Dia: 28 de agosto de 2015

Diaféria, cronista da cidade

Lourencodiaferia

Por Gilberto da Silva

Eu sempre corria para ler o que Lourenço Diaféria escrevia na Folha de São Paulo, sobretudo no caderno “Ilustrada”, entre 1973 e 1977. Seus textos continham tintas simples, leve, criativos e sensíveis. Cheguei a recortar e colecionar várias das suas crônicas, mas infelizmente não as tenho mais. Foi preso pela Ditadura Militar por um texto maravilhoso da época, no texto ele descrevia a saga de um sargento para salvar um garoto e fazia referências à estátua de Duque de Caxias que fica numa praça no centro paulistano. O processo durou cerca de três anos e terminou com a absolvição do cronista pelo Supremo Tribunal Federal. Posteriormente voltou a atuar na “Folha de S. Paulo”.  No ano de sua prisão, 1977,  o conto “Como se fosse um boi” é premiado com o quarto lugar no VII Concurso Nacional de Contos do Paraná e incluído no livro Novos Contistas, editado pela Francisco Alves Editora. Lembro também que a FSP publicou sua coluna em branco logo após a sua prisão.

Lourenço Diaféria foi um dos maiores cronistas da cidade de São Paulo e nasceu no bairro paulistano do Brás em 28 de agosto de 1933. Fez jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, por dois anos, e na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, por apenas um semestre. Contista, cronista e autor de histórias infantis, o jornalista iniciou sua carreira em 1956 na “Folha da Manhã”, hoje “Folha de S. Paulo”, como preparador de matérias. Em 1964 escreveu sua primeira crônica assinada.   Colaborou também no “Jornal da Tarde”, “Diário Popular”, “Diário do Grande ABC”, e escreveu para as rádios “Excelsior”, “Gazeta”, “Record”, “Bandeirantes” e para a “Rede Globo”. A partir de 1980, dedica-se à literatura infantil e juvenil, estreando com O Empinador de Estrelas.

Lourenço Diaféria morreu no dia 17 de setembro de 2008, aos 75 anos.

 

Herói. Morto. Nós.


Lourenço Diaféria

Crônica publicada em 1/9/1977, na Folha de S.Paulo

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

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15 lugares para visitar que revelam a história de São Paulo

Confira uma linha do tempo formada por construções e lugares emblemáticos da metrópole

O obelisco Mausoléu dos Heróis de 32 –. Foto: José Cordeiro/SPTuris.

“Viaduto do Chá e Praça da Sé são só alguns dos lugares representativos e históricos de São Paulo”, afirma a estudante Nathalia Gorga, que visitou o centro de São Paulo por dois dias e ficou encantada com o que encontrou por lá. “A Catedral da Sé e o Theatro Municipal também contam muita história”, completa.

A capital paulista, fundada em 1554, ainda conserva espaços e construções emblemáticas que contam a sua trajetória até alcançar o posto de maior metrópole do Hemisfério Sul. Isabela Rossi trabalhou seis meses no centro da cidade e afirma que foi o suficiente para respirar a história de São Paulo. “Sempre que chegava à (rua) Libero Badaró, eu era remetida a várias épocas diferentes”, diz.

Confira uma linha do tempo com lugares que contam um pouco dos 461 anos da cidade:

1. 1554 – A data não podia ser melhor representada do que pelo Pateo do Collegio, local emblemático, localizado no centro da São Paulo, onde teve a cerimônia oficial de fundação.

2. 1598 – Quer regressar para este ano, visite o Mosteiro de São Bento. Ele faz referência aos beneditinos que chegaram à cidade neste ano. Em 1634, foi criada a Abadia e a capela foi dedicada a São Bento. Foi nele que o Papa Bento XVI ficou hospedado durante sua visita ao país.

3. 1825 – Passear pela Rua 25 de Março não é só prazeroso por encontrar muita variedade de produtos, que vai de roupas a enfeites, a preços populares! A rua remete ao ano 1825, data de seu surgimento, quando imigrantes árabes abriram as primeiras lojas no local. Além disso, o nome faz alusão à data da criação da primeira constituição brasileira outorgada pelo imperador D. Pedro I.

4. 1827 – Com um Brasil já independente (1822), a cidade de São Paulo ganha uma importante instituição, a Academia de Direito, localizado no Largo São Francisco. Foi responsável por formar figuras públicas importantes, que protagonizaram movimentos que marcaram a história do país, como as Diretas já.

5. 1834 – Quem visita o Solar da Marquesa, no centro da capital paulista, faz uma viagem a 1834, data em que a marquesa de Santos, amante do imperador Dom Pedro I, comprou o sobrado.

6. 1890 – A data marca a fundação da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Hoje é considerado o maior centro de negociação com ações da América Latina.

Região do Anhangabaú, no Centro da cidade. Foto: José Cordeiro/SPTuris.

7. 1891 – É neste ano que é inaugurada a avenida mais famosa da cidade, Avenida Paulista, local onde os barões do café – ouro negro que movimentou a economia brasileira no século XIX – construíram suas mansões. Algumas dessas construções foram consideradas Patrimônios Históricos, como a residência de Joaquim Franco de Mello construída em 1905 (fica no número 1919 da Avenida) e a Casa das Rosas, que era a casa de Ernesto Dias de Castro, com a primeira construção datada em 1935. (fica no número 37).

8. 1901- A data também é marcada pela fundação da Estação da Luz, inspirada na Abadia de Westminster, de Londres. Por ela, passaram figuras ilustres e os imigrantes que chegaram à cidade no século XX. Bem próximo a ela, está o Museu da Língua Portuguesa.

9. 1910 – A data é um marco entre a velha e a nova cidade de São Paulo, delimitada pelo Vale do Anhangabaú. Até a data de independência do país (1822), a área era uma chácara de propriedade do Barão de Itapetininga, onde os moradores vendiam chá e agrião. Para chegar ao outro lado do morro era preciso atravessar a Ponte de Lorena, que em 1855 se transformou na Rua Formosa. A urbanização veio com o projeto de construção do Viaduto do Chá, em 1877.

10. 1929 – Uma visita ao Edifício Martinelli, idealizado pelo italiano Giuseppe Martinelli, faz uma alusão a data, que marca a fundação do primeiro arranha céus da América Latina. A construção fica no centro de São Paulo, entre as ruas São Bento, a famosa Avenida São João e a Rua Libero Badaró.

11. 1932 – Uma passada pelo jardim que aponta para a Avenida 23 de Maio, onde está localizado o Obelisco do Ibirapuera (Obelisco Mausoléu) é voltar para o ano de 1932 e recordar a Revolução Constitucionalista. O monumento foi inaugurado em 1955 e guarda os corpos de alguns dos combatentes. O nome da Avenida também faz referência à data que marca a morte dos quatro estudantes (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo).

12. 1933 – A data traz a imagem de um delicioso sanduíche de mortadela. Foi neste ano que foi inaugurado o Mercado Municipal de São Paulo, o conhecido Mercadão, que funciona na Rua 25 de Março.

13. 1938 – A data remete ao surgimento da Estação Júlio Prestes, importante via para o transporte dos produtos da indústria cafeeira. O nome faz alusão ao ex-presidente do Brasil, Júlio Prestes.Hoje, ela abriga a sede da Secretaria de Cultura de São Paulo e a Sala São Paulo.

14. 1954 – É o ano que comemora os 400 anos da cidade de São Paulo. Por esse motivo, a capital inaugurou o Parque Ibirapuera, o mais conhecido e frequentado parque da cidade. Junto a ele, foi inaugurado o Monumento às Bandeiras.

15. 1954 – O 4º centenário da capital também é comemorado com a inauguração da Catedral e da Praça da Sé. Em frente à Catedral, está o Marco Zero, monumento de mármore em forma de hexágono com um mapa das estradas que partem de São Paulo a outros estados.

Frente do Solar da Marquesa de Santos. Foto: José Cordeiro/SPTuris.

Fonte: SPTURIS