Os filtros da submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista

Como podemos sob a ótica das formulações sobre o Modelo de Propaganda de Herman e Chomsky (A Manipulação do Público) refletir sobre a mídia brasileira

 

 


Os filtros da submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista

Os autores americanos afirmam a existência de elementos que filtram as notícias, destacando as matérias favoráveis aos interesses do governo e dos grandes interesses econômicos privados. Estes filtros atuariam com naturalidade. Assim, os jornalistas não colocariam em causa a sua honestidade profissional e estariam convencidos de que escolhem e interpretam as notícias baseadas em critérios jornalísticos desligados de pressões externas. Esta situação tornaria difícil imaginar formas alternativas de se selecionar e processar o que se noticia. Segundo Chomsky e Herman (2003), os cinco filtros que levariam o jornalismo americano a tornar-se um Modelo de Propaganda onde toda a cobertura dos acontecimentos nos meios de comunicação é tratada como campanha de publicidade maciça.

Os filtros são os seguintes:

  1. Porte, propriedade e orientação para os lucros da mídia de massa: o primeiro filtro.
    Baseado na estrutura de propriedade da mídia. As mídias dominantes são grandes empresas e corporações, controladas por ricos e poderosos ou por gerentes que estão sujeitos a intervenções dos patrões ou de forças voltadas para o mercado e o lucro. Estas mídias estão solidamente unidas por interesses em comum com outras grandes corporações, bancos, investidores e governo.
    Os negócios dominam as informações.
    Chomsky afirma que a concentração da propriedade e a orientação lucrativa das empresas jornalísticas acarretam num menor número de pessoas dominando os órgãos de imprensa fato este que facilita as pressões e a dependência.

 

  1. A licença da propaganda para fazer negócios: o segundo filtro. Segundo Herman e Chomsky, na interpretação de Traquina (2001: 83) “As empresas são fortemente dependentes da publicidade no que diz respeito a rendimentos e ligadas a outras grandes firmas por laços comerciais e pessoais”. Os anunciantes escolhem criteriosamente os programas tomando por base seus princípios e evitam programas que possam interferir no “poder de compra” dos consumidores. Assim, muitas vezes, programas com bons conteúdos são excluídos da programação.
    Nas amarras da publicidade

“Grandes empresas anunciantes da televisão raramente patrocinarão programas que contenham críticas sérias às atividades empresariais tais como o problema da degradação ambiental, as engrenagens do complexo industrial-militar, ou o apoio corporativo e os benefícios às tiranias do Terceiro Mundo.” (p.76)  

Para Chomsky a publicidade como primeira fonte de rendimento das empresas jornalísticas, leva as empresas jornalísticas a evitar ofender os clientes – entre os quais os diversos órgãos de governo e a administração pública – com matérias que estes possam considerar indesejáveis. Os meios de comunicação são, na verdade, empresas orientadas para o lucro a partir da venda de seu produto – os leitores – para outras empresas – os anunciantes. O modelo de Chomsky prevê que se deve esperar a publicação apenas de notícias que reflitam os desejos, as expectativas e os valores dessas empresas.

 

  1. Buscando fontes de notícias de mídia de massa: o terceiro filtro. Existe uma dependência dos grandes jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial. Os meios de comunicação de massa necessitam de notícias diárias, cumprem horários apertados e dificilmente têm jornalistas em diversos lugares onde fatos importantes podem acontecer. Isto sem contar o total enxugamento das redações. Percebendo isso, fontes do governo e das corporações se “esforçam” para tornar as coisas mais fáceis para a mídia, enviando discursos adiantados de conferências e reuniões, releases e pronunciamentos de acordo com o horário de fechamento dos jornais. Isto facilita para a mídia e em troca, as grandes entidades e o governo obtém acesso especial na mesma.
    Dependência de fontes governamentais
    O terceiro filtro é o fato de existir uma dependência dos jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial. Os meios de comunicação dependem fortemente das grandes empresas e das instituições governamentais como fonte de informações para a maior parte das notícias. A mídia deposita nestas fontes confiança nas informações dadas pelos órgãos do governo e das empresas privadas dominantes e agências de relações públicas.

Chomsky explica que um dos cinco fatores que levam à submissão do jornalismo aos interesses do capitalismo é a dependência dos jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo empresarial.

 

  1. A bateria de reações negativas e os fiscais de cumprimento: o quarto filtro. O autor usa do termo bateria de reações negativas (cartas, telefonemas etc) para se referir às respostas negativas dadas a um programa ou declaração da mídia, com a finalidade de regulamentar ameaçando e ‘corrigindo’ a mídia, tentando conter qualquer desvio da linha estabelecida. O noticiário em si está projetado para produzir essa reação.

Os poderosos punem
Chomsky afirma que o quarto filtro é a crítica realizada por vários grupos de pressão que procuram as empresas dos meios de comunicação para pressioná-los caso eles saiam de uma linha editorial que esses grupos acham a mais correta (isto é, mais de acordo com seus interesses do que de toda a sociedade).
A imprensa, para Chomsky, seria criticada e abandonada quando atraiçoasse os valores e expectativas mais profundas do público.

 

  1. Anticomunismo como mecanismo de controle: o quinto filtro. Apesar de conhecermos a função real da mídia é notório que esta é manipulada pela classe dominante, se tornando um “sistema de mercado guiado” por governos, líderes de comunidades e acionistas destas mídias. Segundo Chomsky (2003:88) “essa ideologia ajuda a mobilizar a população contra o inimigo comum”, no caso o comunismo e ” como o conceito é obscuro, pode ser utilizado contra qualquer um que defenda políticos que ameacem os interesses de proprietários”.

O anticomunismo nas redações
Segundo Herman e Chomsky, um dos fatores que explicam a submissão do jornalismo aos interesses do sistema capitalista é a ideologia anticomunista atuando como mecanismo de controle que “difunde-se pelo sistema para exercer uma profunda influência sobre a mídia de massa” (Chomsky, 2003: 89).

Para Chomsky (2003:11) a mídia serve bem como propaganda em nome de poderosos interesses sociais que a controlam e financiam.

Em suma, uma abordagem tendenciosa, preconceituosa, alinhada automaticamente aos interesses políticos e econômicos. É pouco jornalismo e mais um libelo belicoso, desproporcional motivado mais por razões políticas, econômicas e morais.  Se uma revista semanal usa seu espaço como um tribunal instantâneo para condenar e julgar aqueles que não estão alinhados aos seus interesses isso é a parcialidade a serviço da manipulação….

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