Maio, 68: um fenômeno 50 anos depois

O mês de maio de 1968 representou o auge de um momento histórico de intensas transformações políticas, culturais e comportamentais que marcaram a segunda metade do século 20. Uma onda de protestos estudantis e operários contra o conservadorismo da época culminou na maior greve geral da Europa.

A França é o país onde, mais do que em qualquer outro lugar, as lutas de classe
foram sempre levadas à decisão final, e onde, por conseguinte, as formas políticas
mutáveis nas quais se processam estas lutas e nas quais se condensam seus
resultados tomam os contornos mais nítidos (ENGELS, F. Prefácio para a terceira edição alemã de O 18 brumário de Luís Bonaparte. In: MARX, K. Manuscritos econômico- filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo:Abril Cultural, 1974. p.327-328. (Os pensadores). 1974, p.333).

 

Cafés, bistrôs, oficinas, aulas, fábricas, lares, esquinas dos bulevares: Paris se
transformou em um grande seminário público. Os franceses descobriram que há
anos não dirigiam a palavra uns aos outros, e que tinham muito a se dizer. Sem
televisão e sem gasolina, sem rádio e sem revistas ilustradas, deram-se conta
de que as “diversões” os tinham, realmente, distraídos de todo contato humano
real. Durante um mês, ninguém tomou conhecimento das gestações da princesa
Grace ou dos amores de Johny Halliday, ninguém se sentiu impelido pelos apelos
publicitários para trocar de carro, relógio ou de marca de cigarros. Em lugar das
“diversões” da sociedade de consumo, renasceu de maneira maravilhosa a arte de
as pessoas se reunirem para escutar e falar e reivindicar a liberdade de interrogar
e duvidar.
Os contatos se multiplicaram, iniciaram-se, restabeleceram-se. Houve uma
revolta – tão importante quanto às barricadas estudantis ou a greve dos
operários – contra a calma, o silêncio, a satisfação, a tristeza (FUENTES, C. Em 68: Paris,
Praga e México. Rio de Janeiro: Rocco, 2008., p.21-22).

No dia 3 de maio, os estudantes de Nanterre, cujo campus foi fechado, investem na Universidade de Sorbonne. Na foto, Daniel Cohn-Bendit (um dos líderes) num momento de relaxamento no pátio.

1968 foi um apogeu de uma trajetória de contestação aos valores, tabus e
preconceitos existentes. A herança de lutas utópicas desse tempo está presente nos
costumes mais liberais dos nossos dias, nas relações sociais mais generosas, na
visão solidária do mundo, no humanismo que sobrevive em meio à aspereza do
mercado e na aspiração à liberdade, uma conquista cada vez mais acalentada.
A história segue seu curso. Não haverá, possivelmente, outro ano tão rico em
combatividade e idealismos quanto 1968. Serve de alento, no entanto, imaginar que
sempre se poderá buscar na memória desse tempo a semente do não- conformismo
e do sonho de um mundo melhor (ZAPPA, R.; SOTO, E. Eles só queriam mudar o mundo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008., p.290).

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