Os filtros da submissão

Por Gilberto da Silva
(Jornalista e sociólogo, mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Endereço eletrônico: gilberto@partes.com.br)

Trabalho de conclusão de curso apresentado para a disciplina Planejamento e Gestão da Comunicação na Esfera Pública, ministrada pelo Prof. Dr. Marcelo Coutinho, para o Programa de Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, primeiro semestre de 2005.

Resumo
Tendo como ponto de partida uma matéria publicada na revista de circulação nacional, a Veja, pretende-se sob a ótica das formulações sobre o Modelo de Propaganda de Herman e Chomsky (A Manipulação do Público) analisar a presença do presidente venezuelano, Hugo Chávez na mídia brasileira.

Palavras-chaves: 1) modelo de propaganda; 2) manipulação da mídia; 3) jornalismo; 4) Hugo Chávez.

Os filtros da submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista

O presente trabalho tem como objetivo analisar, tomando como referência a edição nº 1903, de 4 de maio de 2005 da revista semanal Veja, a presença do presidente da Venezuela, Hugo Chávez na mídia impressa brasileira. Analisarei, sobretudo o artigo O Clone do Totalitarismo assinado pelo jornalista Diogo Schelp com reportagem de Ruth Costas e José Eduardo Barella através da ótica de Herman e Chomsky expressa em A Manipulação do Público. Os autores americanos afirmam a existência de elementos que filtram as notícias, destacando as matérias favoráveis aos interesses do governo e dos grandes interesses econômicos privados. Estes filtros atuariam com naturalidade. Assim, os jornalistas não colocariam em causa a sua honestidade profissional e estariam convencidos de que escolhem e interpretam as notícias baseadas em critérios jornalísticos desligados de pressões externas. Esta situação tornaria difícil imaginar formas alternativas de se selecionar e processar o que se noticia. Segundo Chomsky e Herman (2003), os cinco filtros que levariam o jornalismo americano a tornar-se um Modelo de Propaganda onde toda a cobertura dos acontecimentos nos meios de comunicação é tratada como campanha de publicidade maciça. Os filtros são os seguintes:

1. Porte, propriedade e orientação para os lucros da mídia de massa: o primeiro filtro. Baseado na estrutura de propriedade da mídia. As mídias dominantes são grandes empresas e corporações, controladas por ricos e poderosos ou por gerentes que estão sujeitos a intervenções dos patrões ou de forças voltadas para o mercado e o lucro. Estas mídias estão solidamente unidas por interesses em comum com outras grandes corporações, bancos, investidores e governo.

2. A licença da propaganda para fazer negócios: o segundo filtro. Segundo Herman e Chomsky, na interpretação de Traquina (2001: 83) “As empresas são fortemente dependentes da publicidade no que diz respeito a rendimentos e ligadas a outras grandes firmas por laços comerciais e pessoais”. Os anunciantes escolhem criteriosamente os programas tomando por base seus princípios e evitam programas que possam interferir no “poder de compra” dos consumidores. Assim, muitas vezes, programas com bons conteúdos são excluídos da programação.

3. Buscando fontes de notícias de mídia de massa: o terceiro filtro. Existe uma dependência dos grandes jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial. Os meios de comunicação de massa necessitam de notícias diárias, cumprem horários apertados e dificilmente têm jornalistas em diversos lugares onde fatos importantes podem acontecer. Isto sem contar o total enxugamento das redações. Percebendo isso, fontes do governo e das corporações se “esforçam” para tornar as coisas mais fáceis para a mídia, enviando discursos adiantados de conferências e reuniões, releases e pronunciamentos de acordo com o horário de fechamento dos jornais. Isto facilita para a mídia e em troca, as grandes entidades e o governo obtém acesso especial na mesma.

4. A bateria de reações negativas e os fiscais de cumprimento: o quarto filtro. O autor usa do termo bateria de reações negativas (cartas, telefonemas etc) para se referir às respostas negativas dadas a um programa ou declaração da mídia, com a finalidade de regulamentar ameaçando e ‘corrigindo’ a mídia, tentando conter qualquer desvio da linha estabelecida. O noticiário em si está projetado para produzir essa reação.

5. Anticomunismo como mecanismo de controle: o quinto filtro. Apesar de conhecermos a função real da mídia é notório que esta é manipulada pela classe dominante, se tornando um “sistema de mercado guiado” por governos, líderes de comunidades e acionistas destas mídias. Segundo Chomsky (2003:88) “essa ideologia ajuda a mobilizar a população contra o inimigo comum”, no caso o comunismo e ” como o conceito é obscuro, pode ser utilizado contra qualquer um que defenda políticos que ameacem os interesses de proprietários”.

Chávez, pela ótica da Veja

A reportagem da revista Veja toma 10 páginas (p. 152-162), conta com 11 fotos (exceto a da capa (Figura 1) e do sumário e do Editorial), 1 (um) infográfico e 1 (uma) tabela.

Image10Figura 1

A matéria da Veja vem na esteira de uma articulação de um setor da mídia brasileira para caracterizar o presidente venezuelano como um populista, autoritário e terrorista. Chávez é descrito como um perigo para a democracia e uma ameaça à estabilidade da região. Para a revista do grupo Abril, Chávez é um exemplo bem acabado de um ditador sul-americano, antiliberal, castrista e “revolucionário” e que pode levar a Venezuela para uma guerra civil. Chávez, apesar da revista não caracterizá-lo como esquerdista, é considerado, num contexto latino repleto de presidentes oriundos da esquerda, uma ameaça a seu povo e aos vizinhos.

Durante a crise com a Colômbia, o jornal O Estado de São Paulo (18 de janeiro de 2005) publicou na coluna Notas e Informações (equivalente ao editorial do jornal) o artigo “Está na hora de conter Chávez”. No editorial o jornal paulista demonstra a tese de Chomsky de que “para que as análises e os artigos de imprensa sejam considerados respeitáveis, é melhor, realmente, que se situarem do lado bom, ou seja, o dos braços melhor armados” (2002?:7). Então, vejamos como se expressa o editorial da revista Veja:

Chávez tentou dois golpes de estado, antes de ser eleito em pleito normal. Uma vez eleito, passou a usar métodos copiados da primeira etapa do hitlerismo para acumular poder”, emenda em seguida com uma comparação, sem mais argumentação histórica de que “o “bolivarismo” de Chávez é um movimento antidemocrático, autoritário, com tendência totalitária” e arremata, finalizando o artigo ” Está na hora de os países do hemisfério se unirem para conter esse caudilho megalômano que se pretende a reencarnação de Simon Bolívar.

A matéria da revista Veja com data de 4 de maio (quarta-feira) é publicada logo após reportagem do jornal Folha de São Paulo de 1 de maio de 2005, domingo, página A32, assinada pela jornalista Carolina Vila-Nova e intitulada “Populismo radical favorece o terrorismo, alertam EUA“. A matéria é complementada por outra intitulada “Problema exige “resposta militar”, afirma coronel“. A jornalista visitou os EUA e a Colômbia a convite do Departamento de Estado dos EUA. As vozes ouvidas são todas pautadas pelo governo americano, nenhuma voz contrária, ou melhor, nenhuma voz favorável ao presidente venezuelano. A foto ilustrativa mostra Chávez ouvindo atentamente Fidel Castro (Figura 2)

Figura 2

Image11

Ilustração 1: Chávez ouve atentamente Fidel Castro.

Interessante aqui discutir o conceito de terrorismo do ponto de vista de Chomsky (2002?:6-7), já que o conceito veiculado pela mídia é o mesmo empregado pelos Estados Unidos da América.

Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror a utilização calculada para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo. O problema de tal definição é o fato de se explicar muito exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de guerra de baixa intensidade, reivindicando esse gênero de prática.

Na mesma edição de Veja, a entrevista das “páginas amarelas” é com a secretaria de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, quando da ocasião de sua visita ao Brasil. A Condoleezza ganhou espaço nobre, é bajulada, recebe o título de “miss simpatia”. As duas primeiras perguntas da entrevista feita por Vilma Gryzinski.

Veja – O presidente Hugo Chávez disse que há americanos preparando uma invasão da Venezuela. Verdade ou mentira?

Rice – Isso é simplesmente um escândalo. É claro que os Estados Unidos não vão invadir a Venezuela ou fazer qualquer coisa do gênero. Os EUA querem ter boas relações com a Venezuela. Existem preocupações relativas à democracia na Venezuela e à maneira como e ela se relaciona com os vizinhos. Mas nós não vamos invadir a Venezuela.

Veja – Qual é a melhor atitude a tomar quando se lida com um personagem como Chávez, que está sentado sobre um mar de petróleo, tem o apoio de 60% da população e pode usar as pressões americanas em seu favor?

Rice – A única coisa que faz sentido é ter uma pauta positiva. É sobre isso que vim conversar aqui. Falamos sobre a Venezuela, é certo, mas foi uma parte relativamente pequena das discussões. Falamos também sobre o hemisfério, que fez progressos notáveis em termos de desenvolvimento democrático na última década….

Para a revista semanal vale a máxima, aos amigos tudo, aos inimigos a mentira e a manipulação.

As fotos da edição

As fotos da edição nº 1903 da Veja revelam o que o restante da mídia tenta fazer cotidianamente. A foto da capa mostra um Hugo Chávez carrancudo, boina vermelha, blusa vermelha. Um fundo vermelho ressalta o aspecto “cara de mau”.

Nas páginas 156 e 157 a revista elenca uma série de 4 fotos de Chávez com “seus amigos” o líder do MST João Pedro Stedille; o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein;o “ditador” Muamar Kadafi (figura 3) e o iraniano Khatami (figura4).

Esqueceram de colocar as fotos de Chávez com Bill Clinton, ou com o papa João Paulo II, mas como a matéria é parcial, preferiram retratar o “maluco de Caracas” com outros “malucos” mundiais.

As fotos são usadas para instrumentalizar, selecionar e fortalecer o sentido desfavorável ao presidente venezuelano.

Figura 3: Hugo Chávez com o ditador Muamar Kadafi, em visita à Líbia, em 2004

Figura 3: Hugo Chávez com o ditador Muamar Kadafi, em visita à Líbia, em 2004

Figura 3: Hugo Chávez com o ditador Muamar Kadafi, em visita à Líbia, em 2004.

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Figura 4: Chávez com o iraniano Khatami, em março de 2005.

Os negócios dominam as informações

Chomsky afirma que a concentração da propriedade e a orientação lucrativa das empresas jornalísticas acarretam num menor número de pessoas dominando os órgãos de imprensa fato este que facilita as pressões e a dependência. No caso da Venezuela, esta opinião é compartilhada pelo francês Ignacio Ramonet:

Nesse país latino-americano – em que a oposição foi varrida do cenário político em 1998, quando se realizaram eleições livres, plurais e democráticas – os principais grupos de imprensa, rádio e televisão desencadearam, pela mídia, uma autêntica guerra contra a legitimidade do presidente Hugo Chávez. Embora ele e seu governo continuem respeitando o contexto democrático, a mídia, nas mãos de um punhado de privilegiados, continua a utilizar a artilharia da manipulação, da mentira, da lavagem cerebral para tentar intoxicar o espírito das pessoas. Nessa guerra ideológica, eles abandonaram completamente qualquer veleidade da função de um “quarto poder” e procuram, desesperadamente, defender os privilégios de uma casta, opondo-se a qualquer reforma social e a qualquer distribuição mais justa da imensa riqueza nacional.

O caso venezuelano é exemplar da nova situação internacional, na qual grupos da mídia, ensandecidos, assumem abertamente sua nova função de cães de guarda da ordem econômica estabelecida e seu novo estatuto de poder antipopular e anticidadão. Estes grandes grupos não se assumem exclusivamente como poder da mídia; constituem, antes de tudo, o braço ideológico da globalização, e sua função é a de conter as reivindicações populares ao mesmo tempo em que tentam abocanhar o poder político (como conseguiu fazer, de forma democrática, Silvio Berlusconi, dono do principal grupo de comunicação da Itália).

Nas amarras da publicidade

A Veja tem uma invejável rede de anunciantes. Para Chomsky a publicidade como primeira fonte de rendimento das empresas jornalísticas, leva as empresas jornalísticas a evitar ofender os clientes -entre os quais os diversos órgãos de governo e a administração pública – com matérias que estes possam considerar indesejáveis. Os meios de comunicação são, na verdade, empresas orientadas para o lucro a partir da venda de seu produto – os leitores – para outras empresas – os anunciantes. O modelo de Chomsky prevê que se deve esperar a publicação apenas de notícias que reflitam os desejos, as expectativas e os valores dessas empresas. Veja cumpre direitinho este mandamento:

Enquanto isso, as empresas americanas na Venezuela passaram a ser tratadas a pão e água. Sem maiores explicações, o governo de Caracas suspendeu um contrato que permitia à ConocoPhllips, a terceira maior companhia petroleira americana, explorar um campo petrolífero no país. Há três meses, fechou as oitenta lanchonetes da rede McDonald’s e as quatro fábricas da Coca-Cola que operavam em território venezuelano. Ao ridículo da batalha dos McDonald’s e da Coca-Cola, acrescentou-se na semana passada uma iniciativa hilariante: o anúncio, por Chávez e Fidel, da criação da Alba. p.158-159)

Dependência de fontes governamentais

O terceiro filtro é o fato de existir uma dependência dos jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial. Os meios de comunicação dependem fortemente das grandes empresas e das instituições governamentais como fonte de informações para a maior parte das notícias. A mídia deposita nestas fontes confiança nas informações dadas pelos órgãos do governo e das empresas privadas dominantes e agências de relações públicas.

As fontes ouvidas pela Veja foram todas contrárias ao governo de Chávez. Numa matéria com poucas “aspas” e muita informação sem mencionar as fontes destacamos os quatro personagens (Tabela 1) ouvidos pela reportagem: Adrián Gurza Lavalle, mexicano, cientista político, da Universidade Católica de São Paulo; Manuel Caballero, venezuelano, historiador; Andrés Oppenheimer, colunista do Miami Herald e Roberto Zoellick, vice-secretário de Estado americano.

Tabela 1. Entrevistados pela Veja

Entrevistados Número
Desfavoráveis a Chávez 4
Favoráveis a Chávez

Chomsky explica que um dos cinco fatores que levam à submissão do jornalismo aos interesses do capitalismo é a dependência dos jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial.

Dissidentes, informantes e vários outros tipos de oportunistas avançam para o centro do palco como “especialistas” e ali permanecem, mesmo após serem expostos como altamente não confiáveis, quando não como mentirosos deslavados. (Chomsky: 2003: 89)

Gilberto Maringoni (2005) em artigo que analisa a matéria da Veja afirma que o historiador Manuel Caballero anunciado pela Veja como “o mais respeitado do país”, só é “respeitado na Venezuela pelos monopólios privados da mídia e pelas elites econômicas. Tornou-se um destemperado e folclórico opositor de Chávez, a que volta e meia a imprensa estrangeira recorre em busca de frases bombásticas.”

Esta advertência, de que a imprensa deve tomar cuidado com as informações vindas das agências noticiosas internacionais ao reproduzir os jornais venezuelanos já foi emitida por Clóvis Rossi ao prefaciar o livro Venezuela: A encruzilhada de Hugo Chavez do jornalista Pablo Uchoa (2003: 11)

Seria um problema para venezuelanos esse comportamento indecoroso da maior parte da mídia, se ele não ecoasse nos demais países. Primeiro, porque as agências de notícias internacionais, especialmente em países periféricos como são todos os da América Latina, usam muito o noticiário da mídia local, tomando-o como retrato real dos fatos. Ao reproduzir os jornais e/ou TVs venezuelanas, as agências acabam vendendo ao resto do mundo uma contrafação da realidade. Ou, mais exatamente, uma conspiração. Além disso, muitos jornais brasileiros usam os sites dos jornais estrangeiros para reforçar o noticiário enviado pelas agências.

A mídia nacional corre na esteira das agências internacionais de notícias, absorvendo-as ardorosamente.

A imprensa brasileira, com raras exceções, cobre muito mal a América Latina e o caso venezuelano é exemplo disso. Um repórter de um grande jornal paulistano, na última semana, chegou a dizer que o país está “à beira de uma guerra civil”, coisa que não vi nem mesmo a oposição afirmar. Outra jornalista opinou, num termo politicamente incorretíssimo, que “a coisa está preta na Venezuela”. Além da desinformação pura e simples, isso demonstra que nossa mídia, em sua maioria, é pautada pelas agências de informação norte-americanas e europeias, extremamente tendenciosas em assuntos dessa natureza. Maringoni – entrevista.

Os poderosos punem

Chomsky afirma que o quarto filtro é a crítica realizada por vários grupos de pressão que procuram as empresas dos meios de comunicação para pressioná-los caso eles saiam de uma linha editorial que esses grupos acham a mais correta (isto é, mais de acordo com seus interesses do que de toda a sociedade).

A imprensa, para Chomsky, seria criticada e abandonada quando atraiçoasse os valores e expectativas mais profundas do público. O que seria da Veja sem os grandes anúncios? A comprovação está no próprio editorial da revista Veja na edição nº 1903, na página 7, “uma estrutura tão grande e complexa seria inviável sem que a revista trouxesse nesta edição um número também maior do que a média”.

Parece ser uma autoexplicação do tipo de jornalismo que pratica.

Para uma editoria de VEJA, o grande prêmio é ter sua matéria principal escolhida para figurar como capa da revista. Isso significa que o trabalho atendeu a critérios nem sempre coincidentes relevância do tema, interesse geral e confecção apurada.

A capa da edição analisada é uma característica marcante da revista. Fausto Neto (1994: 168) em trabalho que analisa o processo de impeachment de Collor cita editoriais da revista neste período “poucas funções em Veja são tão nervosas quanto a do capista. O responsável pela feitura das capas participa da reunião de pauta da manhã de segunda sobre o processo de confecção de uma capa da revista Veja. (…)”

A versão do semanário sobre Hugo Chávez já se encontra no texto:

Uma delas, produzida pelos repórteres da editoria de Internacional, explica os perigos embutidos nas bravatas e nas decisões do presidente venezuelano Hugo Chávez.

A revista antecipa, como que numa ação de limpeza da consciência, que quem de fato comanda a linha editorial são os leitores:

Escolher e editar os assuntos que vão preencher as páginas de uma revista é uma operação ao mesmo tempo vigorosa e sensível. Ela consiste em hierarquizar as notícias da semana, contextualizá-las e tornar agradável e mais fácil a sua leitura. Cabe aos editores filtrar da enorme quantidade de informações obtidas pelos repórteres a cada semana aqueles que julgam ser as mais relevantes. É comum que se pergunte quem confere aos jornalistas esse direito de escolha. A resposta é simples: os eleitores.

O anticomunismo nas redações

Segundo Herman e Chomsky, um dos fatores que explicam a submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista é a ideologia anticomunista atuando como mecanismo de controle que “difunde-se pelo sistema para exercer uma profunda influência sobre a mídia de massa” (Chomsky, 2003: 89).

Vejamos a Veja:

Presidentes de esquerda estão no poder no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. No próximo ano, eleições poderão acrescentar à lista o Peru e o México. É um grupo heterogêneo quanto a métodos e personalidades, mas nenhum dos mandatários que o formam oferece riscos para seus povos e os vizinhos. Curiosamente, o único presidente de países americanos que é uma bomba de efeito retardado, o coronel pára-quedista Hugo Chávez, da Venezuela, não pode ser classificado como esquerdista. (página 154)

Chávez está semeando insurreição e instabilidade em países que, embora nominalmente democráticos, ainda lutam para solidificar suas instituições políticas e jurídicas e suas bases de progresso material. (p. 154)

Nos últimos seis anos, desde que foi eleito, Chávez usou o cargo para iniciar uma versão extemporânea do regime totalitário que existe em Cuba. (p. 154)

Hugo Chávez adotou um virulento discurso antiamericano, que soa como música aos ouvidos dos nostálgicos da Guerra Fria – e eles são numerosos entre a esquerda latino-americana. Uma esquerda que sempre se caracterizou por seguir caudilhos nacionalistas, bastando que eles tivessem um discurso antiamericano. (p. 156)

Até na contextualização histórica a revista deixa sua marca. Ao falar positivamente do Pacto de Punto Fijo, recomendaria aos autores da reportagem de Veja ler trechos de Chomsky (1993:245), tal como o abaixo:

De 1949 a 1958, durante a ditadura do bandido homicida Pérez Jiménez, as “relações dos Estados Unidos com a Venezuela eram harmoniosas e vantajosas economicamente para os negócios americanos”; a tortura, o terror e a repressão geral passaram despercebidas com os rotineiros pretextos da Guerra Fria. Em 1954 o ditador recebeu a Legião do Mérito das mãos do presidente Eisenhower. A declaração formal das virtudes de Pérez Giménez assinalava que “a sua política geral nas questões econômicas e financeiras facilitou a expansão do investimento estrangeiro, e assim a sua administração contribuiu para um maior bem estar da população e para o rápido desenvolvimento das imensas riquezas naturais do país” – e, casualmente, proporcionou enormes lucros para as grandes companhias americanas que dirigem a Venezuela, inclusive, na época, companhias siderúrgicas e outras. Cerca de metade dos lucros da Standard Oil de New Jersey vinham da sua subsidiária venezuelana, para citar apenas um exemplo.

Desde a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos seguiram na Venezuela a clássica política de assumir o controle total das forças armadas “para expandir a influência política e militar americana no hemisfério ocidental e eventualmente ajudar a conservar o vigor da indústria bélica dos Estados Unidos” (Rabe). Como mais tarde explicou Allan Stewart, embaixador de Kennedy, “exércitos anticomunistas orientados pelos Estados Unidos são um instrumento vital para manter os nossos interesses de segurança”. Ele ilustrou a questão com o caso de Cuba, onde as “forças armadas se desintegraram” enquanto em outros países elas se mantiveram intactas e capazes de defenderem a si mesmas e a outros do comunismo”, como demonstrou a onda de Estados de Segurança Nacionais que varreu todo o hemisfério. O governo Kennedy aumentou a sua ajuda às forças de segurança venezuelanas para “operações internas de segurança e rebeliões contra a esquerda”, comenta Rabe, e também mandou pessoal para assessorar nas operações de combate, como no Vietnam. Stewart recomendou ao governo que “dramatizasse” a prisão dos radicais, para causar uma boa impressão em Washington assim como entre os venezuelanos (isto é, os que importam).

Para reafirmar nossas posições realizamos um pequeno levantamento (Tabela 2) das palavras presentes na matéria que ajudam a reforçar a visão da Veja sobre Hugo Chávez.

Termos utilizados pela matéria da Veja.
Tabela 2:

Palavra/termo Número Absolutos Observações
Centralizador 1 Usada para definir o governo venezuelano
Totalitarismo 2
Regime autoritário 2 Para definir tanto o regime de Cuba, quanto ao da Venezuela
Ditadura 2 Usada para referir-se ao regime de Fidel Castro
Fidel Castro 13 É usado como a referência principal de Hugo Chávez, que seria o clone do ditador cubano. “Um fóssil da Guerra Fria”, “capataz magnânimo”, “o decano dos ditadores”
Populista (s) 1
Autoritário 1
Pai da pobreza 1
Fanfarrão 1 Para referir-se a Hugo Chávez
Ditadura socialista 1
Esquerda 7 Usada para conceituar uma parcela da população
Esquerdista (s) 4 Usada para referir tanto a líderes da América latina, quanto a todos militantes antiamericanos
Caudilhismo 1 “a doença senil do esquerdismo”. Chávez é apresentado como um membro da categoria “caudilho iluminado”
Patético 1 Sobre a tentativa de tabelamento dos juros no máximo 28% ao ano

Observa-se que todas as palavras empregadas para situar a Venezuela atual ou o seu presidente são termos antagônicos ao conceito vigente de democracia, tal qual sugerido por Sartori (1994: 246), “em geral, as definições a contrário são as mais fáceis”, ou seja, tudo o que a democracia não é.

O arremate final da matéria é primoroso pelo exemplo de peça ideológica:

Não é surpresa que Chávez fascine tantos esquerdistas, que o vêem como uma novidade saudável na política latino-americana. Fazer avaliações desastrosas e seguir qualquer um que antagonize os Estados Unidos está no DNA dos militantes de esquerda. No passado, a esquerda também seguiu alegremente outros pais da pátria, como Juan Domingo Perón, cuja promessa era resolver todos os problemas da nação com um estalar de dedos e, claro, colocando culpa de tudo nos Estados Unidos. Chávez foi recebido com furiosa alegria no Fórum Social Mundial em Porto Alegre. É um espanto que tanta gente o festeje e não o Chile, o único país latino-americano a diminuir a pobreza pela metade. É a maldição do caudilhismo, a doença senil do esquerdismo. (p. 162)

Construindo um vilão

O que ocorre hoje com o tratamento dado a Chávez é o mesmo que Allende sofreu no Chile.

A “guerra suja da comunicação”, travada na Venezuela contra o presidente Hugo Chávez, é a réplica exata do que fez no Chile, de 1970 a 1973, o jornal El Mercurio
contra o governo democrático do presidente Salvador Allende, até incentivar os militares ao golpe de Estado. Tais campanhas, em que a mídia procura abater a democracia, poderiam voltar a surgir amanhã no Equador, no Brasil ou na Argentina contra qualquer reforma legal que tente modificar a hierarquia social e a desigualdade da riqueza. Aos poderes das oligarquias tradicionais e da reação clássica, juntam-se agora os poderes da mídia. Juntos – e em nome da liberdade de expressão! – atacam os programas que defendem os interesses da maioria da população. É esta a fachada da mídia da globalização. Revela da maneira mais clara, mais evidente, mais caricatural, a ideologia da globalização liberal. (Ramonet: 2005).

O caso de Hugo Chávez é, portanto, pertinente a toda realidade sul-americana.

Tudo leva a concluir que a Veja bebendo e apostando na fonte da mídia internacional, só está esperando mais um escorregão político ou econômico de Chávez ou uma armação “imperialista” no jargão chavista para, no centro dos interesses mundiais, ser crucificado pela mídia. Seja na versão tipo “farsa” iraquiana, seja como um governante que está levando a Venezuela para a bancarrota.

Na versão “farsa iraquiana”, Veja joga também suas fichas nesta política americana de “contenção do chavismo”:

Os Estados Unidos dão mostras de que Chávez está conseguindo seu intento de ser notado. Uma reação parece inevitável e está em curso uma campanha diplomática para isolar o regime de Caracas. (p.161)

Percebe-se, sem entrar no mérito da questão, um esforço concentrado para tornar Hugo Chávez um demônio, totalitário, pertencente ao “Eixo do Mal”.

Para Chomsky (2003:11) a mídia serve bem como propaganda em nome de poderosos interesses sociais que a controlam e financiam.

Em suma, uma abordagem tendenciosa, preconceituosa, alinhada automaticamente aos interesses políticos e econômicos. É pouco jornalismo e mais um libelo belicoso, desproporcional motivado mais por razões políticas, econômicas e morais. A revista semanal usa seu espaço como um tribunal instantâneo para condenar e julgar aqueles que não estão alinhados aos seus interesses. A parcialidade a serviço da manipulação.

A edição Veja nº 1903 é, usando uma expressão de Chomsky (2003: 380), “um caso modelar de propaganda disfarçada de “notícia” ou “análise de notícia”.

Referências Bibliográficas

CHOMSKY, Noam. Ano 501. A conquista continua. São Paulo: Scritta Editorial, 1993.

______________. A arma dos poderosos. Cadernos Lê Monde Diplomatique. Nº1 São Paulo: Unesp, 2002?

MATTOS, Heloisa (org). Mídia, eleições e democracia. São Paulo: Scritta Editorial, 1994.

MARINGONI, Gilberto. A Venezuela que se inventa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

______________. Quem precisa de Veja? Agência Carta Maior, 02/05/2005.

______________. http://www.efpa.com.br/Telas/Noticias/Integra.asp?codigo=119&desc=1. Entrevista concedida a Michelle Rusche. Acesso em 23 de outubro de 2004.

RAMONET, Ignácio.O quinto poder (Ignacio Ramonet, 200-11-10)- http://www.economiabr.net/. Acesso em 12 de junho de 2005.

TRAQUINA, Nelson. O Estudo do Jornalismo no Século XX. São Leopoldo: Unisinos, RS, 2001.

SARTORI, Giovanni. A teoria da democracia revisitada. 1. O debate contemporâneo. São Paulo: Ática, 1994.

UCHOA, Pablo. Venezuela: A encruzilhada de Hugo Chávez; prefácio Clóvis Rossi, São Paulo: Globo, 2003.

Publicado originalmente em:

http://www.partes.com.br/colunistas/gilbertosilva/osfiltros.asp

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