Beth Lobo

Quando as questões de gênero saem das sombras

 

bethloboEm 30 de agosto de 1943 nascia no Rio Grande do Sul Elisabeth Souza-Lobo uma das referências do sindicalismo e do movimento de mulheres e uma das fundadoras do PT. Em 1965 graduou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1979 concluiu seus estudos de pós-graduação na Universidade de Paris. Depois de passar por exílios entre o Chile e a França, Beth voltou ao Brasil em 1979 e foi morar em São Paulo. Trouxe na bagagem uma rica experiência de militância política e logo voltou a dar aulas em universidades e a estudar sobre os sujeitos sociais, realizando pesquisa sobre as trabalhadoras na indústria metalúrgica. Beth Lobo participou de entidades do movimento feminista, como a Associação de Mulheres de São Paulo, e incentivou a formação do grupo Sexualidade e Política. Contribuiu com o processo de organização das mulheres sindicalistas, principalmente das filiadas à Central Única dos Trabalhadores (CUT). No jornal Mulherio escreveu diversos artigos sobre a temática feminista. Participou da comissão de mulheres do Partido dos Trabalhadores, lutando pela incorporação das questões relacionadas à mulher nas plataformas e programas desse partido.

Em 1984 fez seu pós-doutorado no CNRS. Como docente, trabalhou na Universidade de Santiago do Chile, em 1973, e em 1978, na Universidade de Paris VIII. De volta ao Brasil, entre 1981 e 1990, trabalhou na UNIMEP, na UNESP-Marília e na UNICAMP. Em 1989, lecionou na Universidade de Québec, Canadá. Este fundo reúne documentos relativos às atividades docentes e de pesquisa da titular, ligadas aos temas do trabalho feminino e relações de gênero, documentos administrativos relacionados a suas atividades docentes. O período da documentação é de 1967 a 1991. Outros documentos sobre movimento de mulheres, feminismo e relações de gênero, consulte no AEL: Coleção Movimentos Sociais Recentes, Fundo Eloísa Prestes, Fundo Coletivo Feminista de Campinas e o acervo bibliográfico e de periódicos.

Elisabeth Souza-Lobo inovou, desde o início dos anos 1980, as pesquisas sobre gênero e trabalho no Brasil, dedicando-se ao ensino e à pesquisa nessa área a partir de 1982, no corpo docente do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Ela conceptualizou, a partir das práticas operárias da região do ABC paulista, a divisão do trabalho entre homens e mulheres e teve intenso intercâmbio intelectual com pesquisadoras da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

Aliou perspectiva feminista e trabalho teórico, como suas precursoras Heleieth Saffioti e Eva Alterman Blay o fizeram. Estaria de acordo, certamente, com a afirmação da filósofa francesa Elsa Dorlin, de que “O sexo é, antes de mais nada, político”. Por isso, a problemática da dominação entre os sexos e suas consequências sempre foi central na Sociologia do Trabalho, na qual contribuiu, de maneira original, na estrutura e desenvolvimento no Brasil.

Sua morte prematura em março de 1991, aos 47 anos, impediu a realização de novas pesquisas, novas teorizações e intercâmbios, mas a disseminação de suas ideias se deu por colegas e discípulas, doutorandas e estudantes, como também pelas sindicalistas e militantes políticas com quem conviveu e trabalhou no dia a dia. Entre as especialistas da questão do gênero no Brasil, foi uma das primeiras a analisar o difícil acesso das mulheres aos postos de comando, sobretudo no campo político e sindical.

A atualidade das reflexões de Beth Lobo, como  era carinhosamente chamada, se evidencia quando se compara o princípio de não hierarquização das diferenças, dos objetivos estratégicos, do “principal” e do “secundário” às teorias da “consubstancialidade”, de Danièle Kergoat, ou da “intersecionalidade”, de Kimberlé Crenshaw: relações de classe, sexo e raça estão imbricados e são indissociáveis. Nos seus estudos, privilegiou a questão da subjetividade e a intersubjetividade, um tema marcante de pesquisas recentes sobre as formas de gestão do trabalho e das relações sociais de gênero.

classeoperaria_capa_frontalSeu livro, A classe operária tem dois sexos – trabalho, dominação e resistência é a coletânea de artigos e ensaios publicada como obra póstuma no final de 1991, pela editora Brasiliense, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), dirigida à época por Marilena Chaui. Com textos escritos por Elisabeth Souza-Lobo entre 1982 e 1991, três grandes temas estruturam a obra: estudos sobre Sociologia do Trabalho, reflexões sobre questões metodológicas e análises sobre as mulheres nos movimentos sociais. Através de suas múltiplas pesquisas, Beth Lobo  demonstrou que a classe operária é heterogênea,que operárias e operários não agem da mesma  maneira no trabalho, na família ou na ação coletiva. Os conceitos de representação ou de experiência também se revelaram heurísticos no desenvolvimento da análise das relações sociais.

Espírito heterodoxo e libertário, dedicou seu primeiro livro à vida da revolucionária russa e judia Emma Goldmann (Brasiliense, 83). Sua militância plural era capaz de construir as pontes necessárias para integrar diferentes frentes de trabalho e luta: partido, sindicato, vida universitária, movimentos sociais e feministas. A cultura do trabalho elaborada e reelaborada no trabalho, conforme sua expressão em “Masculino e feminino na linha de montagem – divisão sexual do trabalho e controle social”, apontou-lhe a questão da heterogeneidade das formas de dominação e a multiplicidade de práticas de resistência desenvolvidas por trabalhadores e trabalhadoras na sociedade brasileira. O mesmo pode-se afirmar em relação à temática da subjetividade, isto é, como homens e mulheres vivem, sentem e percebem as suas condições sociais de existência.

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