24 de agosto e o Suicídio de Getúlio Vargas em 1954

dest_getulioNo dia 24 de agosto de 1964, há 61 anos, o presidente Getúlio Vargas se suicidou.  Em seus últimos dias de vida ele foi atormentado por uma pressão exacerbada por parte do exército, do congresso nacional e da imprensa. Seu suicídio causou grande comoção popular repercutindo nas forças políticas da época. Segundo historiadores, com esta atitude drástica ele conseguiu adiar por dez anos um golpe militar que poderia eclodir em 1954.

 

Presença de Getúlio
Clóvis Senna

Em fins de 1964 dois espetáculos marcaram a resistência artística ao regime udenomilitar que se abatera sobre o país – Opinião, de Oduvaldo Viana Filho, no Teatro de Arena da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, e O Homem do Princípio ao Fim, de Millor Fernandes, em Ipanema, e formado de poesia de Lorca, trechos do Eclesiastes, Salmos, Shakespeare, do discurso de Lincoln, da Carta Testamento de Getúlio. No palco, Fernanda Montenegro e Sérgio Brito se revezavam. O ponto alto do espetáculo era a leitura da Carta por Sérgio Brito, com o rosto de Getúlio projetado em slide ao fundo. O palco mergulhava num silêncio total, para explodir ao final. E Sérgio, para o sucesso de seu trabalho, soube dar à leitura uma entonação de carta, tranqüila, e não de comício, conforme a equivocada impostação de Paulo Gracindo na peça Vargas, de Ferreira Gullar e Dias Gomes: mais gestos que conteúdo.

Ocorre que os golpistas de 64 eram todos anti-getulistas, portanto entreguistas de nossa economia. O que então fizeram? Proibiram a leitura da Carta naquele espetáculo. O grupo excursionou pelo país. Na hora da Carta, aparecia apenas o slide ao fundo, com Sérgio Brito, de óculos, olhando para o texto, durante os dois minutos da hipotética leitura, em silêncio.

É que a Carta incomodava, como incomoda e continuará a dar bofetadas em todos os equivocados e traidores do país, através dos tempos. Os jovens de hoje quase não conhecem Getúlio. Durante o regime de 64, passou a sair uma literatura desfiguradora daquele estadista, e com a anistia de 1979, enquanto os escritores chamados brazilianists retornavam aos Estados Unidos, os chamados trotskistas e stalinistas caboclos, também incomodados com o vulto daquele notável brasileiro, retomaram o papel de fazer-lhe guerra à memória.

No Brasil antes de Getúlio, o trabalhador não tinha férias nem aposentadoria. A jornada de trabalho era ao gosto do patrão. A mulher não votava e o voto era a descoberto, às vistas do fiscal do governo. A Questão social? Essa um “caso de polícia”, conforme expressão do presidente Washington Luís, e os artistas tinham, todos, de ser registrados na polícia.

Getúlio significou a virada disso tudo; é o enfrentamento com as oligarquias; Getúlio é comício, é a mulher votando e sendo eleita, é o direito à indenização, às férias e à jornada semanal de trabalho; é o concurso para ingresso no serviço público.

As oligarquias do café-com-leite apelidavam-no, desdenhosas, de Pai-dos-Pobres; os fascistas; fortíssimos à época, consideravam-no comunista e os comunistas o pixavam de fascista, e ainda de querer fundar uma república sindicalista. Nada disso; Getúlio não seguia receitas estrangeiras e sua inspiração foi sempre o Brasil e seu povo.

Getúlio incomoda a tal ponto que tanto as forças do regime de 64 caracterizadas pela Rede Globo quanto uns ditos esquerdistas se irmanaram na campanha contra a construção, no Rio, pelo governo Brizola, do Memorial Getúlio Vargas, isto enquanto setores paramilitares dinamitavam, em Porto Alegre, o monumento à Carta. Afinal a carta é pensamento, é idéia, é pensamento vivo, e isso perturba os que pretendem tapar o sol.

Infeliz do país que precisa de heróis, diz Brecht. Pode não ser verdadeiro, mas esse pensamento é um achado. E Getúlio Vargas vem muito a propósito, justamente porque vivemos numa época de ausência de estadistas. O Brasil precisa de heróis, e necessariamente aflora a figura multifacetada de Getúlio, o estadista que trouxe para o poder a semana de Arte Moderna, que criou as primeiras universidades, instituiu a legislação trabalhista, fundou siderúrgicas, a Eletrobrás, a Petrobrás, Alcalis, Bancos do Nordeste, da Amazônia, o BNDE, a Previdência Social, e que, com sua famosa e derradeira Carta, deflagrou a tomada da consciência dos países e povos do Terceiro Mundo.

Inimigos, é claro, Getúlio teve. Mas não entre a classe trabalhadora, sobretudo entre os humildes. Seus inimigos eram os setores alienados: aqueles que tinham matriz mental em Moscou, em Washington, Roma e Berlim. Getúlio era o nacionalista, a despertar o povo brasileiro para as suas pontencialidades imensas, a fazer o brasileiro no Brasil.

Daí a identidade entre Getúlio e Villa Lobos. Convém notar que Villa não era a estátua de hoje, e sim um músico abrindo caminho e inspirado nas coisas e sons do povo brasileiro. Não poderiam ser maiores as afinidades entre o estadista e o mais notável de seus músicos. Daí a notícia da presença d e Getúlio ser motivo de o campo do do Vasco ficar superlotado, bem como o Pacaembu e por último o Maracanã. E tinha-se de ir cedo, a fim de ser assegura um lugar, Comício com Getúlio era garantido sucesso. A legislação eleitoral da época permitia – não havia o casuísmo domicílio eleitoral – e Getúlio foi eleito, ao mesmo tempo, deputado e senador por vários. Estados. E não se diga que Getúlio apelasse, descesse o nível. Isso nunca. Sua oratória sempre foi de alto nível e num tom ameno, sincera à cuca e ao coração das pessoas. Deferente de seu adversário, general Juarez Távora, líder da UDN-militar, que falava dando murros na mesa.

E porque os extremos se encontrassem, enquanto a UDN, dona do dinheiro e dos meios de comunicação da época no país, fazia campanha para enlamear o presidente, os comunistas pixavam muros com Abaixo Getúlio. Afinal todas as a alienações sentem despeito, porque o Brasil enfim tivera um estadista de verdade, e Getúlio Vargas preenche todo um século.

Clóvis Senna, jornalista político durante muitos anos em Brasília, é hoje escritor e poeta. O texto foi escrito para o jornal Brasil Hoje, em junho de 89.

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