Como ser um authentic Brazilian new right

Por Gilberto da Silva

Caro amigo, você numa conversa de botequim desvenda, após minhas muitas suspeitas, que é na verdade um direitista enrustido e coloca-se pronto para sair do armário, dado a condição da conjuntura atual que está lhe recomendando açodamento. Não fique triste, a vida é feita de ilusões. Meu caro, você indaga a certa altura que já não aguenta mais aturar estes esquerdistas esquizofrênicos que teimam em vermelhar de comunismo nossa santa pátria, nossa calma e gloriosa terra. Dado o seu entusiasmo, tive que tomar uma cachaça e encarar a conversa. Mas como sei que você é um cidadão que não retrocede em suas opiniões resolvi emprestar alguns conselhos, já que este é o tipo de mercadoria que não é bom dar e que se fosse da sua parte, me venderia. Permita-me, então, invadir seus sonhos.

Os rótulos postos no perfis daqueles que se dizem, ou propagam militantes de esquerda, já ganharam textos e mais textos, todos dedicados a esta arte de se contrapor ao capitalismo e defender um novo tipo de sociedade. Coisas do arco da velha ou do tempo dos dinossauros, como sempre você insiste ao repetir os bordões de comunicadores de rádio ou de colunistas de mídia impressa nacional. Com a queda do Muro de Berlin, ficou mais fácil condenar esse ser “idiota” que vive propalando um tal “sujeito coletivo”. Desde já, fique sabendo que o fato de um sujeito falar que é marxista não faz dele uma pessoa autenticamente esquerdista, nem que seja uma exímio conhecedor da obra de Karl Marx, tal como Delfim Neto, que não é de esquerda e conhece o Das Kapital melhor do que muitos militantes vermelhos.

Estou aqui a reflexionar sobre a arte da transformação ou da concretização do jovem nacional, um novo ser brasileiro de direita, agora assumidamente, sem as máscaras usadas no carnaval ou nas manifestações. Ser de direita na nossa contemporânea sociedade parece, definitivamente, estar em dia com a moda fashion da nossa sociedade do espetáculo. Eu, apesar de tudo, acho bom. Em muitos países existe direita e esquerda que convivem harmonicamente, dentro do Estado de Direito, sem extremismo de ambos os lados. De fato, tal posição, pode até elevar o nível da democracia. Mas há quem pondere ao inverso…

Aviso de imediato, não vale apenas falar do Olavo de Carvalho, só porque no momento ele é um campeão de vendas. É bonito, na atualidade, falar que é fã do Olavo, um filósofo que é de direita há muito tempo – e só agora tem seus livros empilhados na entrada das grandes livrarias e, creio, vendendo bem.  Justo ele que, provavelmente, sempre torceu o nariz ao ver, em outras épocas, livros vermelhos aos montes ofertados aos incautos. Olavo sempre atuou na dupla função de centroavante e de beque central no escrete nacional do Direita Futebol Clube. Bater e tentar fazer gol está no seu DNA. E não me venham falar que eu sou um “idiota da objetividade”, como sempre pontuava Nelson Rodrigues em suas colunas ao se referir, principalmente, aos jornalistas esportivos da sua época. Mas convenhamos, falar em sujeito coletivo é um tanto paradoxal, não? Respeito e li José Guilherme Merquior (1941-1991), critico literário, ensaísta e diplomata, que morreu ainda jovem. Poderia ser um ícone dessa nova geração que não lê; anticomunista, que não lê e pensa que lê. Merquior daria um banho em muita gente. Merquior, por exemplo, dialogava sem baixaria com o marxista Perry Anderson, editor da New Left (“a revistinha in dos esquerdistas”), sem firulas, Merquior gostava de debater as questões teóricas do marxismo e outras querelas com o autor de Nas trilhas do materialismo histórico. Escreveu um bom livro que o seu amigo aqui, metido nas coisas de la gauche, sempre dá um espiadinha: Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. O cara foi de direita com classe. Nada parecido com figurinhas midiáticas dessa nossa atual sociedade espetacular. Portanto, um primeiro passo que você pode dar é começar a ler o Merquior, para ajudar a enfrentar os ignorantes dialéticos, como você se refere aos esquerdistas e não vomitar besteiras nas suas rodinhas de amigos. Lembre-se, raivosos, preconceituosos, autoritários, sectários e ignorantes são sempre eles – o outrem -os profetas acadêmicos, vetustos e insolentes.

Para você prosseguir nesta lida de ser um direitista assumido, inconteste, comece já na sua dissertação a incluir citações do historiador Marco Antonio Villa, dos filósofos Luiz Felipe Pondé e Denis Lerrer Rosenfield, do sociólogo Demétrio Magnoli e do economista Rodrigo Constantino. Seus mestres vibrarão e indicarão sua dissertação para a nova geração. Os esquerdistas tremerão de horror! Florestan Fernandes sairá gritando do túmulo: abaixo os de cima!!!!! O sonho de alguns desses autores é ultrapassar a marca de citações daquele americano linguista metido a anarquista, um tal Chomsky.

Insira em seus comentários as doces indicações do Pondé para você não fazer feio com a menina, doce, meiga, linda e desejada estudante da Faculdade de Filosofia. Vá fundo, filosoficamente, poeticamente, delirantemente em seu ensaio e escreva: “os direitistas até aqui se limitaram a interpretar a esquerda, cabe aos novos brasileiros de direita, transformá-los”. Mas não vulgarize sua linguagem pois um dia a massa poderá comer o biscoito fino que você quer vender, E a massa produz….

Capriche em suas postagens nas redes sociais. Colocar montagens e colagens que deturpam os políticos de esquerda é jogar com a mesma moeda deles. E nada de ficar condenando Fidel, pois ele não morreu e já foi enterrado. Chávez já era. Só sobrou aquele doidinho lá da parte de cima da Coreia. Cuidado! Não manifeste seu preconceito latente. Coloque a culpa no PT (um partido que parece uma grande mãe com seus braços abertos a receber seus filhos), se não colar, culpe o PSOL (filho rebelde do PT, e que está doido para receber as suas vaias). E depois culpe todos os comunistas, amantes do materialismo histórico, da revolução cubana, do charuto cubano e do homem e da mulher cubana. Aproveite e vá até Cuba, o mano do Fidel – com a ajuda a fórceps do Tio Sam – está aos poucos abrindo as pernas e quem sabe você com sua capacidade, energia e vigor consiga ajudar no processo de instauração de uma verdadeira república democrática capitalista no Caribe.

Para ser um authentic Brazilian new right é necessário realizar mudanças profundas em seu comportamento, como por exemplo, participar de todas as mesas redondas de futebol, cinema, economia, política e usar e abusar da ironia. Ser sério e sisudo não cabe no novo figurino. E mais, critique sempre com adendos e ponderações, cite o Capital de Karl Marx, mas dialeticamente rebaixe o amigo do Engels aos pés de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Cuidado com a cara de cinismo, na sociedade do espetáculo qualquer cidadão irá reconhecer sua farsa teatral e dissimuladora.

Quer ser referência? Pare de ler a Veja para não ser rotulado de panfletário ou adorador de jornalismo amarelo. Aproveitando a onda da Copa do Mundo, não pense que é melhor marcar um gol no Jabaquara do que no Palmeiras. Faça logo uma jogada de craque, um não-gol memorial como aquele do afrodescendente Pelé no goleiro Mazurkiewicz naquele brilhante 4×1 contra a Tchecoslováquia em 1970, no México. Ninguém vai lembrar do gol no Jabuca, mas com certeza seu não-gol espetacular será venerado por gerações sucessivas de adoradores de boas jogadas.

Não me venha com camisetinhas básicas antípodas daquelas que você mais condena nos esquerdistas que são as estampada com o rosto do Che ou com daquele sujeito que você nem gosta de pronunciar o nome e que veio da região do ABC em São Paulo. Nem use moda retrô, jaquetinha tipo TFP – nem pensar! Você pode achar num primeiro momento que vai abafar usando aquela camiseta com o slogan “Mais Mises, Menos Marx”, mas convenhamos, seja mais criativo, fuja do estereótipo. O povo, ignaro, vai pensar que Mises é a Renata Fan.

Chegando quase nos finalmente, alerto, meu amigo – se assim ainda me permite expressar – para o perigo que é o namoro com velhas raposas. Pense, por exemplo, no presidente nacional do PPS, um ex-comunista que entrava na Kombi do PC. O homem – que deixou rapidinho seu feudo em Pernambuco -, hoje é o maior aliado das forças retrógradas tucanas e aproveita dos votos dos paulistas para permanecer ativo na política. Mais xiita do que um Álvaro Dias, mais eloquente do que um FHC, mas menos inteligente, é claro, nesse quesito, para nosso contragosto, o Príncipe sempre foi superior. Pense no Kassab, filho dileto da burguesia e que está gostando de namorar com setores do PT e com o PMDB. Seja claro, seja objetivo. Não se iluda. Se a atual oposição ganhar a Presidência, a corrupção não vai acabar. Só vai sair da Mídia.

Publicado originalmente em revista Partes:

http://www.partes.com.br/2014/05/22/como-ser-um-authentic-brazilian-new-right/

 

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