O pretinho básico

O Balcão - Édouard Manet - A elegância do preto em contraste com o branco

O Balcão – Édouard Manet – A elegância do preto em contraste com o branco

John Harvey, em Homens de Preto,  transita entre a política, a arte e a história para analisar os vários usos da cor preta no traje masculino. Para além do mundo da modo o livro de Harvey mostra como a roupa preta já carregou os mais diversos significados ao longo da história.  O autor apresenta o amplo leque de significações que as vestimentas desta cor carregam, tudo com muitas descrições- algumas curiosas – e uma farta ilustração. Da tragédia grega de Ésquilo aos romances do americano Thomas Pynchon, Harvey privilegia as fontes literárias em sua reconstituição da moda negra. Leia abaixo um pedaço do livro que foi editado em português pela Editora Unesp.

 

 

“Homens de Preto”, de John Harvey (Editora Unesp, 340 págs. R$ 48)

Introdução: Roupas, cor e significado

Em O mercado de algodão, Nova Orleans de Degas, a radiosa maciez do algodão novo sobre a mesa, que parece feito da luz branca que o ilumina, contrasta distintamente com as figuras de preto dos conoisseurs e potenciais compradores. Um deles exibe a um colega um chumaço de algodão novo, com um movimento que talvez fosse o mesmo, estivesse ele em outro tipo de quadro oferecendo um cálice a alguém que admira (mesmo que sua postura aqui seja menos celebrativa: ele tem um dos pés sobre o assento de uma cadeira). Em todo o quadro, diferentes pretos contrastam com diferentes brancos: cartolas, couro dos sapatos, escuridão (a lareira); algodão, pintura, papel, luz do dia (a janela). Com sua tranqüila perspectiva de figuras e retângulos, seu espaço e o teto alto, sua luz clara e homogênea, a pintura vê uma certa graça no mundo dos negócios. Os homens em seus costumes negros estão à vontade, examinando, avaliando, confiantes no seu discernimento; o homem negro, vestido de preto, encostado na viga da porta, observa os avaliadores. É o mundo dos homens e do dinheiro, no qual uma matéria bruta deslumbrante (que alguns anos antes teria sido tratada na plantação pelos pais escravizados do homem negro) é comercializada antes de ser transformada em roupa em camisas radiantemente brancas como as que os homens estão usando, especialmente o funcionário em mangas de camisa, à direita, que escreve num livro com uma meticulosa expressão. (Mais tarde, jogada fora como farrapo, a mesma matéria poderá se transformar em papel, ou em jornal.) E a pintura reflete o valor das roupas. A cor negra das roupas dos homens tem a sua formalidade, por mais à vontade que eles estejam. Ela reflete posição social, define se são proprietários ou empregados; também reflete a impessoalidade do seu trabalho de perícia. Todos usam a mesma cor como uma obrigação para com eles mesmos e com a sua posição. O homem de jaqueta clara, na ponta da mesa, não é um deles: talvez seja um plantador, esperando com um olhar preocupado para saber o preço que alcançará o algodão. Ele tem o produto, mas os outros, nesse momento, têm o poder.

As pessoas não mostradas são as mulheres, mesmo que o algodão sobre a mesa vá acabar transformado principalmente em vestidos para elas, especialmente em musselina, que muitas das mulheres ligadas a esses homens usarão em seu mundo: em casa, em seus jardins ou em seus passeios (acompanhadas). Elas usarão principalmente o branco sob o sol de Nova Orleans elas vão parecer tão radiantes quanto o algodão sobre a mesa , tanto quanto os homens usam o negro. E enquanto o branco que elas usam demonstra que não são empregadas (a não ser que o branco seja um avental) e denota virtude mais preciosa que a mais cara musselina feita do melhor e mais caro algodão , é no negro dos homens que está o poder. Ele tem gravidade e autoridade.

É com uma certa surpresa que notamos a segurança tranqüila com a qual esses homens vestem preto. Quinhentos anos antes, na Europa, homens vestidos assim de preto poderiam ser monges ou frades: e a mesa radiantemente branca exibiria objetos sagrados. Eles seriam do clero ou enlutados. Mil anos antes, eles certamente estariam de luto e a longa forma branca sobre a mesa seria o corpo, coberto por sua branca mortalha. Eles não estariam, então, sentados tão casualmente; e não seriam apenas homens. Haveria homens e mulheres de preto, sofrendo juntos. Pois se este livro é sobre um sexo e uma cor, é porque a curiosa metamorfose no uso do tecido preto e o poder adquirido pelo preto aconteceu principalmente, e por razões óbvias, na roupa masculina. O preto da roupa feminina manteve, até quase o século XX, a conotação de luto e de penitência. Mesmo quando, no passado, mulheres ricas e poderosas vestiam preto, elas normalmente precisavam do pretexto do luto para fazê-lo. E o que me parece uma questão curiosa e interessante de ser estudada é a maneira como, através dos tempos, o uso dessa cor uma cor sem cor, sem luz, a cor do pesar, da perda, da humilhação da culpa, da vergonha foi adotado pelos homens não como a cor do que eles perderam ou não possuem, mas precisamente como a marca do que eles têm: posição, bens, autoridade. Em outras palavras, o tema envolve mais que as aparências. Ele diz respeito às relações entre as pessoas em sociedade, e entre homens e mulheres, e também à maneira como as pessoas demonstram externamente o que é, de certa forma, o interior “obscuro” das motivações humanas. Há um mistério residual nesse processo: a conexão entre negro e morte não é jamais completamente deixada para trás. Apesar de o preto ter desenvolvido usos ordinários e insípidos, e também elegantes, sempre houve um elemento sinistro recorrente no uso que os homens fazem do preto.

Este é, então, um estudo sobre a cor e as roupas. Que tipo de significado tem o significado das roupas? É evidente que as roupas realmente significam alguma coisa, e prova disso é a dificuldade em imaginar uma roupa que não tenha significado algum. Mesmo a roupa que diz “pouco me importa o que eu visto” diz exatamente isso, ela significa alguma coisa. No entanto, como sugere o último exemplo, é fácil ser vago sobre o que, precisamente, as roupas significam, ou representam, ou sinalizam para nós. De fato, a incerteza é a marca de uma grande parte da ambiciosa generalização sobre a “linguagem das cores”, como no revelador e informal livro de Alison Lurie:

Especialmente no caso de pessoas com um guarda-roupa limitado, um artigo pode ser usado porque é quente, ou impermeável ou bom para cobrir uma roupa de banho molhada da mesma maneira que pessoas com um vocabulário limitado usam “né” ou adjetivos como “legal” o tempo todo.1

Essa conexão entre pobreza verbal e material não é exata nem atraente como se uma pessoa encharcada, por não poder se proteger da chuva, estivesse na mesma situação de alguém que demonstra entusiasmo dizendo “legal!” o tempo todo. E mesmo que Lurie diga, meio de passagem, que “se a vestimenta é uma linguagem, ela deve ter… uma gramática”, a gramática que ela tenta construir é tão incompleta quanto arbitrária. Ela diz que podemos “considerar enfeites e acessórios como adjetivos ou advérbios”, e cita fivelas nos sapatos e botões nos punhos como “modificadores da sentença que é o traje completo”. Mas é difícil entendê-los como advérbios, já que ela não identifica os verbos. Talvez eles possam ser chamados de adjetivos, mas poderiam igualmente ser chamados parênteses, orações subordinadas, interjeições ou pontuações. Um acessório por exemplo, um emblema pode ser importante o suficiente para ser considerado o sujeito da frase.

Poderíamos de fato considerar a cor um adjetivo das roupas, um uso que corresponderia à maneira pela qual nos referimos às cores em palavras. Mas as cores são também comparadas por Lurie ao tom e à altura da voz, o que parece compreensível: a idéia principal é que a cor nas vestimentas não é nem um adjetivo nem um tom de voz. Se as roupas têm uma linguagem, esta não corresponde tão exatamente à linguagem verbal e, por extensão, não pode conter significados da mesma maneira que as palavras.

Se nos dirigirmos a uma lingüística mais sistematicamente científica do vestir, como a proposta por Roland Barthes em O sistema da moda, vemos que é dada muita atenção e análise, precisamente, às diferenças na maneira pela qual roupas e palavras expressam seus significados. Ao colocar a linguagem usada para as roupas os textos de moda ao lado das roupas descritas (ele identifica, jocosamente, a unidade do “vesteme“), Barthes consegue ser exato sobre as maneiras muito diversas nas quais roupas e linguagem se expressam. Assim, enquanto registra as oposições que dão significado às peças de roupa (oposições de peso e leveza, abertura e fechamento, ênfase e neutralidade), ele também registra a diferença principal:

Tudo na linguagem é um sinal, nada é inerte; tudo emite significado, nada o recebe. No código vestuário, a inércia é o estado original… uma saia existe sem significado, antes de significar; o significado que recebe é ao mesmo tempo encantador e evanescente: [os textos de moda] tomam objetos insignificantes e… os investem com um significado, dão a eles a vida de um sinal; podem também retirar deles esta vida, de modo que o significado é como uma graça recebida pelo objeto.2

Em O sistema da moda, a principal preocupação de Barthes é com o significado amplo mas particularmente evanescente como uma graça que é concedida e retirada de “estar na moda” (ele nota que “na moda, negro é uma cor completa”). É possível que em outros contextos possamos achar uma estrutura mais durável dos significados das roupas, como é certamente o caso com qualquer tipo de uniforme, como argumenta Nathan Joseph. Aparentemente, no entanto, o que Barthes chama de “código vestuário” é diferente da maior parte dos códigos por ser, em suas palavras, frágil. Umberto Eco preferiu usar o termo “subcódigo” para definir a maneira pela qual as roupas expressam significado, no sentido de que elas funcionam mediante uma combinação de sugestões e pistas em vez de usar sinais claros e preestabelecidos.3

De fato, a maneira pela qual as roupas “significam” não é semelhante ao significado verbal, mas sim ao significado presumido de uma pessoa que diz “eu sei o que você quer dizer” e então coloca a construção dela, com as palavras dela, sobre as suas palavras. Os “significados” das roupas são “construções” colocadas sobre elas, e não podem ser lidos num dicionário, como o podem os significados verbais. Esses significados baseiam-se na percepção de escolhas específicas (ou na abdicação da escolha) no que diz respeito a tecido, cor, corte, mas há um alto grau de ambigüidade quanto ao objetivo dessas escolhas. Além disso, qualquer significado na roupa será corroborado ou modificado pela postura e movimento do corpo dentro dela. Existe uma inescapável “multivalência” no vestir: e isso é especialmente verdadeiro em relação ao “significado” das cores, que são facilmente mal interpretadas como no caso da cor vermelha. Ela é politicamente ativa, ou sexualmente convidativa, ou simplesmente alegre, ou talvez zangada?

Isso quer dizer que um estudo de como as roupas funcionam como sinais deve levar em conta o modo como os sinais funcionam como sinais, não somente por meio de códigos preestabelecidos (como no caso de um farol vermelho ou verde), mas também por meio de associações históricas indeterminadas (como no caso das várias espécies de setas de direção um sinal sem contra-sinal trazendo nelas a memória de flechas e lanças reais), e também pelo sistema consciente ou inconsciente de gestos. Voluntários ou involuntários, os gestos podem ser lidos pelos outros como sinais quer tenham ou não essa intenção (como ruborizar, por exemplo). Assim, insegurança, nervosismo, uma origem social modesta podem ser percebidos no vestir sem serem sinais intencionais; nas roupas de um anfitrião cortês, por exemplo, a combinação de cores, cada uma com sua ambigüidade, pode enviar ao mesmo tempo uma variedade de sinais, todos demonstrando atenção por parte de quem as veste. As ambigüidades, brincadeiras e equívocos do vestir são tão sutis e múltiplos que uma ciência capaz de explicá-los precisaria ser uma ciência da implicação contraditória inferida e não uma semiótica de códigos claros. Comentaristas especializados na área da semiótica, como Susan Kaiser, diferenciaram vários níveis de comunicação das roupas, traçando, em um extremo, “os mais complexos tipos de mensagem da aparência plenos de ambigüidade, emoção, expressão”.4 Mais do que uma lingüística do vestir, há momentos em que queremos uma poética do vestir.

Notas:
1 Alison Lurie, The Language of Clothes (London, 1982, p.5).
2 Roland Barthes, The Fashion System, tradução em inglês Matthew Ward e Richard Howard (New York, 1983, p.64-5) [O sistema da moda, Edições 70, 1999].
3 The Fashion System (p.173). Nathan Joseph, Uniforms and Nonuniforms: Communication Through Clothing (New York, 1986). Para uma listagem de diferentes “leituras” do vestir, ver Michael R. Solomon (Ed.) The Psychology of Fashion (Toronto, 1985); o “subcódigo” de Eco (A Theory of Semiotics, Bloomington, IN, 1979) é discutido por Fred Davis, “Clothing and Fashion as Communication” em Solomon, Psychology of Fashion (p.15-27).
4 Susan B. Kaiser, “The Semiotics of Clothing: Linking Structural Analysis and Social Process”, em The Semiotic Web 1989 (New York, 1990), de Thomas A. Sebeok e Jean Umiker Sebeok (Ed.) (p.616).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s