Texto de Paulo de Mattos Skromov

Fica, agora, comprovado, graças a boa iniciativa da Fundação Perseu Abramo que pesquisou e publicou em livro a propósito do cinquentenário do golpe de 1964, uma coletânea de documentos oficiais da polícia política, como éramos vistos e avaliados pelos agentes da ditadura militar.

Em 9 de junho de 1980, o delegado Raul Ferreira, responsável pela 1ª Delegacia de Divisão de Informações do DOPS-SP, em seu Relatório 20-6-44-11259, informava em detalhes ao Diretor Geral do órgão, as ideias e propostas políticas defendidas pelo Núcleo da Lapa, do Movimento pelo Partido dos Trabalhadores, sediado na rua Catão: por uma sociedade sem classes e baseada na fraternidade universal; pela participação política dos soldados, cabos e marinheiros, pela anistia política ampla e irrestrita e pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, soberana e democrática convocada após o desmantelamento total dos aparelhos de repressão; pela revogação da Lei de Segurança Nacional, da Lei de Imprensa e de toda a legislação repressiva. .. “Pela igualdade entre os seres humanos, independente de sexo, raça, cor, religião e classe social. O relatório identifica tais posições com as do Movimento pelo PT do Rio Grande do Sul. E alerta que “a prevalecer as posições desse núcleo o futuro PT corre o risco de tornar-se um partido marxista leninista.”

E sobre Paulo de Mattos Skromov, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Coureiros de São Paulo, o relatório alerta: …”que o sindicalista é um elemento que deverá ser investigado pois, tem fluência no que escreve, parece ser muito politizado e saber muito mais do que aparenta, é claro, objetivo e organizado. Sua linha de conduta parece ter sido traçada pelo Partido Comunista Brasileiro…”

É claro que nem Skromov e certamente nenhum dos demais militantes do Núcleo de Base da Lapa do MPT, seguia, então, condutas traçadas pelo PCB que se opunha ferrenhamente a criação do PT. O agente que espionava e relatou ao delegado sobre nossas atividades deve ter se impressionado pela presença nas reuniões do Núcleo, de militantes comunistas históricos como José Maria Crispim, Rafael Martinelli e outros e de ex-guerrilheiros como José Bizerra do Nascimento (ex VPR motorista do capitão Lamarca), dos ex-ALN Ismael Andrade dos Santos e Cid Barbosa Lima, além da presença – por duas vezes, do companheiro Apolônio de Carvalho, cuja filha morava no bairro e com frequência recebia sua visita e da visita ao Núcleo do fundador da IV Internacional, Mario Pedrosa.

Mas a dinâmica do Núcleo era dada pela nova geração de militantes operários, vários deles trotskistas, companheiros de Paulo Skromov, como os outros coureiros: Geraldo Santiago, Sonia Maria Barbosa e Marrom, os então gráficos Luiz Gonzaga da Silva – Gegê; Gilberto da Silva e Alencar; os metalúrgicos: Noel (da Sofunge), Mané Bode (Bardella) , Soarão (Duratex), vidreiros da Santa Marina: João Henrique, Waldir, Tonhão. O mecânico de Manutenção Martisalem Covas Pontes, o ceramista Antônio Messias da Silva (que um pouco antes, com Otaciano Anselmo, Ramatis Jacino, Albertino, Joao Shirlei e outros, fundara o Núcleo de Cangaíba/Engº Goulart). Ou a nova vanguarda dos professores estaduais: Roberto Facchini, Rosa Maria Marques, Rita Cáceres, Eiko Shirawa (primeira presidenta combativa da Apeoesp ), Cleuzinha e José Santana de Diadema e muitos outros.

Antes mesmo do 11 de dezembro de 1978, quando Lula propôs a outros onze presidentes de sindicatos operários a formação de ‘um partido só de trabalhadores, sem patrões”, esses jovens trabalhadores já constituíam o Movimento por um Partido Operário e faziam plenárias com algumas centenas de outros companheiros no velho Salão da Sociedade Operária “União Fraterna”, localizado no número zero da rua Guaicurus.

Os núcleos do MPT da rua Catão e do Cangaíba foram os primeiros a se constituir, logo após o memorável primeiro de maio de 1979, comemorado no Estádio Municipal da Vila Euclides, em SBC com mais de 100 mil operários, durante a trégua da primeira greve geral dos metalúrgicos do ABC (durante o afastamento punitivo da diretoria pelo regime militar). Naquele ato foi lançado o primeiro texto político do PT: A Carta de Princípios”., que no final propunha: “constituam por toda a parte núcleos elementares do Partido dos Trabalhadores…” . Foram os primeiros núcleos com sede pública e com placa identificadora ostensiva e orgulhosa na porta.

O Núcleo da Catão frutificou não apenas com a fundação do núcleo de Cangaíba e logo depois de Santa Ifigênia, de Carapicuíba, do Jardim Brasil, da Vila Galvão – Guarulhos, mas em dezenas de outros núcleos, a ponto da Internúcleos paulistana, coordenada por Skromov em fins de 1979, cujas reuniões normalmente se davam no estacionamento do Hospital Emilio Ribas, na Av. Dr. Arnaldo, reunir representantes de mais de 200 núcleos. Só na Lapa surgiram, logo depois, mais três núcleos. Os Martinelli fundaram o da Lapa de Baixo, os Frateschi, com Perseu e Zilah fundaram o da Monteiro de Melo e os companheiros da CS (Convergência Socialista) fundaram o da Vila Anastácio.

Aberto todos os dias , sua vida interna bombava de vida inteligente e rebeldia operária e democrática. Em poucos meses suas reuniões semanais ordinárias eram assistidas por entre 80 a 140 trabalhadores e militantes. E nos demais dias, o local abrigava reuniões de todos os segmentos sociais do bairro e da região. Reuniões dos trabalhadores das fábricas e empresas próximas, das Escolas – professores e alunos; de mulheres, de negros, de ecologistas, etc..

A presença frequente ou ocasional de figuras históricas como Mário Pedrosa, Crispim, os Martinelli, Bizerra, e Apolônio, cumpria papel interessante, que ia muito além do simples encontro de gerações de libertários e socialistas. Esses velhos companheiros passavam então por verdadeiro renascimento político, após sofrerem anos de perseguições, prisões, exílios e ostracismos. E quando a luta pela anistia chegou ao auge, em meados de 1979, o núcleo da Catão foi um ponto de apoio seguro e mobilizador na pressão sobre o regime militar e na recepção aos exilados que voltavam. Foi emocionante e significativo receber ali, no território operário livre da Catão figuras como: José Ibrahim e Manoel da Conceição, que em grandes e calorosas comitivas fomos buscar nos aeroportos.

Não havia PED. A eleição de delegados e dirigentes do MPT era feita em longas e politizadas plenárias de militantes, das quais participavam entre 450 a 850 militantes do bairro, durante dois dias – geralmente sábado e domingo e só podiam votar, no final do segundo dia de debates os que comprovadamente haviam participado dos dois dias de atividades.

https://agbook.com.br/livro/nos-que-eramossomos-todos-vermelhosTexto presente no livro Nós que éramos/somos todos vermelhos :
https://agbook.com.br/livro/nos-que-eramossomos-todos-vermelhos

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Tendência

Gilberto da Silva

Faça sua doação ao projeto Vitrine do Giba doe qualquer valor a partir do mínimo de R$10,00

R$ 1,00