto pelos ângulos humano, medial e tecnológico é o volume I da Nova Teoria da Comunicação e nele o autor introduz conceitos, simples, para leigos definindo o que é a comunicação humana, a comunicação de massa e internet realiza um retorna às teorias clássicas da comunicação e seus pensadores.

Diante do trajeto histórico o autor nos apresenta Barthes (aquele que ocupou-se com os signos, os sistemas de oposições e as funções simbólicas), Derrida (o homem da descontrução e do desmonte das estruturas tradicionais) , Foucault (o arqueólogo do pensar de forma diferente), o pós-estruturalista Deleuze, Adorno, Benjamin, Habermas (e todos os componentes da chamada Escola de Frankfurt e críticos da Indústria Cultural), Maturana (autopoiese – sistema autônomo fechado, autorreferente e que se constrói a si mesmo), Luhmann (de quem Ciro traduziu A Realidade dos Meios de Comunicação pela PAULUS), Husserl e Kamper entre outros.

Independente de cerrar fileiras na crença e que a comunicação é uma teoria própria ou se ela é “luhmanniamente” improvável a comunicação, algo indispensável, ou seja, sem ela qualquer ser humano não poderia, nem conseguia relacionar-se e até mesmo viver, a leitura da obra em questão torna-se um valioso portal para quem estuda ou se interessa pelos estudos de comunicação.

O Livro:

Título: O rosto e a máquina – O fenômeno da comunicação visto pelos ângulos humano, medial e tecnológico – Nova Teoria da Comunicação – Vol. 1
Autor: Ciro Marcondes Filho
Coleção: Comunicação
Acabamento: Costurado
Formato: 13,5 cm x 21 cm
Páginas: 184
Área de Interesse: Comunicação.

 

Publicado originalmente em Revista Partes. http://www.partes.com.br/2013/08/07/a-comunicacao-por-ela-mesma/

 

A Flor da Obsessão

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Por Gilberto da Silva

Quem a vê chegando ao trabalho – toda tímida – olhar cabisbaixo e sorriso escasso não pode imaginar o que a garota carrega em sua mente.

Quem há vê pelos corredores a andar séria, elegante, só pode pensar numa mulher pudica, quase santa, não sagrada. Mas profana, mundana, que contarei aqui, com sua permissão, um pouco da sua história.

Minhas amigas oriundas do feminismo que me perdoem. Minhas colegas corolas oriundas de um purismo estéril relevem… O objetivo aqui é não deixar para trás uma pequena história.

Ela tinha uma estranha obsessão: olhar para as partes baixas dos homens nos coletivos. Sentada, a moça focava na faixa preferencial do olhar: fixo, medidor, seletivo – “pequeno… médio… grande”!!!

Assim, não pense numa Dama do Lotação, produto característico do saudoso Nelson Rodrigues. Uma dubiedade? Mas nem puta, nem santa; nossa moça é apenas mulher com seus desejos e seus pecados.

Meus colegas machos desculpem, mas o que eu vou relatar nessas curtas linhas é fruto da observação antropológica que realizei com uma colega. Mas uma antropologia de gabinete, nada de pesquisa de campo, ou coisa parecida.  Nada de sacanagem espúrias, condenáveis do tipo que presenciamos diariamente no nosso transporte coletivo.

Tímida, raras vezes arriscava um olhar acima da linha do equador. Rápida no pensamento imediatamente ia definindo sua presa: “bom nos baixos, bonito nos altos” e assim realizava a sua classificação seletiva. Ela adorava sentar no banco próximo à lateral. Aqui a aproximação era quase inevitável.

Seus horizontes e suas visões.  Em determinados momentos sentia um misto de prazer e ódio. Queria mais, sentia-se atraída pelo inusitado. Nada se sustentava ou contentava a sua curiosidade pela observação do sexo oposto. Carnal, sonhava.

Imaginativa, criava cenas e cenários de alcova. Sentindo-se pecadora, rezava. Clamava perdão por pensamentos tão fora de seus padrões religiosos.

A Flor permanece em sua mobilidade, sei que ainda perambula por vias e coletivos em busca de seu monte sagrado….

 

Publicado originalmente em Revista Partes: http://www.partes.com.br/2014/09/23/a-flor-da-obsessao/

Carta Aberta da CPT – Comissão Pastoral da Terra – à presidenta Dilma Rousseff

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Para a

Sra. Presidenta da República Dilma Rousseff

 

Excelentíssima Senhora,

            A Comissão Pastoral da Terra, CPT, reunida em Conselho Nacional, em Luziânia-GO, entre 27 e 29 de outubro de 2014, dirige-se respeitosamente a V. Excia. para, em primeiro lugar, parabenizá-la pela reeleição e desejar-lhe um novo mandato profícuo e benéfico para toda a nação brasileira, de modo especial para os menos favorecidos, já que foram estes a maioria dos que a reelegeram. Por isso merecem uma atenção toda especial de sua parte.

            Atendendo à sua abertura e solicitação para o diálogo, expresso em seu primeiro pronunciamento após a vitória nas eleições, queremos apresentar-lhe situações e questões nacionais que passaram ao largo de toda a campanha eleitoral e que, agora, forçosamente, se tornam em alertas e reivindicações. São situações, questões e reivindicações dos povos dos campos, das águas e das florestas com quem a CPT atua e apoia. 

            A Senhora ao assumir a presidência jurou, e novamente vai jurar, defender e aplicar a Constituição Federal. Esta, em seu artigo 184, diz que “compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social”. Constatamos que, sobretudo em seu mandato atual, no que exige este artigo, a Constituição foi tratada como letra morta, pois foi efetuado o menor número de desapropriações dos últimos 20 anos. Também não foi feita a retomada das áreas devolutas e da União que estão nas mãos de grileiros. Atribuímos isso à total falta de interesse político de seu governo em relação a este tema. São claramente privilegiados os interesses de grupos ruralistas que estão entre os principais que sempre comandaram e desmandaram sobre este país. 

Estes grupos alinhados ao modelo desenvolvimentista predador estão entre os responsáveis pela devastação ambiental dos nossos biomas, com o desmatamento e a utilização intensiva de agrotóxicos que suprimem a proteção vegetal e contaminam solos, águas, ar e trabalhadores e trabalhadoras. Provocam ainda o secamento e morte de nascentes e rios, e o rebaixamento de lençóis freáticos e aquíferos. A destruição dos Cerrados compromete a segurança hídrica atual e futura, o que já se evidencia na crise de abastecimento de várias regiões do país, que não se pode atribuir simplesmente à falta de chuvas. Ao se expandir para a Amazônia, este modelo chega à última fronteira, agrava a crise ecológica e nos põe a temer ainda mais pelo futuro…

Seu governo e os do Presidente Lula, tidos como “populares”, nos quais – acreditava-se – fariam a diferença, em relação aos anteriores, para os povos do campo, acabaram se submetendo às exigências econômicas e políticas do agronegócio e deixaram milhares e milhares de famílias em situações mais que precárias, desumanas, em acampamentos à beira de estradas. Senhora Presidenta, a retomada da Reforma Agrária, ressignificada, efetiva e melhorada, é uma medida mais que urgente que seu novo governo deve tomar, pois ela irá melhorar os índices da produção familiar, que já é responsável por 70% dos alimentos consumidos no País. Uma política de maior apoio aos camponeses e camponesas das várias categorias existentes no País, potencializará uma produção alimentar qualitativamente diferente, saudável e harmônica com os bens da terra. Os programas de seu governo – Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) – provam a eficácia da agricultura familiar, responsável principal pela saída do Brasil do mapa mundial da fome, segundo a ONU em recente relatório. 

Outro dispositivo constitucional, que deve ser aplicado com firmeza e determinação e com a maior urgência, é o Art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que diz que “a União concluirá a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulgação da Constituição”. Passaram-se 26 anos e a maior parte das terras indígenas ainda não foi demarcada. E o mais lamentável é que seu governo tenha determinado a suspensão da identificação das Terras Indígenas, propondo “mesas de conciliação”, que são uma forma de reduzir ou mesmo eliminar o direito à terra dos povos e comunidades, pois, como bem se sabe, “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”… Dezessete decretos de homologação de Terras Indígenas estão sobre sua mesa só aguardando sua assinatura, Presidenta!  Outros tantos estão sobre a mesa do Ministro da Justiça para encaminhamento. Isso demonstra a falta de sensibilidade em relação a esta causa, que é de todos nós. A isso se soma a tentativa de retirar da FUNAI a competência para a identificação e demarcação dos territórios indígenas, repassando-a a órgãos que pouco ou nada sabem da realidade e história indígenas. Com isso crescem os conflitos, carregados de violência, com aumento do número de assassinatos e que colocam os primeiros habitantes deste País numa situação de inferioridade, a perpetuar o massacre da época colonial.

O mesmo acontece em relação aos quilombolas. O artigo 68 das ADCT dispõe que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. No seu primeiro mandato, esta determinação também não foi praticamente efetivada, fazendo crescer o número de conflitos envolvendo estas comunidades.

Os interesses do agronegócio – com suas monoculturas de soja, cana de açúcar, gado, eucalipto e outros –, o das mineradoras e a aposta em grandes projetos como o de construção de barragens e outras obras de energia, se sobrepõem aos direitos dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das comunidades de fundo e fecho de pasto, dos pescadores artesanais, dos faxinalenses, dos extrativistas e de outras comunidades tradicionais, e até de assentados e assentadas da reforma agrária, que são expulsos da terra com o consequente desenraizamento das famílias.

Senhora Presidenta, os conflitos e a violência, inclusive com assassinatos de camponeses e camponesas, 130 no seu governo, conforme os dados registrados pela CPT, acobertados pela impunidade, só tenderão a crescer se se mantiverem a inoperância e a corrupção em muitos órgãos governamentais, ao par do que fazem ou deixam de fazer o Legislativo e o Judiciário. O INCRA, a Fundação Cultural Palmares, além da FUNAI, devem ser fortalecidos, aprimorando os seus quadros e sua atuação. 

Outra situação que merece especial atenção da sua parte é a dos trabalhadores e trabalhadoras submetidos à condição análoga à de escravos. Neste sentido lembramos que a Senhora assinou a Carta-Compromisso, proposta pela Comissão Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), de garantir a continuidade e a intensificação do combate ao trabalho escravo, especificamente de que não haja nenhum retrocesso na legislação vigente.

A CPT também se preocupa com a educação no e do campo. Milhares de escolas rurais têm sido fechadas, nos últimos anos, obrigando estudantes a longas viagens para longe de seu meio. Com isso a eles e elas se oferece uma educação descontextualizada que favorece o êxodo rural e o esvaziamento do campo. Muitas outras escolas que se mantêm abertas estão em condições mais que precárias. Senhora Presidenta, é urgente uma política educacional voltada para a permanência das famílias no campo, com o fortalecimento das Escolas Família Agrícola (EFAs), das Casas Familiares Rurais, das escolas indígenas, das escolas quilombolas e outras do gênero.

            Senhora Presidenta, podemos esperar de sua parte uma atuação ativa para garantir aos povos dos campos, das águas e das florestas seus direitos constitucionais, sobretudo de acesso às terras e aos territórios que historicamente lhes pertencem e dos quais foram esbulhados? Ou vamos continuar assistindo a uma atuação de cunho colonialista, que vê nestes povos e comunidades simplesmente “entraves ao desenvolvimento”, ao “crescimento”?

            Esperamos de V. Excia. um governo renovado, mais comprometido com as causas populares, que estavam na origem de seu partido. De nossa parte conte com este nosso apoio: continuar ao lado dos camponeses e camponesas do Brasil, em suas lutas e esperanças.

 

Luziânia, 29 de outubro de 2014.

Dom Enemésio Lazzaris

Presidente