Uma taça soteropolitana

Naquela noite, em Salvador, você de branco
eu de preto, seu corpo refletindo luz e calor,
Ensaiávamos um beijo, ardente, quase chamas
em suas mãos uma taça preenchida de vinho.
Aquele sorrir de lado, desviado, quase mal criado, mal amado
mal destinado.
e um brilho no olhar lançado na vastidão soteropolitana.
Aquela fragância no ar.
E uma certa noção de que corríamos perigo.
Naquele dia em Assunção,
seu corpo, sua alma, deitada ali, perto do Lago,
compramos de tudo, assim como seu colar e seu brinco,
só não compramos a felicidade, que não estava à venda.
Naquela tarde em líamos Neruda, discutíamos revolução,
e uma certa noção de perigo.
Naquele ano que convivemos harmonicamente sobraram:
pétalas, que se reciclaram na natureza
e sonhos que dissiparam no espaço.
Gilberto da Silva
janeiro 2006
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