
Uma mercadoria no mundo da politica
Segundo Karl Marx “a mercadoria é antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie” (Marx, 1983, p.45). Para Marx, o fetichismo da mercadoria é um fenômeno da sociedade capitalista e nela a mercadoria não pode ir sozinha ao mercado é necessário que alguém à carregue. O PT encarregou-se dessa tarefa e com a ajuda do marketing concretizou a mercadoria Lula tornando-o um fetiche e incorporando o ex-metalúrgico aos estreitos e perigosos caminhos da Sociedade do Espetáculo. A transformação deu-se, sobretudo, pela utilização da publicidade como forma de esculpir o ex-operário tornando-o uma liderança palatável.
O fetiche em sua primeira manifestação é a separação entre o fazer e o feito “O principio do fetiche da mercadoria, a dominação da sociedade por coisas suprassensíveis, embora sensível, se realiza completamente no espetáculo” afirma Debord (1997, p.28) marcando assim o triunfo da imagem nos domínios da sociedade, da política e da cultura.

A História de Lula é uma história de metamorfose, mudanças que se realizam conforme o contexto histórico em que nosso personagem esteve inserido
O período de 1976 a 1980 viu Lula transformar-se de um orador tímido, trazido gradualmente ao movimento sindical, em uma figura nacional com milhares de operários que absorviam cada palavra sua. Ele amava o oxigênio da publicidade, os comícios, multidões entusiasmadas gritando o seu nome. Ele não tinha medo... (...) Lula não tinha ideologia. (Bourne, 2009, p.76-77)
Os lemas das campanhas do PT e de Lula sofrem alterações sintomáticas de cada período vivido, dos primórdios Trabalho, Terra e Liberdade para Trabalhador Vota em Trabalhador (1982) quando Lula estreia como candidato a governador de São Paulo. com uma uma plataforma radical, De camiseta, o Lula candidato usava o slogan: “Companheiro trabalhador vote no 3 que o resto é burguês” .
Em sua primeira eleição presidencial (1989) Lula obteve 31.076.364 votos (44,23% dos válidos) e foi derrotado no 2º turno por Fernando Collor de Mello, com 35.089.998 votos (49.9% dos válidos). É de 1989 também um dos jingles mais emblemáticos das campanhas presidenciais, Lula-la… Brilha Uma Estrela (que seria gravado por Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil).
Ente 1993 e 1996, Lula participa das Caravanas da Cidadania, uma experiência praticamente inédita na tradição política brasileira e inspirado na Coluna Prestes. Juntou um monte de técnicos, lideranças políticas e sindicais e em cinco caravanas percorreram um total de 359 cidades de 26 estados, com o objetivo, segundo o Instituto da Cidadania, “de aprofundar o conhecimento sobre a realidade brasileira, ouvindo comunidades esquecidas, difundindo experiências positivas e articulando propostas viáveis de desenvolvimento para essas áreas”.
Em 2002 entre o Lulinha Paz e Amor; com a mensagem :“Quero um Brasil decente” e o jingle: “Agora é Lula” Nesta quarta tentativa de chegada a Presidência da República, Lula escolhe um empresário como candidato a vice na sua chapa (José de Alencar): começava aqui a sua mais profunda mudança.

Na reeleição com Lula de Novo com a força do povo (2006). São slogans e temas de campanhas que refletem os diversos momentos na formatação da imagem de Lula. Uma imagem polida com o tempo.

Maquiado e disciplinado por Duda Mendonça, Lula surge em 2001 com uma imagem “clean” à altura da lógica da sociedade do espetáculo. A experiência que poderia ser passageira, tornou-se permanente. Criou-se, notadamente após a eleição de 2002, a imagem do Lula como uma mercadoria sedutora, dócil e contemporânea, contando com elementos do pop, do chic, refletindo a figura do pai, do paizão, ou o quase santo ou messiânico. Um político sempre com sorrisos fartos e abraços generosos, desempenhando um papel de popstar carismático como bem destacou com razoável ironia Ab’Saber (2011).
Porém já em 2003, Maria Rita Kehl em artigo publicado numa revista do PT alertava para o uso publicitário da imagem de Lula:
Mas não só de carisma e compromissos sinceros teceu-se a vitória de Lula. A peça mais importante de sua campanha, admitamos, foi a publicidade. Sobretudo a campanha feita para a televisão, na qual o marqueteiro Duda Mendonça trabalhou para projetar uma imagem do candidato à altura da lógica do espetáculo. Nas imagens de Duda, Lula virou ídolo pop, virou chique, virou figura messiânica, virou santo, virou pai. Sorriu muito e disse pouco, chorou quando convinha chorar, fez muito charme para a câmera, associou-se a outras imagens genéricas e palatáveis: flores, estrelas, criancinhas, culminando com a cena kitch das dezenas de mulheres grávidas vestidas de branco descendo uma colina verde ao som do Bolero de Ravel. O apelo sentimental de imagens como esta, durante a campanha, foi quase indecoroso. Deve ter feito muita, muita gente esquecer a política. Às vezes, parece que é isto o que o brasileiro mais deseja: esquecer a política. (Kehl, 2003, p.63-64)
Devidamente instrumentalizado e organizado para atender às novas demandas engendradas pela Sociedade do Espetáculo, Lula renasce a partir de 2002 repaginado, fragmentado e reificado “num mundo em que tudo, inclusive a força de trabalho, se tornou mercadoria” (Jameson, 1995, p.11) e torna-se um produto a ser ofertado a todos os segmentos sociais como meio para um chegar a um fim: o poder.
Ernest Bloch afirma: “quem se põe à venda tem de agradar” (2005, p.32) e esse esforço concentrado de tentar agradar as massas populares parece ser o tônico da vitalidade de Lula como poemos notar em seu empenho e entrega nos comícios e carretas pelos mais diversos cantos do Brasil, sobretudo nos momentos de campanha eleitoral.

Ao analisarmos a figura acima a primeira expressão que recorremos é de que “o que atrai com mais força ainda é a mania de transformação. Nesse caso, o homem não só põe uma vestimenta nova, mas torna-se irreconhecível com ele.” (Bloch, 2005, p.336) Esse recurso do irreconhecível é prática comum durante as campanhas eleitorais.

De ‘sapo barbudo’ a ‘Lulinha paz e amor’ o processo de transformação parece ter sido feito sem direito a retorno. “Vitorioso, feliz, Lula não estava só mais carismático. Estava muito mais sedutor” segundo Kehl (2003, p.64).
Ao término do seu segundo mandato outras expressões – ou identidades a serem decifradas – foram agregadas ao ex-presidente: neocoronel, neoliberal, populista, popular, autoritário, pragmático e carismático. Os diversos “Lulas” e seus adjetivos são colocados no debate como uma esfinge a ser decifrada.


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