
Por Gilberto da Silva
Naquele tempo, tudo parecia novidade. Falava-se em revolução como quem anuncia a chegada da chuva depois de meses de seca. De repente recebemos um coice, um pequeno coice, de início, talvez já estivéssemos preparados para tal, mas esse coice doeu tanto que nós, mais do que nunca, resolvemos ir contra o coice. Totalmente contra o regime imposto pela revolução.
Naquela mesma época nós não estávamos tão conscientes com o significado da revolução. E fomos simplesmente manejados por máquinas infantilizantes de cunho militar. A esperança, que antes era combustível, virou fumaça. Muitos afoitos ou apressados ou pertubados tinham esperança, mas com o tempo essa esperança esvaiu-se e aquilo que antes causou esperança virou decepção. Um pesadelo, daqueles que a gente acorda suando, sem saber direito onde está.
Tivemos á época um presidente que amava mais os seus cavalos do que seu povo, amava mais os equinos do que sua tropa. E, enquanto o povo esperava por cuidado, o líder se ocupava em escovar crinas e admirar relinchos. Deveríamos estar prontos para que o cavalo da tropa um dia caísse na grama? Estaríamos prontos para saber que o cavalo era mais cheiroso do que nós? Ou para admitir que, no fundo, o cavalo era mais bem tratado do que nós?
Aprendemos, também, que toda revolução traz consigo o risco de virar rotina, de se acomodar, de esquecer para quem deveria servir.
Hoje, ao olhar para trás, vejo que o cavalo segue ali, elegante e cheiroso, mas já não nos assusta tanto. Porque, no fundo, quem sobrevive ao primeiro coice aprende a caminhar com mais firmeza por entre coices.





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