Receita de Jornalista

Cláudio Abramo

O jornalista só é bom se formado desde cedo. A juventude é a fase mais bonita da vida da gente, é quando se começa a engolir as coisas, a aprender. Rimbaud, por exemplo, produziu seus melhores poemas aos dezesseis anos e já tinha tido uma vida intensíssima – depois foi ser contrabandista de armas na Etiópia, na guerra do Melenick. Mas hoje o jovem excepcionalmente inteligente não vai perder tempo em jornal: ele vai ganhar dinheiro, jogar na Bolsa, mexer em computador.

De minha parte, comecei a aprender o Brasil muito tarde, porque minha formação foi muito internacionalista, mas não cosmopolita. Quem marcou muito como escritor foi André Malraux, que exerceu uma enorme influência na maneira como eu escrevia antigamente. No lugar de ler vários tratados de psicologia, em Shakespeare aprende-se toda a psicologia humana.

Quando vem a sensação de que se está perdendo muito das ideias que se quer colocar no papel, então é preciso trabalhar mais o idioma e exercitar a leitura. O jornalista precisa ler muito, ler literatura, porque a literatura nos põe em contato com o universo comum dos homens. E também é preciso ler poesia. O grande escritor é universal, e através dele entramos em contato com os problemas do mundo e do ser humano. Toda referência do homem é o ser humano, toda cultura, tudo diz respeito ao ser humano, e não há outra referência mais importante do que essa. E a literatura é o caminho para isso.

Talvez um dos segredos do sucesso que tive em minha carreira seja o fato de que nunca tenha lido muito jornal brasileiro. Quando era menino lia o Estado de S. Paulo; mais mocinho lia o New York Times, porque trabalhava numa companhia multinacional que recebia esse jornal e o Times de Londres. Sempre li muito jornal estrangeiro a vida inteira.

Para ser jornalista é preciso ter uma formação cultural sólida, científica ou humanística. Mas as escolas são precárias. Como dar um curso sobre algo que nem eu consigo definir direito? Trabalhei quarenta anos em jornal e acho muito difícil definir o que meia dúzia de atrevidos em Brasília definem como curso de jornalismo. Foi o que fez o patife do Gama e Silva (ministro da Justiça do governo Costa e Silva), que elaborou a lei para tirar os comunistas dos jornais.

Em seu trabalho, o repórter sempre vai ver coisas diferentes na sua essência e no seu aspecto externo. Um repórter vai fazer matérias políticas, ou vai descrever uma enchente, um desastre; vai ver o drama de uma família, tratar de um problema coletivo ou entrevistar um ministro. Por isso ele precisa ter muita flexibilidade na maneira de se exprimir, e para isso deve também ter um domínio da língua. E também é importante que saiba escolher as palavras exatas para determinadas ocasiões. Uma crônica de Rubem Braga sobre o sabiá é leve; já seus textos como correspondente de guerra são muito mais densos. Cada situação tem seu próprio pathos e é preciso transmitir aquilo para o leitor.Por isso o jornalista tem que ler muito, sempre.

É preciso ler Dante, Camões, Homero e Heródoto, Faulkner, Mark Twain. Scott Fitzgerald, Proust. André Gide só um pouquinho porque é muito deletério. E George Orwell, não pelas coisas que diz, mas pela sua inteligência, pelo uso da língua e pela maneira independente de raciocínio, embora no fundo seja muito conservador. É preciso ler os libertários americanos, Walt Whitman e Emerson, e Paul Goodman.

Dos brasileiros não sei bem. É preciso ler Florestan Fernandes. De Guimarães Rosa tenho horror; gosto dos contos, mas como romancista é muito complicado. Aquilo é charada alemã. Talvez as pessoas devam ler Guimarães, mas eu não. Prefiro Érico Veríssimo, que é um escritor menor mas está mais ligado à realidade brasileira.

Aconselharia aos jovens jornalistas conversar com pessoas como Luiz Carlos Prestes, Oscar Niemeyer, Fábio Penteado, Paulo Mendes da Rocha, Darcy Ribeiro. Há um pouco tempo, Darcy me descreveu como imaginava que os franceses, todos huguenotes, chegaram ao Rio de Janeiro: sujos, pois nunca tomavam banho, todos cheios de feridas, olhos inflamados e a Bíblia na mão. As indiazinhas bonitas e limpas na praia – tomavam banho a toda hora – e do outro lado aquela gente fedida, suja, bárbara, atrasada. É preciso destruir o mito de que tudo o que a civilização traz é bom; ela também trouxe o lixo. (…)

É preciso se preocupar com os fatos históricos. Assim como os jovens, também não vivi o Império romano e nem ouvi o discurso de Marco Antônio; não vi as conquistas de Genghis Khan ou as manobras de Shaka. Não vi nada disso mas sei que existiram. O fato é que grande parte do nosso conhecimento é adquirido com as leituras. Mas saber distinguir uma figueira de um carvalho, ou saber que a rede elétrica em São Paulo é aérea e não subterrânea como em Londres ou Paris, são coisas que não se aprendem nos livros.

O jornalista deve ter uma formação cultural sólida e tem que saber muito bem algumas coisas. Ele deve saber história, saber como funciona seu país, a máquina do país, as relações na sociedade. A menos que uma escola de comunicações ofereça um curso de história completo, é preciso ter conhecimentos elementares, que teoricamente deveriam ser aprendidos no ginásio. O jornalista tem ainda que conhecer bem a língua, para saber manejá-la com a proficiência necessária. Como um curso de jornalismo vai dar tudo isso?

Os cursos dão muitas coisas que, no fundo, são apenas noções. Por isso, o jornalista ficou com a fama de ser um especialista em generalidades. A meu ver o curso de jornalismo deveria ser um curso de pós-graduação. O ideal seria ter nas redações economistas, sociólogos ou médicos que, além do curso específico, tivessem uma pós-graduação em jornalismo e aprendessem como contar as coisas e escrever com clareza. (…)

Publicado no livro A Regra do Jogo, da Cia das Letras

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