Henfil era foda. Faz falta no universo cultural brasileiro. Verdades e palavras incomodas saiam da sua verve.

Nós homens crescemos acreditando que a liberdade é uma ameaça. Henfil sabia: não é ela que assusta. Somos nós, com nossos medos herdados, nossas fragilidades escondidas, nossos afetos mal aprendidos.

A mensagem de Henfil foi publicada uma semana depois da morte de Elis Regina, 19 de janeiro de 1982, na página da revista IstoÉ onde Henfil publicava suas charges e as famosas Cartas da Mãe”, uma homenagem à cantora. Na carta Henfil fala sobre a vida e a morte daquela que enfrentou o machismo em sua breve vida. A carta de Henfil mostra a atualidade do seu pensamento e tem muito a ver com a luta das mulheres contra a violência, a misoginia e o machismo de que são vítimas.

Elis,

Tudo bem. Nenhuma pista sobre tua morte. Tipo crime perfeito. Precisa ver. Os perplexos seguem as pegadas duma tal fama assassina que devora seus filhos. Os nascidos nos anos 40 já acham que tá é passando um flautista, convocando a geração “da gente” (Ri! Ri! Ri!). Os legistas shibatam tuas vísceras à cata de comprimidos e tóxicos.
Tu despistou todo mundo.
Mas eu, eu encontrei a caixa-preta. E vou dormir:
Nós homens te matamos, mulher.
Você dobrou tua voz e venceu. Dobrou teus negócios e venceu. Dobrou tua consciência política e venceu.
Quis ser mulher livre e perdeu…
Nós homens te exigimos alta, linda e gostosa. Nós homens te espancamos a murros e pontapés uma, duas, de dez vezes. Nós homens te obrigamos a lavar roupa e cozinhar pra nos sustentar. Nós homens te forçamos a se humilhar diante do teu povo, cantando de joelhos o hino nacional. Aí, nós homens, sem perguntar, te enterramos no cemitério dos mortos-vivos do Caboco. Mamadô. Nós homens te exibimos em churrascarias. Nós homens te vestimos de azul, vermelho, branco, roxo, amarelo, preto e cortamos teu cabelo curtim feito Joana d”Arc.
E você só queria namorar nós homens.
Mas nós homens não conseguimos namorar uma mulher livre.
Perplexos, quarentões e médicos-legistas!
Podem suspender as diligências.
Tá na caixa-preta: fomos nós, homens.

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Gilberto da Silva

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