Publicado em 11 de abril de 2008
Por Gilberto da Silva
O programa Escola Brasil prova que educar por meio do rádio é possível. Tudo isto de forma ágil, descontraída e leve.
Apesar de ter nascido no país com o objetivo de servir à educação, o rádio ainda é um veículo pouco usado no Brasil para promover ações educacionais. O programa Escola Brasil mostra que isto pode ser diferente.
Nascido em 1997 pelo radialista Airton Medeiros o programa tem hoje de tudo, notícias, exemplos de projetos educacionais, dicas e sugestões para professores, dramatizações de histórias e muita aula de ensino fundamental. O programa de rádio é voltado para mobilizar as populações da área rural e de pequenos municípios das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Segundo Medeiros, a rádio é um instrumento carismático e com forte potencial educacional. ” Nosso objetivo é mobilizar os ouvintes em torno da educação, seja essa educação para o trabalho, para a saúde ou para a vida”, afirma o criador da Oscip Escola Brasil, Ong com missão de contribuir para a melhoria da qualidade da educação brasileira utilizando o rádio como instrumento de mobilização social.
Os programas têm duração de 30 minutos. Os conteúdos são abordados de forma lógica e os temas mais complexos apresentados ludicamente.
Cartas do Brasil
O Escola Brasil recebe, em média, de 500 a 1.000 cartas mensais, além de centenas de e-mails e telefonemas dos mais recônditos lugares do Brasil. O grande volume de cartas recebidas pela produção do programa confirma o sucesso de audiência. O conteúdo das correspondências revela a situação miserável que se encontra a educação no interior do Brasil. Até os professores têm dificuldade de escrever. “A formação deles é baixíssima, assustadora”, comenta Heloísa d’Arcanchy, coordenadora do programa Escola Brasil.
É um outro Brasil que a gente não imagina que exista. Eles não recebem jornais, revistas e não existe Rede Globo, Record. É um conceito de vida diferente do nosso”, diz.
São essas cartas que determinam a pauta do Escola Brasil. A partir destas correspondências, a equipe de reportagem vai atrás da solução dos casos por meio de entrevistas com especialistas em educação, secretários, prefeitos, sempre orientando a comunidade a atuar de maneira mais participativa e consciente, uma obsessão dos editores.
Segue abaixo entrevista concedida para a Revista Pa@rtes por Heloísa d’Archanchy, jornalista, que trabalha no Escola Brasil desde a concepção do programa, em 1997. Começou a carreira trabalhando na Rádio Manchete e depois fez assessoria de imprensa por 10 anos. Em 2003, o programa teve um intervalo sem atuar. Durante três anos ela trabalhou em um projeto de rádio do Sebrae, o “A gente sabe a gente faz”, que ensinava noções de empreendedorismo às classes C, D e E.
P@rtes: Como surgiu o Escola Brasil e qual o seu objetivo?
Heloísa d’Archanchy: Em 1997, o Airton Medeiros, que é radialista, percebeu a necessidade de criar um programa na área de educação. Primeiro ele pensou em denúncias sobre desvio de verba para educação, mas depois percebeu que o problema ia além disso, porque as pessoas queriam denunciar mas não sabiam nada respeito de seus direitos ou mesmo de educação básica. A necessidade era de um programa educativo que proporcionasse o desenvolvimento de uma mentalidade do quanto essencial é a educação. O primeiro programa foi ao ar no dia 1º de dezembro de 1997 com o objetivo de levar informação e educação às pessoas que antes não tinham acesso.
Quais as principais revelações educacionais proporcionadas pelo programa?
Descobrimos o Brasil do interior, onde até hoje existem escolas sem banheiros ou energia elétrica. O mais fantástico é a absorção do conteúdo por parte dos ouvintes. Eles gostam muito e se surpreendem em saber de coisas básicas que ninguém antes se interessou em informar-lhes. Houve o caso de uma família que descobriu, por meio do nosso programa, que as escovas de dentes deveriam ser usadas individualmente. Eles mandaram uma carta dizendo que não sabiam disso e antes usavam uma escova para todos os membros da família.
De que forma o programa tem contribuído para a melhoria do Ensino Fundamental no Brasil?
Não há um direcionamento para determinado nível de ensino. O conteúdo dos programas não é substitutivo das aulas, mas procuramos levar informação para as famílias, professores e alunos. Tentamos resolver os problemas das denúncias que nos são enviadas indo atrás das autoridades, apurando as informações que os ouvintes nos passam e também dando dicas. A intenção é melhorar a educação de uma forma geral.
Qual o perfil das pessoas que enviam cartas ao programa e suas maiores demandas?
A maioria das cartas que recebemos são de pessoas que vivem no interior, apesar de já haver cerca de 50 rádios comunitárias no país transmitindo o programa. Eles pedem dicas de português, querem saber como resolver problemas de pragas nas lavouras, mas não tem um assunto que as pessoas toquem mais, porque as cartas são muitas e bem diversificadas.
Fora transformar estas cartas em pautas, vocês pretendem trabalhar estas correspondências de outra forma? (livros, projetos novos etc)
Já temos um livro (Escola Brasil – o rádio a serviço da educação, de Mário Salimon). Mas, por enquanto, a intenção é continuar fazendo o trabalho desta forma: ouvindo o que eles tem a dizer e tentando resolver, informar e educar por meio do rádio.





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