Ignoratio Elenchi

Por Gilberto da Silva

“Saber argumentar foi outrora tido como a suprema arte.
Hoje não basta. Temos de adivinhar, sobretudo nas questões que podem nos enganar. Não pode ser entendido aquele que não é bom entendedor. Há videntes do coração e linces das intenções. As verdades mais importantes exprimem sempre por meias palavras; só os atentos as compreendem totalmente. Nos assuntos que parecem favoráveis, puxe as rédeas de credulidade. Nos odiosos, use as esporas”. Baltasar Grácian.

 

O homem foi logo com a minha cara. Fui o escolhido e com certeza, dentro do perfil necessário. Chegou bem perto e com muita calma perguntou:

– É eleitor?

– Sim. Respondi secamente. Ou grosseiramente, se assim entender.

– Desculpe-me. Sou Antonio das Mortes Neves, do OpiniumDays. O senhor gostaria de fazer parte de uma pesquisa de opinião? São necessários apenas alguns minutos.

Quem disse que um dia não seria ouvido? Sim, existe pesquisa eleitoral! E dado que pesquisa é a busca com investigação, o pesquisador coloca-se no papel de investigador. O jovem entrevistador, bem preparado pela equipe de pesquisadores, fez questão de mostrar o crachá, imediatamente começou com as perguntas classificatórias:

– Tem TV, rádio, computador, geladeira, som, máquina de lavar, conta bancária, CIC, RG, filho na escola, pensão alimentícia etc?

Pronto, o cara já descobriu que eu estou na classe X! E continua persistindo seu ato investigativo:

– A situação da estatal Y está complicada, com muitas denúncias de corrupção e péssimo gerenciamento. Você concorda com essa situação?

Na hipótese da minha concordância, com certeza, estaria no meu rosto estampada uma faixa escrita a palavra “trouxa”.

– Claro que não! Não concordo! Imediatamente o entrevistador, para não perder a liga, emenda com mais uma:

– Você acha que o comandante máximo da nação é conivente? O preço da abobrinha, do salame, da caixa de cerveja e do queijo suíço tem aumentado constantemente. Você acha que a inflação está de volta? Você tem medo da inflação? Você tem notado o aumento do preço da gasolina? Diante dessa situação em quem você não votaria nas próximas eleições?

Fiquei refletindo por alguns segundos se eu deveria chutar o pau da barraca e ser desonesto! Imaginei as comparações entre as duas variâncias. Sonhei com setas indicativas de aumento ou decréscimo na preferência por este ou aquele candidato. Fixei-me nas hipóteses testando minhas conclusões em variáveis calculadas a partir das amostras que me foram apresentadas.

E as comparações? Sim, múltiplas comparações entre amostras de tamanho, honestidade e qualidade variáveis ou iguais. Podemos trocar um abacaxi por um picolé de abacaxi, aumentar uma curva ascendente, subir as Bolsas. cair a dignidade, elevar a temperatura, criar crises partidárias, estourar gabinete de governança. Haja possibilidades!

Pelo andar da carruagem, nos caminhos da entrevista, não deveria ficar preocupado com essas questões de probabilidades. Vamos combinar. De forma linear a soma das perguntas imperfeitas gera respostas imperfeitas!

Está na moda a elaboração de trabalhos amostrais que podem desviar o padrão e contribuir para o erro padrão da estimativa em pesquisas feitas para dirigir os departamento de marketing das campanhas eleitorais e provocar no jogo político as tensões derivadas desse embate.  Eu, como bode expiatório, sou o boi pesquisado nesse zoológico de base amostral. Entendeu o que eu quis explicar? Claro que não! Tais fórmulas só interessam ao pequeno universo de entendidos na arte da pesquisa.

Ato contínuo, o entrevistador/investigador, discorre sobre uma pesquisa realizada num pais desenvolvido e que chegou à seguinte conclusão: os olhos azuis de alguém é bonito. As pessoas com olhos azuis são menos sujeitas à corrupção. Em seguida, o entrevistador apresenta uma fotografia com candidatos e pede para você apontar em que confiaria numa possível eleição.  Você vai apontar o sujeito de olhos castanhos?

Desse jeito meu intervalo de confiança estabelecido em pequeno instantes com o pesquisador/entrevistador já ia se esgotando e o nível de significância do ato de ser interpelado democraticamente já estava contribuindo para a elevação da minha pressão arterial. Nessa proporção eu poderia ter um infarto fulminante e, com base no meu falecimento, aumentar as estatísticas do governo sobre o aumento das mortes derivadas de problemas coronários.

Uma voz, vinda do nada, quase que do fundo da alma, falou: “Sua vida não é uma causa pétrea, despetrifique, confunda, diga não, desvie. Já existe certezas demais postas nas mesas. E todos já sabem demais da sua vida”.

Quase tive um ataque filosófico quando o entrevistador/investigador perguntou:

– Nesses “daqui” (apontou o papel) em qual você não votaria de jeito nenhum?

Voltei aos meus pensamentos raivosos – “ele deve estar tentando aumentar o digito de alguém – e cheguei a uma conclusão: não faça média com o desconhecido!

Para o meu controle de aderência o inferno da pesquisa chegou ao fim. Mantive meu respeito ao profissional que ali estava. Ele é um trabalhador! Deixei a estatística de lado e apelei para a lógica:

Todo presidente é corrupto;

João é presidente;

João é corrupto.

-O entrevistador deu um sorriso largo e deve ter pensado: ganhei o dia!-

Quer conclusão mais relevante?

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