Não fui um Don Quixote. Fiz tudo consciente. Lutar pela liberdade foi uma opção de vida. (Folha de São Paulo, 10/6/94)

Publicado na revista Partes em março de 2001

Gilberto da Silva

Costumava, lá na minha retirada e pacata Cambará, cidade localizada no norte do Paraná, acompanhar os jogos do Botafogo. Afinal, o charme da época era de torcer para o Santos, do glorioso Pelé e para o Botafogo, das pernas tortas de Guarrincha. E gostávamos quando um meio-campista meio invocado e barbudo, o Afonsinho, aparecia na jogada.

O “prezado amigo Afonsinho” eternizado na letra de Gilberto Gil, foi o primeiro jogador de futebol a conseguir o passe livre, depois de uma árdua disputa na Justiça.  Afonsinho foi jogador do Botafogo do Rio de Janeiro e atuou ainda no XV de novembro de Jaú (interior de São Paulo), Olaria, Vasco, Flamengo e Fluminense.

A lei do passe, com o perdão do trocadilho, está num impasse, os cartolas de plantão querem prorrogar mais uma vez o fim do passe. E Afonsinho, médico psiquiatra do Pinel do Rio de Janeiro, continua inconformado. Diz que os seus colegas continuam sendo trados como escravos. Aos 53 anos, Afonsinho continua achando que a escravidão não acabou  e acha ‘odiendo’ a situação atual do futebol brasileiro. “Na verdade estamos repetindo o processo de liberação da escravidão porque, na prática, o passe do jogador de futebol que pertence ao clube é mais um domínio, já que existem empresários no meio”, afirmou Afonsinho recentemente.

Na minha velha Cambará eu, sem saber, criança inocente, no país do “ame ou deixe-o”, desconhecia que ali, nos gramados, aquele meio-campista barbudo e bom de bola, era acima de tudo um guerreiro. Lutando a boa partida, e que não é Pelé, nem nada, mas não se cala.

Será o Afonsinho? Bom meio campista fazendo do passe a solidariedade e o companheirismo. Por realizar o passe é distribuir o que tem para o outro. É dar para o outro a possibilidade da glória e da realização. O passe é solidário.

O passe, lançamento mágico é a arte de distribuir a bola, a prática da doação. O passe é solidário sim! O passe, gesto de liberdade e companheirismo é o ato de des-servidão. É a magia da distribuição.

Gilberto da Silva, editor de Partes

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