Dia: 3 de maio de 2018

Maio, 68: um fenômeno 50 anos depois

O mês de maio de 1968 representou o auge de um momento histórico de intensas transformações políticas, culturais e comportamentais que marcaram a segunda metade do século 20. Uma onda de protestos estudantis e operários contra o conservadorismo da época culminou na maior greve geral da Europa.

A França é o país onde, mais do que em qualquer outro lugar, as lutas de classe
foram sempre levadas à decisão final, e onde, por conseguinte, as formas políticas
mutáveis nas quais se processam estas lutas e nas quais se condensam seus
resultados tomam os contornos mais nítidos (ENGELS, F. Prefácio para a terceira edição alemã de O 18 brumário de Luís Bonaparte. In: MARX, K. Manuscritos econômico- filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo:Abril Cultural, 1974. p.327-328. (Os pensadores). 1974, p.333).

 

Cafés, bistrôs, oficinas, aulas, fábricas, lares, esquinas dos bulevares: Paris se
transformou em um grande seminário público. Os franceses descobriram que há
anos não dirigiam a palavra uns aos outros, e que tinham muito a se dizer. Sem
televisão e sem gasolina, sem rádio e sem revistas ilustradas, deram-se conta
de que as “diversões” os tinham, realmente, distraídos de todo contato humano
real. Durante um mês, ninguém tomou conhecimento das gestações da princesa
Grace ou dos amores de Johny Halliday, ninguém se sentiu impelido pelos apelos
publicitários para trocar de carro, relógio ou de marca de cigarros. Em lugar das
“diversões” da sociedade de consumo, renasceu de maneira maravilhosa a arte de
as pessoas se reunirem para escutar e falar e reivindicar a liberdade de interrogar
e duvidar.
Os contatos se multiplicaram, iniciaram-se, restabeleceram-se. Houve uma
revolta – tão importante quanto às barricadas estudantis ou a greve dos
operários – contra a calma, o silêncio, a satisfação, a tristeza (FUENTES, C. Em 68: Paris,
Praga e México. Rio de Janeiro: Rocco, 2008., p.21-22).

No dia 3 de maio, os estudantes de Nanterre, cujo campus foi fechado, investem na Universidade de Sorbonne. Na foto, Daniel Cohn-Bendit (um dos líderes) num momento de relaxamento no pátio.

1968 foi um apogeu de uma trajetória de contestação aos valores, tabus e
preconceitos existentes. A herança de lutas utópicas desse tempo está presente nos
costumes mais liberais dos nossos dias, nas relações sociais mais generosas, na
visão solidária do mundo, no humanismo que sobrevive em meio à aspereza do
mercado e na aspiração à liberdade, uma conquista cada vez mais acalentada.
A história segue seu curso. Não haverá, possivelmente, outro ano tão rico em
combatividade e idealismos quanto 1968. Serve de alento, no entanto, imaginar que
sempre se poderá buscar na memória desse tempo a semente do não- conformismo
e do sonho de um mundo melhor (ZAPPA, R.; SOTO, E. Eles só queriam mudar o mundo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008., p.290).

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Um grande geógrafo brasileiro

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Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, na Bahia, em 3 de maio de 1926. Foi alfabetizado pelos pais, professores primários e aos 13 anos aprendeu a falar francês. Aos 13 anos, Milton dava aulas de matemática no ginásio em que estudava, aos 15 começou a lecionar Geografia e, aos 18, prestou vestibular para Direito em Salvador. Formado em Direito, não deixou de se interessar pela Geografia. Concluiu seu doutorado em 1958 na Universidade de Strasburgo, na França e ao regressar ao Brasil, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, mantendo intercâmbio com os mestres franceses. Após seu doutorado, teve presença marcante na vida acadêmica, em atividades jornalísticas e políticas de Salvador e em 1960, foi nomeado subchefe do Gabinete Civil do presidente Jânio Quadros.

Milton Santos foi consultor da ONU, da OIT, da OEA e da Unesco. Por causa de sua posição política, foi perseguido e preso durante a ditadura militar, passando dois meses num quartel de Salvador. Libertado, partiu para a o exílio, permanecendo 13 anos fora do Brasil, lecionando nas principais universidades francesas, no Canadá, nos Estados Unidos e América Latina. Sua obra “O espaço dividido”, publicada em 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde apresenta uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos. Suas idéias de globalização, desenvolvidas antes que este conceito se popularizasse, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento – conceitos depois desenvolvidos por outros autores. Em Por uma Outra Globalização, livro escrito por Milton Santos dois anos antes de morrer, apresenta uma abordagem crítica sobre o processo perverso de globalização atual na lógica do capital, apresentado como um pensamento único. Segundo ele, esse processo, da forma como está configurado, transforma o consumo em ideologia de vida, fazendo de cidadãos meros consumidores, massificando e padronizando a cultura e concentrando a riqueza nas mãos de poucos. Milton Santos recebeu o Prêmio Vautrin Lud, em 1994, considerado o Nobel da Geografia, foi membro da Comissão de Justiça e Paz do estado de São Paulo, onde faleceu em 24 de junho de 2001