Por Gilberto da Silva

Getúlio Vargas dizia: “é muito eficiente fazer política de esquerda com gente de direita”. Muitos políticos aprenderam esta lição. Lula para chegar à Presidência fez uma aliança conservadora com o PL – Partido Liberal; o PT aprofundou – em nome da governabilidade – essa aliança com outros partidos, dispensando a histórica base do funcionalismo e expurgando parlamentares que ousaram votar em suas bandeiras históricas. O partido que representou o ‘novo’ que foi acusado de ser sectário, fechado, xiita e subversivo está sendo igualado no mesmo nível dos demais partidos políticos burgueses na medida em que realiza suas alianças eleitorais descaracterizando o seu passado de ‘partido dos trabalhadores’.
Uma discussão recente é sobre o lulismo e está relacionado à sua consagração popular no segundo mandato. Para muitos um retrocesso político, para outros um resgate do getulismo, para outros um simples resgate messiânico, pois classe social não é o mais importante para Lula.
Para André Singer o lulismo é um “árbitro acima das classes” definindo-o mais explicitamente como
a execução de um projeto político de redistribuição de renda focado no setor mais pobre da população, mas sem ameaça de ruptura da ordem, sem confrontação política, sem radicalização, sem os componentes clássicos das propostas de mudanças mais à esquerda. Foi o que o governo Lula fez. A manutenção de uma conduta de política macroeconômica mais conservadora, com juros elevados, austeridade fiscal e câmbio flutuante, foi o preço a pagar pela manutenção da ordem. Diante desse projeto, a camada de baixa renda, cerca de metade do eleitorado, começou a se realinhar em direção ao presidente. (Singer, 2010)

Singer admite que há um elemento de carisma no lulismo, mas que isto não é relevante e que esta importância é maior nas regiões menos urbanizadas do país, onde se tende a atribuir a capacidade de execução de um projeto a características especiais da liderança. A partir de 2006 inicia-se um deslocamento do eleitorado de baixa renda em direção a Lula, enquanto que as classes médias sob o efeito do mensalão acabam se afastando do PT. Para Singer em regiões urbanizadas existe uma adesão mais racional ao programa político e alinha diferenças entre o lulismo do populismo de Getúlio Vargas, este ao fazer a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criou direitos para o setor urbano da classe trabalhadora, em um país predominantemente rural. Deixando de fora um vasto setor da classe trabalhadora que foi incorporado agora (o subproletariado).
Muitos arriscam em relacionar o lulismo com o populismo. O termo ‘populista’ é impreciso e passou a ser usado para descrever um tipo de político, produzido numa situação em que a massa do eleitorado urbano é receptiva a um líder pitoresco, o qual recorre a um apelo direto e emocional, com base em questões econômicas de variada sofisticação ideológica. O político populista seria impensável antes de 1930, pois o “seu êxito pressupõe um voto relativamente livre. Trata-se de um líder personalista, cuja organização politica gira em torno de sua própria ambição e sua carreira” (Skidmore, 2010:101). O populismo é a marca específica da conciliação de interesses das classes dominantes e se esgota quando não há mais possibilidade de harmonização dos interesses tão diferenciados entre as classes. O conceito de populismo, na realidade, vem sofrendo fortes questionamentos e para tanto sugerimos como aprofundamento a leitura do livro O Populismo e sua História: Debate e Crítica, organizado por Jorge Ferreira e publicado pela Record.
Seria Lula uma autêntica criatura do sindicalismo corporativo varguista? Para Rudá Ricci o lulismo é a complementação da modernização conservadora[i] “lulismo é um sistema de gerenciamento do Estado e de políticas públicas. Portanto, não é uma ideologia, não é um movimento”. Segundo Ricci, o lulismo moderniza economicamente, mas é conservador do ponto de vista político e usou como mecanismo de suporte social e desenvolvimento os recursos do BNDES, o PAC e as obras públicas e, com isso, conquistou o grande empresariado nacional. Todos os grandes conglomerados têm financiamento com o BNDES. A base do lulismo está na faixa dos pobres favorecidos pelo aumento real do salário mínimo, pelo crédito consignado e pelo Bolsa-Família
E aí tem o suporte político. De um lado, a coalizão presidencialista, que é algo inédito no Brasil. O Getúlio Vargas até tentou montar algo, mas o Estado Novo acabou destruindo o que ele tentava forjar. Nós não tivemos na história republicana nenhuma situação parecida com a atual. O Brasil desmontou o sistema partidário, criou uma coalizão de tipo parlamentarista e jogou a política do Brasil entre governistas e não governistas, mas não é qualquer governismo, é lulista ou não lulista. (Ricci, 2011)

Segundo Ricci, Lula articulou todas as lideranças clientelistas do Brasil, assim como Getúlio fez isso “a impressão que se dava do Getúlio era que ele estava atacando toda a base clientelista, dos coronéis, mas muitos deles foram recriados através do getulismo”.
Voltando ao tema coronelismo, Vitor Nunes Leal afirma em Coronelismo, enxada e voto, que o coronelismo “seria uma forma de adaptação entre o poder privado e um regime político de extensa base representativa”. Podemos acrescentar que esta é uma forma de mandonismo, cujas raízes remontam à Primeira República, e que se caracteriza por uma valorização exagerada do poder privado e pelo controle do poder político social e econômico, por uma elite, apoiada no clientelismo e evolvendo o filhotismo, nepotismo e o compadrismo. A estrutura social do coronelismo se baseia no domínio da parentela e de um círculo de áulicos, que devem favores e lealdade ao chefe, que sobre eles exercem um poder quase absoluto. Nesse sentido Ricci classifica o lulismo como o coronelismo do século 21.

Para Martins “a grande inovação do PT no poder foi a estatização do clientelismo, inovação que não é pouco significativa”. Afirma enfático que o PT estatizou o clientelismo ao converter o Bolsa Família em instrumento eleitoral, transformando os antigos coronéis do sertão em funcionários públicos de dominação patrimonial (Martins, 2011:94-95).

Porém, acreditamos que, apesar de Lula mandar hoje no seu partido, é muito cedo para caracterizá-lo como um “coronel” moderno. Até por que, para muitos setores, a quebra do perfil do Lula pode significar a frustação de uma parcela significativa do povo, o que, já num exagero messiânico, pode prover a direita de uma força devastadora, capaz de provocar um novo apocalipse.
Lula de fato nunca colocou sua liderança pessoal acima das instituições para ser rotulado como um novo populismo. Lembramos que Oliveira (2010) escreve que Lula despolitiza a questão da pobreza e sendo assim, o lulismo é uma regressão, um atraso da vanguarda operária.

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